No âmbito da direita brasileira, Michelle Bolsonaro é quem capta — e exerce — com mais desenvoltura o discurso falso-moralista, predominante entre evangélicos, porém presente em fiéis de todas as religiões. Daí sua relevância político-eleitoral. Autoatribuir-se missão evangelizadora, exaltar valores conservadores que orientam as famílias ditas tradicionais — pai provedor, mãe submissa e filhos encurralados — atrai eleitores desprovidos de percepção crítica, seguidores cegos de tudo que lhes foi vendido por gerações anteriores como inquestionável. São soldados da perpetuação de preconceitos.
O mais interessante no “fenômeno” Michelle é que a família a que ela pertence constitui um exemplo de desestruturação e desamor, como não poderia deixar de ser qualquer grupo encabeçado por Jair Bolsonaro. Até vídeo em rede social confrontando um enteado ela posta, se isso atender à sua estratégia eleitoral. No lar bolsonarista, ninguém respeita ninguém, ninguém confia em ninguém, ninguém suporta ninguém, como resta público, evidente e notório. Não há escrutínio moral que avalize a família Bolsonaro.
A explicação para o potencial eleitoral da ex-primeira-dama talvez seja a absoluta suscetibilidade de milhões de brasileiros ao charlatanismo religioso — ela não é uma sacerdotisa, mas porta-se como tal. Os charlatães da religião, eis a chave, revelam-se mestres da politicalha, e Michelle lhes serve como instrumento ideal, tanto mais para aqueles que interpretam o sucesso material como bênção de Deus. O foco na prosperidade gera uma ética elástica na qual ostentação e métodos financeiros agressivos de lideranças são justificados como sinais de unção, blindando figuras públicas de críticas morais sobre a origem de suas fortunas — vide Eduardo Cunha, Milton Ribeiro, Pastor Everaldo e outros.
Historicamente, o protestantismo europeu e norte-americano teve alas fortemente engajadas em reformas sociais, direitos civis e combate à pobreza. No Brasil, a identidade evangélica majoritária — não toda — canalizou sua energia para a moralidade sexual e familiar, numa verdadeira cruzada contra o aborto e o casamento homoafetivo, entre outros temas. Ao reduzir o conceito de pecado a comportamentos sexuais, os evangélicos criaram uma blindagem: políticos e líderes podem cometer crimes de corrupção, lavagem de dinheiro ou improbidade administrativa sem perder o apoio da base, desde que mantenham um discurso público inflamado em defesa da “família tradicional”.
De outra parte, é assustador que pessoas que se dizem aferradas à palavra de Deus nutram tanto ódio por cristãos sensíveis ao sofrimento humano, como é o Padre Júlio Lancellotti, alguém que se ocupa de levar uma dose de conforto aos desafortunados.
O episódio mais recente de perseguição ao Padre Júlio foi a criação de uma CPI na Câmara Municipal de São Paulo para investigar ONGs que, ao lado dele, realizam serviços sociais na capital. O autor do pedido foi o vereador Rubinho Nunes, do União Brasil, integrante do bloco conservador ligado ao bolsonarismo. A lista original de vereadores paulistanos que assinaram o requerimento para abrir a investigação contou com forte apoio de parlamentares declaradamente bolsonaristas, de PL, Republicanos e PP. Diante da enorme repercussão negativa e da pressão da Igreja Católica, diversos parlamentares recuaram e retiraram suas assinaturas. A CPI não emplacou.
Embora Michelle Bolsonaro não tenha assinado diretamente ações locais na capital paulista, os atores políticos envolvidos na perseguição ao Padre Júlio pertencem ao mesmo ecossistema político dela, defendem a mesma agenda conservadora e, para amenizar o sofrimento dos miseráveis, nada fazem nem jamais fizeram.
As perseguições e as fake news sobre o Padre Júlio Lancellotti não vêm de hoje. Em 2020 e, novamente, no início de 2024, criminosos de falsa-fé tentaram emplacar um vídeo gravado de uma tela de computador no qual um homem, supostamente o sacerdote católico, realizava atos sexuais. Políticos ligados ao MBL e parlamentares municipais paulistas tentaram utilizar o material para impulsionar denúncias e criar uma CPI. Tratava-se de uma gravação fraudulenta e manipulada, sem qualquer comprovação de materialidade ou autenticidade. A Arquidiocese de São Paulo arquivou formalmente as investigações internas após o Ministério Público do Estado de São Paulo e a Justiça paulista atestarem a falsidade da acusação.
Circulam de forma recorrente, em grupos de mensagens, postagens afirmando que a Pastoral de Rua do Padre Júlio distribui seringas novas, cachimbos e fomento financeiro para que dependentes químicos permaneçam consumindo drogas pelas ruas de São Paulo. Na verdade, projeto coordenado pelo padre realiza ações de redução de danos à saúde, fornecimento de alimentos, roupas, cobertores e assessoria jurídica. Campanhas de desinformação deturpam os preceitos científicos da redução de danos — como a prevenção de infecções graves por HIV e hepatites — para acusar o pároco de colaborar intencionalmente com o tráfico de drogas.
Vale recordar: em 2017, o deputado Jair Bolsonaro processou Lancellotti após o religioso tê-lo chamado de “racista, machista e homofóbico” em um sermão. A Justiça do Rio de Janeiro julgou a ação improcedente, garantindo o direito à liberdade de expressão e crítica do sacerdote. No fim do seu mandato presidencial, em dezembro de 2022, Bolsonaro vetou integralmente o projeto de lei batizado com o nome do padre, que proibia o uso de “arquitetura hostil” — como espetos e pedras sob viadutos — contra pessoas em situação de rua. O veto foi posteriormente derrubado pelo Congresso.
A figura do Padre Júlio Lancellotti emerge quando se fala de Michelle Bolsonaro porque o contraste entre ambos é demonstrativo da verdadeira polarização em voga no Brasil. Ela, pré-candidata ao Senado ou a outro cargo qualquer, possui as qualidades que inspiram aqueles que, historicamente, semeiam e perpetuam nossas desigualdades, nossos preconceitos e nossa hipocrisia. Ele, livre de aspirações eleitorais, representa um país que pratica uma religiosidade proativa pelos excluídos, por sua dignidade na Terra antes da salvação nos céus.
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