No dia 1º de julho de 2026, por ocasião do 105º aniversário da fundação do Partido Comunista da China, a CGTN Español publicou uma entrevista com José Medeiros da Silva, professor da Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang. Na conversa, são abordados temas como a governança chinesa, o desenvolvimento centrado no povo, a modernização ao estilo chinês e as perspectivas de cooperação entre China e Brasil.
O texto a seguir apresenta uma versão em português elaborada com base na entrevista original em espanhol.
Shan Qian: Olá, professor, seja bem-vindo ao nosso programa.
Prof. José Medeiros: Para todos, é um enorme prazer estar mais uma vez aqui com vocês. Muito obrigado.
Desenvolvimento centrado no povo
Shan Qian: Na obra Xi Jinping: a governança e a administração da China, enfatiza-se repetidamente o pensamento do desenvolvimento centrado no povo. Nas práticas de governança do Brasil, também existem estratégias para o combate à pobreza e à insegurança alimentar, como o programa Fome Zero e o Bolsa Família. Em sua opinião, em que conceitos comuns Brasil e China podem aprender mutuamente sobre a questão fundamental do desenvolvimento voltado ao povo?
Prof. José Medeiros: Penso que o objetivo principal dos governantes, dos governos dos países em desenvolvimento, deveria ser a solução dos problemas sociais mais graves. Esse deveria ser, para mim, o ponto de partida de qualquer governo, em qualquer parte do mundo, onde conquistas mínimas — segurança alimentar, vestuário, transporte, saúde e educação — ainda não foram alcançadas. Já não é admissível, com tanta tecnologia e capacidade de produção disponíveis, que uma parcela significativa da humanidade — segundo a ONU, cerca de 800 milhões de pessoas no mundo — ainda passe fome. Já não é aceitável que isso continue acontecendo.
A China deu um grande exemplo ao mundo quando colocou entre suas prioridades máximas a solução do problema da extrema pobreza. O Brasil também tem enfrentado essa questão; em alguns momentos, alcançou êxitos, mas ainda temos muito a avançar.
Quanto mais intensificarmos a comunicação, o intercâmbio de conhecimentos e o diálogo entre Brasil e China, maiores serão as possibilidades de aprendizagem mútua. A China pode conhecer experiências bem-sucedidas desenvolvidas no Brasil, assim como o Brasil pode aprender com a experiência chinesa. Creio que, em nosso país, acumulamos importantes iniciativas em diferentes áreas, embora ainda tenhamos muito a avançar, especialmente na superação da extrema pobreza. A China, por sua vez, conseguiu enfrentar esse desafio em escala nacional e hoje se dedica a questões muito mais específicas.
Mas, certamente, tanto a China quanto o Brasil têm consciência de que a solução desses problemas sociais mais graves é urgente. Não podemos deixar isso para depois; temos condições, temos tecnologia, temos conhecimento. É apenas uma questão de priorizar.
O exemplo da China está justamente em ter priorizado esse objetivo. Em 2021, por ocasião do primeiro centenário da fundação do Partido Comunista da China, a eliminação da extrema pobreza foi apresentada como uma conquista histórica do país. Essa determinação foi essencial para esse êxito. Acredito que o diálogo entre essas duas grandes nações, esses dois grandes povos, ampliará não apenas a consciência sobre a urgência de enfrentar esses desafios, mas também a construção conjunta de caminhos de aprendizagem e de soluções capazes de responder efetivamente a esses problemas.
Harmonia com a natureza
Shan Qian: A China propôs a modernização ao estilo chinês, baseada na coexistência harmoniosa entre os seres humanos e a natureza. Como o senhor avalia esse novo conceito de desenvolvimento verde e de baixo carbono? Considera que ele dialoga com a estratégia de desenvolvimento nacional do Brasil?
Prof. José Medeiros: Esse conceito aponta para um novo caminho de desenvolvimento. A conhecida expressão — “águas cristalinas e montanhas verdejantes são montanhas de ouro e prata” — demonstra que desenvolvimento econômico e preservação ambiental não são objetivos contraditórios. Ao contrário, a proteção da natureza pode constituir um importante fator de prosperidade.
Em resumo, não existe desenvolvimento sem harmonia. É preciso construir uma relação equilibrada entre os seres humanos, a sociedade e a natureza. A China encontrou esse caminho, vem incorporando esse princípio ao seu processo de modernização e, ao fazê-lo, contribui de forma significativa para o debate internacional sobre o desenvolvimento sustentável.
O Brasil também tem muito a compartilhar com a China. Possuímos um patrimônio natural extraordinário: a Amazônia, os demais biomas brasileiros, o mar e a chamada Amazônia Azul, que compreende a extensa área marítima sob jurisdição brasileira. Essa riqueza, recebida como herança da natureza e das gerações que nos antecederam, precisa ser preservada e valorizada. Vejo aí um amplo campo de cooperação entre Brasil e China, em benefício não apenas de nossos países, mas também das futuras gerações.
