Opinião

Ciro Gomes coloca o fígado no lugar do cérebro

Em suas entrevistas aqui na taba, o pré-candidato a governador do Ceará tem jogado ao vento diatribes, catilinárias aos borbotões contra seus adversários

Ciro Gomes com seu boné
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“O ódio é o prazer mais duradouro.Os homens amam com pressa, mas odeiam com calma.“ Lord Byron, poeta britânico do século XIX, expoente maior do ultrarromantismo.

Começo este artigo pedindo ao caro leitor desculpas pelo circunlóquio que terei que fazer. Mas para chegar onde quero é preciso ir cercando-lourenço. Eu começo esta narrativa citando um condestável da política brasileira do século XX: Ulysses Guimarães, que ao longo de sua trajetória vital parece ter sido tirado de alguma epopeia. Um intimorato coerente, digno e incorruptível. Caráter sem jaça, o Ulysses que não é o de Homero, saiu dos bancos da academia do Largo do São Francisco para se transformar em figura mítica na vida pública nacional. Além de todos os predicados já citados o Se nhor Diretas, assim ele ficou cognominado na campanha das Direta Já, em 1984, era ainda um grande frasista. A expressão “não se faz política com o fígado” é atribuída a Ulysses, que deve ter dito a frase em suas perorações em muitos palanques Brasil afora. No jargão da política, a sentença significa agir movido por emoções vigorosas como ressentimento, raiva, ódio e mágoa. É uma expressão de sentido figurado que se opõe à “política feita com a cabeça” (ou com o cérebro), que exige razão, diálogo, estratégia e planejamento. É de Ulysses também a seguinte epígrafe: “Em política, até a raiva é combinada.” É por estas e por outras citações que Ulysses Guimarães virou uma espécie de oráculo da política nos tristes trópicos.

Feita a digressão, volto a abordar o comportamento histriônico do ex-quase-tudo Ciro Ferreira Gomes. Sobre ele há que se dizer preliminarmente duas coisas que o notabilizaram  ao longo de sua caminhada na vida pública: o poder da retórica e os rompantes, que sempre foram seus algozes. Pavio curto, arrogante, estourado, bravateiro, dele já se disse quase tudo. 

Em suas entrevistas aqui na taba, o pré-candidato a governador do Ceará tem jogado ao vento diatribes, catilinárias aos borbotões contra seus adversários. O estabanado aspirante a chefe do executivo do nosso estado tem trocado a cor cinzenta de sua massa cefálica pelo marrom-avermelhado do fígado. Talvez ele não dê nenhuma importância ao que apregoou o velho timoneiro da resistência democrática durante os anos de chumbo. Nos seus discursos de pré-campanha, denota-se ressentimento, raiva, ódio e mágoa. Mágoa da família, do PT, de Lula, de Camilo Santana… Estaria Ciro Gomes movido também pelo mais abjeto dos sentimentos humanos: a inveja?

Quem como eu leu a Divina Comédia de Dante Alighiere, o fabuloso poeta italiano, sabe que ele narra, na segunda parte da obra, os tormentos das almas do purgatório, que expiam os pecados até serem purificadas para entrar no Paraíso. O purgatório é descrito como uma montanha, dividida em sete círculos, uma para cada pecado capital. No segundo círculo estão os invejosos, cujos olhos são costurados com arame. Eles foram castigados com a privação da visão porque, em vida, a tudo dirigiram um olhar deformado – a alegria e a felicidade alheias só lhes causavam desprazer.

De Caim, no Gênesis, a Iago da tragédia Otelo, de Shakespeare, vários são os personagens invejosos marcantes da literatura. Entre os diversos escritores que se dedicaram ao tema, o norte-americano Herman Melville (1819-1891) nos legou literatura das  mais instigantes. Billy Budd, uma novela só publicada,  após a morte do autor, é um verdadeiro tratado sobre a inveja. O cenário da novela é um navio, onde Claggart, oficial contramestre, é tomado de inveja por Billy Budd, um simples marinheiro. Billy  é querido por toda a tripulação por  contra de sua espontaneidade e bondade, além de uma beleza radiante que o faz parecer um anjo.

A simples visão desta criatura tão perfeita se torna insuportável para  Claggart, que mais do que ninguém é consciente das qualidades físicas e morais de Billy Budd. É a inveja da malícia diante da inocência, da natureza perversa diante da vitalidade alegre e franca – um rancor que só se contenta com a destruição completa de sua vítima. 

Aqui, nos tristes trópicos, a editora Objetiva, depois comprada pela Companhia das Letras, propôs e o consagrado jornalista Zuenir Ventura escreveu o livro Inveja – Mal secreto. Nele, Ventura descreve, de forma sintética, três sentimentos muito comuns entre nós mortais: a cobiça, o ciúme e a inveja. Para Zuenir,  a cobiça é querer o que não se tem; o ciúme é o medo de se perder o que se tem; a inveja, segundo o autor, é terrível, pois não é querer o que o outro tem, é querer que o outro não tenha.

Já o irreverente e influente escritor, poeta e dramaturgo irlandês, Oscar Wilde, legou aos pósteros frase das mais enigmáticas. Disse ele: “qualquer um ser simpático ao insucesso de um amigo é natural, agora ser simpático ao sucesso do amigo é algo quase sobrenatural.” 

Conforme a tradição católica, a inveja é um dos sete pecados capitais. A Bíblia trata do assunto em Provérbios. No capítulo 13, versículo 30, diz a palavra de Deus: “O coração em paz dá vida ao corpo, mas a inveja apodrece os ossos.” Geralmente o invejoso não poupa a si de um sentimento que corrói a alma e é considerado o mais abjeto de todos: o ódio. Pode-se dizer que a inveja é o combustível do ódio. Ou seriam os dois irmãos siameses? Vale lembrar o que Shakespeare disse sobre o ódio, “o ódio é você tomar o veneno e esperar que o outro morra.”

Depois de tantas sentenças sobre a inveja, meus caros leitores, a pergunta que não quer calar: estaria Ciro Gomes possuído do mal secreto que quem tem finge que não tem ou esconde no recôndito de sua alma ao crivar de injúrias, calúnias e difamações, sobretudo Lula e Camilo? Será que o agressor queria ser presidente, ou em não querendo ser queria apenas que Lula não fosse? São indagações que nos rondam a mente e talvez só Freud soubesse decifrar o enigma. Com efeito, Eudoro Santana, pai do senador Camilo, lá atrás, quando ainda não tinha virado alvo dos impropérios de Ciro, o aconselhou a fazer análise. Quando o conselho é dado com a melhor das intenções é sempre de bom alvitre  levá-lo em consideração. Vai ver o primogênito do seu Euclides acha que conselho é como rapé…

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

One response to “Ciro Gomes coloca o fígado no lugar do cérebro”

  1. Avatar de Nonato Barboza
    Nonato Barboza

    Que bom vê-logo aqui nesse espaço meu caro Francisco Bezerra, de quem tenho a honra e o privilégio da amizade. Sua abordagem sobre o lamentável Ciro Gomes, é embasada no seu vasto conhecimento da literatura em suas múltiplas figuras clássicas. Vc é um rapaz educado e se refere ao Ciro Gomes com palavras mais suaves do seu estilo jornalístico. Eu, ao contrário de vc, só me refiro a Ciro Gomes com palavras toscas, grossas, compatível com sua personalidade desbocada, lamentável. Parabéns meu querido Bezerrinha!

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