Opinião

China continua vencendo a guerra da energia solar

China lidera transição energética global enquanto disputa por energia solar redefine geopolítica mundial, analisa Miguel do Rosário

Um trabalhador inspeciona painéis solares em uma fazenda solar em Dunhuang, 950 km a noroeste de Lanzhou, província de Gansu
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Enquanto o governo dos Estados Unidos envolve o país em novos conflitos armados no Oriente Médio, para garantir o controle da oferta global de energia e beneficiar suas grandes petroleiras, o verdadeiro tabuleiro do futuro avança em outra direção. A China consolidou uma liderança absoluta na área de energia solar, hegemonizando a transição energética mundial e deixando americanos e europeus para trás.
O mercado de energia solar no mundo atingiu números gigantescos.

Em fevereiro de 2026, a capacidade solar acumulada no planeta passou de 3 terawatts, o equivalente a 3.000 gigawatts. Uma parte importante desse avanço vem diretamente das indústrias chinesas. Existe uma diferença clara entre a participação da China na geração da eletricidade solar e o seu domínio na fabricação dos equipamentos.

Na geração mensal de eletricidade solar, a China responde por aproximadamente 43% do total global. Já na produção física de painéis e equipamentos, o controle chinês é ainda maior, variando entre 80% e 90% de toda a cadeia de suprimentos global, desde o silício até o módulo final que chega às casas.

Empresas como JinkoSolar, LONGi Green Energy, Trina Solar, JA Solar e Tongwei operam em uma escala tão grande que os concorrentes ocidentais não conseguem competir em preço.

Exportações mundiais de painéis solares da China ao longo de 10 anos, refletindo o crescimento contínuo de sua produção industrial

O panorama global: Estados Unidos, Europa e a tecnologia do futuro

A disputa por energia solar também chegou a ambientes extremos, como o fundo do mar e o espaço sideral. Nos Estados Unidos, a SpaceX de Elon Musk planeja lançar satélites equipados com painéis solares no espaço para alimentar data centers de inteligência artificial em órbita, aproveitando o frio do espaço para resfriar as máquinas.

Do outro lado, a China colocou em prática uma solução inovadora sob a água. Em 2023, os chineses ativaram o primeiro data center comercial submarino em Hainan, funcionando a 35 metros de profundidade. Em maio de 2026, inauguraram em Xangai um novo modelo movido por energia eólica offshore. Esses servidores usam a própria água do mar gelada para resfriamento natural, economizando terrenos e água doce na terra, com uma economia de energia de até 60% comparada aos data centers tradicionais.

Enquanto a China lidera, os Estados Unidos mostram dificuldades para acompanhar o ritmo global. Embora a geração solar americana tenha aumentado nos últimos anos, a participação dos Estados Unidos no total gerado no mundo continua pequena, variando apenas entre 11% e 16%.

Geração solar mensal dos Estados Unidos comparada com o restante do mundo e sua participação percentual

Na Europa, o avanço é mais visível. A energia solar representou 13% de toda a eletricidade gerada na União Europeia em 2025. Somando eólica e solar, as fontes renováveis já superam os combustíveis fósseis no continente, representando mais de 45% do mix no início de 2026.

Geração solar mensal da China em comparação com o total mundial

Além disso, a energia solar vem conquistando uma fatia cada vez mais expressiva do próprio consumo de eletricidade da China. Em fevereiro de 2023, a geração solar representava apenas 4,9% do consumo elétrico chinês (34,36 TWh de um total de 701,14 TWh). Em maio de 2026, essa participação saltou para 15,6% de toda a eletricidade consumida no país, atingindo o patamar histórico de 134,22 TWh mensais.

Produção mensal de energia solar da China em comparação com seu consumo total de eletricidade, mostrando o aumento de sua fatia na demanda nacional

O caso do Brasil, a oportunidade de Lula e o custo das baterias

A supercapacidade de fabricação chinesa derrubou os preços internacionais, beneficiando o mercado brasileiro. Após 2023, o preço dos painéis importados caiu drasticamente, permitindo ao Brasil importar volumes muito maiores de equipamentos pagando menos dólares nas operações.

Com essa queda de preços, a energia solar cresceu rapidamente e virou a segunda maior fonte da matriz elétrica do Brasil, com cerca de 25% da capacidade nacional de geração em 2026. Diante disso, o presidente Lula tem a oportunidade de incluir o avanço da energia solar em sua comunicação política. A energia fotovoltaica residencial é a forma mais eficaz de proteger as famílias dos constantes reajustes nas contas de luz. Lula pode destacar que a preocupação com os lucros das concessionárias e distribuidoras de energia não deve ser dividida com o cidadão, e que o povo tem o direito de gerar sua própria eletricidade de forma limpa e barata.

A tecnologia dos painéis também apresenta novidades, como o desenvolvimento de células solares flexíveis baseadas em perovskita. Empresas chinesas conseguiram criar painéis extremamente finos e dobráveis com alta eficiência, o que viabiliza a instalação solar em veículos elétricos, fachadas de prédios e aparelhos portáteis.
Para obter autonomia total da rede elétrica residencial, as baterias são o complemento necessário. No Brasil, marcas de lítio como a BYD lideram esse mercado, já que os modelos da Tesla não contam com suporte oficial no país. Uma bateria residencial atual tem vida útil de 10 a 15 anos. Para uma residência média com 5 pessoas, os investimentos dividem-se em duas opções principais.

A primeira opção é um sistema básico de backup de 3 a 5 kWh, que mantém aparelhos essenciais como geladeira, luzes e internet funcionando por algumas horas de apagão, com custo estimado entre R$ 8.000 e R$ 20.000. A segunda opção é um sistema de autoconsumo de 10 a 15 kWh, capaz de sustentar a casa durante toda a noite com a energia acumulada no dia, custando entre R$ 35.000 e R$ 65.000 para o projeto híbrido completo.

A transição energética solar tornou-se a principal disputa industrial de nossa época, com a China definindo o ritmo de custos e tecnologia no cenário global.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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