247 – Em entrevista ao Boa Noite 247, o jornalista André Lobão afirmou que a Copa do Mundo deixou de ser apenas uma competição esportiva para se consolidar como uma engrenagem da economia global. Na avaliação dele, o futebol internacional passou a reproduzir a lógica do neoliberalismo, transformando países tradicionalmente formadores de jogadores, como Brasil, Argentina e Uruguai, em fornecedores de mão de obra para um mercado concentrado na Europa.
“A Copa do Mundo é um grande negócio. A Copa do Mundo é estruturada, construída como uma ode ao capital, uma ode ao neoliberalismo”, afirmou Lobão ao analisar as mudanças na organização do futebol internacional e seus impactos sobre as seleções sul-americanas.
Segundo o jornalista, a transformação do futebol acompanha a reorganização econômica mundial. Para ele, embora a América do Sul continue sendo um dos principais celeiros de talentos do esporte, o centro de decisão econômica, financeira e esportiva deslocou-se para o continente europeu, especialmente para ligas como a inglesa e a espanhola.
Lobão comparou essa dinâmica ao papel ocupado historicamente pelos países periféricos na economia internacional. “O futebol é o símbolo do neoliberalismo, da globalização. O Brasil acaba se tornando um centro periférico. A gente acaba se tornando fornecedor de mão de obra para esse grande negócio chamado futebol”, disse.
Na avaliação do jornalista, essa relação tornou-se ainda mais intensa nas últimas décadas. Se antes os clubes europeus contratavam atletas já consolidados, atualmente buscam jogadores ainda adolescentes, modificando o processo de formação esportiva e reduzindo o tempo de permanência dos principais talentos nos campeonatos nacionais.
Como exemplo, Lobão lembrou o caso de Lionel Messi, que deixou a Argentina ainda criança para integrar as categorias de base do Barcelona. Para ele, esse modelo passou a orientar o recrutamento de jovens atletas em praticamente todos os grandes centros produtores de futebol.
O jornalista argumentou que essa concentração de recursos faz com que a Copa do Mundo também funcione como vitrine da força econômica das potências centrais. Em sua leitura, o torneio acaba servindo para projetar a superioridade das ligas europeias e reforçar a centralidade do capital no esporte.
“A Copa do Mundo hoje é moldada para as grandes seleções europeias se tornarem campeãs. É uma grande peça de propaganda do capitalismo, do neoliberalismo, para demonstrar a força do poder econômico do chamado primeiro mundo”, afirmou.
Apesar dessa estrutura, Lobão ressaltou que países sul-americanos ainda conseguem desafiar essa lógica em determinados momentos. Ele citou o título conquistado pela Argentina na Copa de 2022 como demonstração de que a tradição futebolística da região continua sendo capaz de competir em alto nível, mesmo diante da concentração econômica do futebol europeu.
Para o jornalista, entretanto, essas conquistas não alteram a estrutura do mercado internacional do esporte. Em sua avaliação, a lógica predominante continua sendo a transferência precoce dos principais talentos para clubes europeus, consolidando uma relação que ele define como neocolonial.
Ao analisar esse processo, Lobão concluiu que o futebol contemporâneo passou a refletir as mesmas relações econômicas observadas em outros setores da economia global, nas quais países periféricos exportam seus principais recursos enquanto o controle financeiro e institucional permanece concentrado nos países centrais.
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