247 – Neste 2 de julho, o Brasil celebra o nascimento de Mário Schenberg (1914-1990), um dos maiores físicos teóricos da história nacional e um intelectual cuja obra transcendeu os limites da ciência para alcançar a filosofia, a política e as artes. Nascido no Recife, Schenberg tornou-se referência internacional na física moderna, colaborou com alguns dos maiores cientistas do século XX e deixou contribuições permanentes para a compreensão da evolução das estrelas. Ao mesmo tempo, foi um destacado militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), defensor da democracia, da soberania nacional e do papel social da ciência.
Poucos intelectuais brasileiros reuniram, com tanta intensidade, excelência científica e engajamento humanista. Para Schenberg, produzir conhecimento nunca significou apenas ampliar as fronteiras da física. Significava também contribuir para a emancipação humana e para a construção de uma sociedade mais justa.
Um brasileiro entre os gigantes da física mundial
Ainda muito jovem, Schenberg chamou a atenção de alguns dos maiores nomes da ciência do século XX. Trabalhou ao lado de Enrico Fermi, George Gamow, Wolfgang Pauli, Paul Dirac e Subrahmanyan Chandrasekhar, participando diretamente da construção da física moderna.
Sua contribuição mais conhecida é o chamado limite de Schenberg-Chandrasekhar, conceito fundamental para compreender a evolução das estrelas de grande massa. O trabalho demonstrou que, quando o núcleo de uma estrela atinge determinada proporção em relação à sua massa total, sua estrutura torna-se instável, iniciando uma nova etapa de evolução estelar. Décadas depois, essa descoberta continuaria sendo ensinada em cursos de astrofísica em todo o mundo.
Outro feito marcante foi sua colaboração com George Gamow na formulação do chamado processo Urca, mecanismo responsável pelo intenso resfriamento de estrelas através da emissão de neutrinos. O curioso nome nasceu de uma conversa entre os dois cientistas durante uma visita ao antigo Cassino da Urca, no Rio de Janeiro. Gamow comparou o desaparecimento da energia das estrelas ao dinheiro que rapidamente desaparecia nas mesas de jogo do cassino.
Esses trabalhos colocaram Schenberg definitivamente entre os protagonistas da física teórica internacional.
O fundador da física moderna no Brasil
Ao retornar ao país, Schenberg tornou-se um dos principais responsáveis pela consolidação da pesquisa científica brasileira.
Na Universidade de São Paulo (USP), participou da formação das primeiras gerações de físicos do país, ajudando a transformar o Departamento de Física em um centro de excelência reconhecido internacionalmente.
Sua atuação foi decisiva para a institucionalização da pesquisa científica no Brasil em um período em que o país ainda dava seus primeiros passos na construção de um sistema nacional de ciência e tecnologia.
Defensor da universidade pública, da pesquisa básica e da autonomia científica, Schenberg insistia que o desenvolvimento nacional dependeria da capacidade brasileira de produzir conhecimento próprio, e não apenas importar tecnologia.
Ciência e transformação social
Schenberg jamais separou ciência e sociedade.
Convencido de que o conhecimento científico deveria servir ao desenvolvimento nacional e ao bem-estar coletivo, aproximou-se do marxismo ainda jovem e tornou-se um importante dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Em 1947 foi eleito deputado estadual por São Paulo na legenda comunista. Pouco depois, com a cassação do registro do PCB pelo governo do presidente Eurico Gaspar Dutra, perdeu o mandato juntamente com outros parlamentares comunistas.
Sua militância jamais significou abandono da atividade científica. Pelo contrário: via na ciência um instrumento essencial para reduzir desigualdades, ampliar a soberania nacional e democratizar oportunidades.
Durante a ditadura militar instalada em 1964, Schenberg tornou-se alvo da perseguição política. Foi preso, afastado da Universidade de São Paulo e aposentado compulsoriamente após a edição do AI-5, em 1969. Mesmo impedido de lecionar, continuou produzindo reflexões científicas, filosóficas e culturais.
Um dos maiores críticos de arte do Brasil
Se na física Schenberg era reconhecido internacionalmente, nas artes conquistou respeito igualmente notável.
Foi um dos principais críticos de arte brasileiros do século XX e manteve diálogo constante com artistas como Alfredo Volpi, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Di Cavalcanti, Lasar Segall e Cândido Portinari.
Seu olhar sobre a produção artística era profundamente influenciado por sua formação científica e filosófica. Para Schenberg, criatividade científica e criatividade artística eram manifestações complementares da capacidade humana de compreender e reinventar o mundo.
Escreveu dezenas de ensaios sobre pintura, escultura e estética, tornando-se uma referência também nesse campo.
Um intelectual universal
A amplitude dos interesses de Schenberg impressiona ainda hoje.
Além da física, dedicou-se ao estudo da filosofia, da matemática, da lógica, da literatura, da psicologia, da história das religiões e da cultura oriental.
Era conhecido pela extraordinária memória, pela curiosidade intelectual praticamente inesgotável e pela capacidade de estabelecer conexões entre áreas aparentemente distantes do conhecimento.
Seu pensamento antecipava uma visão hoje cada vez mais valorizada: a de que ciência, cultura e humanidades não competem entre si, mas se fortalecem mutuamente.
Um legado cada vez mais atual
Num momento em que ciência, educação e soberania tecnológica voltam ao centro do debate sobre o futuro do Brasil, a trajetória de Mário Schenberg ganha renovada importância.
Sua vida demonstra que produzir conhecimento de excelência exige investimento público, liberdade acadêmica e compromisso permanente com o desenvolvimento nacional.
Mais do que um dos maiores físicos brasileiros de todos os tempos, Schenberg permanece como símbolo de uma geração de intelectuais que acreditava ser impossível separar produção científica, cultura, democracia e justiça social.
Ao celebrar os 112 anos de seu nascimento, o Brasil homenageia não apenas um cientista extraordinário, mas um pensador cuja obra continua inspirando pesquisadores, artistas e todos aqueles que enxergam no conhecimento um instrumento de emancipação humana.
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