O caminho de desenvolvimento chinês
Shan Qian: Na obra Xi Jinping: a governança e a administração da China, que outros pontos de vista ou exemplos mais lhe chamaram a atenção e permitiram compreender melhor o caminho de desenvolvimento da China?
Prof. José Medeiros: A grande contribuição está no fato de a China ter sido capaz de se conhecer a si mesma, compreender sua própria realidade e suas necessidades, e propor um caminho próprio para solucionar seus problemas.
No centro dessa concepção de desenvolvimento estão o povo e o país, pois, na China, ambos formam uma unidade inseparável. Tanto é assim que, na própria concepção chinesa de país, a ideia de família está implicitamente presente. Creio que essa concepção expressa muito bem a relação entre povo e país. Sem família não há país, e sem país a família também não pode prosperar.
Essa concepção tradicional foi assimilada e reinterpretada pelos dirigentes chineses ao longo da história. Em especial, desde sua fundação, em 1921, o Partido Comunista da China soube compreender os desafios próprios de cada momento histórico e definir, a partir deles, as prioridades para o desenvolvimento do país.
Atualmente, como herdeiro dessas conquistas, o país avança para uma nova etapa da modernização. Já não se trata apenas do desenvolvimento econômico, mas também da revitalização cultural, intelectual e espiritual da nação. Trata-se, em última instância, de uma revitalização civilizacional.
No entanto, essa revitalização ocorre em um mundo cada vez mais interdependente. Por isso, não pode ser pensada sem considerar também o desenvolvimento global e a interação com os demais países. Daí surgem conceitos como a construção de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade, o diálogo entre civilizações, a civilização ecológica e a governança global, entre outros, que expressam uma visão de desenvolvimento harmonioso voltada ao benefício de toda a humanidade.
A paz e o multilateralismo
Shan Qian: Tanto a China quanto o Brasil defendem o multilateralismo e a solução pacífica de controvérsias. Em sua opinião, como os dois países poderiam trabalhar juntos para promover uma ordem internacional mais justa e contribuir para a paz e a estabilidade mundiais, especialmente entre os países do Sul Global?
Prof. José Medeiros: Penso que a paz é a questão mais urgente do nosso tempo. Não há nada mais importante hoje para a humanidade do que a defesa da paz. Estamos vendo diversos conflitos regionais e o enorme sofrimento que provocam.
Para nós, que defendemos a paz — e eu me considero um pacifista —, assim como para os países em desenvolvimento, a paz é uma condição indispensável para a prosperidade dos povos. Sem um ambiente pacificado, torna-se muito difícil avançar em qualquer outro objetivo social relevante.
Por isso, grandes e pequenos países precisam unir esforços para que as diferenças sejam resolvidas por meio do diálogo e da busca por pontos de convergência. Não podemos optar pelo confronto, porque suas consequências podem ser incontroláveis. A humanidade ainda guarda na memória tragédias muito recentes.
Temos desafios comuns, como as mudanças climáticas, a pobreza, a segurança alimentar, a saúde e a educação. Todos eles transcendem as fronteiras nacionais. Quanto mais os países compartilharem suas experiências, maiores serão as chances de encontrar soluções eficazes.
Por isso, o diálogo e o multilateralismo são fundamentais. Precisamos substituir o confronto pelo diálogo. Muitas vezes, aquilo que parece uma divergência profunda revela-se, na verdade, apenas desconhecimento mútuo.
E não se trata de um diálogo superficial. Trata-se de identificar os problemas comuns que afetam os povos e trabalhar juntos para resolvê-los. Se conseguirmos fazer isso, a humanidade dará um passo muito importante.
Brasil e China, como duas das maiores nações em desenvolvimento, podem se tornar um exemplo inspirador para o mundo se intensificarem esse diálogo e construírem soluções comuns para desafios comuns. A China já inspira muitos países por ter eliminado a pobreza extrema. Imagine um Brasil e uma América Latina sem fome. Se formos capazes de identificar corretamente os desafios, compreendê-los e propor soluções eficazes, estaremos contribuindo não apenas para o desenvolvimento de nossos países, mas para o de toda a humanidade. Porque não há nada mais poderoso do que um exemplo bem-sucedido.
Shan Qian: Muito obrigada, professor, por sua análise.
Prof. José Medeiros: O prazer foi meu. Gosto muito de compartilhar essas experiências e reflexões, porque vivo profundamente imerso na realidade chinesa. Minha esposa é chinesa, e meus dois filhos estudam em escolas públicas na China. Acredito que essa nova geração será o fator diferencial para aproximar cada vez mais o povo brasileiro — e, em um sentido mais amplo, o povo latino-americano — do povo chinês, fortalecendo uma amizade que gere benefícios não apenas para a China e a América Latina, mas para toda a humanidade.
Link para entrevista original: minutos 12:30 a 24:45
https://espanol.cgtn.com/2026/07/01/ARTI1782881921753156
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