Em 1976, Adolpho Bloch pediu um favor a um jornalista da sua Manchete, em São Paulo: “Fulano, preciso da sua ajuda. A revista está quase fechada, mas não posso mandar para a gráfica porque Carlos Lacerda ainda não mandou a sua coluna. Ele está em São Paulo. Vá até o hotel onde está hospedado e peça para ele mandar o mais depressa possível”. O sujeito foi lá. Na rua Augusta, perto da Paulista.
Encontrou Lacerda na frente da máquina de escrever. A lauda pela metade. “Estou muito ocupado” disse Lacerda. “Por favor, termine a coluna para mim”. Ele sentou-se e em alguns minutos cumpriu a tarefa inusitada. Mostrou a Lacerda. “Não tenho tempo de ler. Pode mandar”, ordenou. Na semana seguinte, seu Adolpho ligou de novo. A mesma queixa. Fulano foi de novo ao hotel. Dessa vez, Lacerda nem estava com a lauda pela metade. Nem tinha começado. “Escreva a coluna para mim, estou muito ocupado”, disse ele. “Alguma coisa sobre meu avô. O que quiser”.
Dito e feito. Ele escreveu a coluna inteira e a mostrou ao ex-governador, que, de novo, dispensou a leitura. E fez um pedido: “Estou organizando um movimento. Uma frente ampla contra a ditadura. Tem o Jango, o Juscelino. E eu gostaria que o Samuel Wainer também participasse. Como vocês são amigos, por favor, convide-o, em meu nome”.
O encontro com Wainer foi no Rodeio. Em meio às picanhas e costeletas, Fulano tocou no assunto com toda delicadeza. Wainer parou de comer, encarou seu interlocutor e disparou: “Diga ao Lacerda que eu quero que ele morra de câncer no cu!” “Quer que eu diga isso a ele”? “Quero”.
Fulano, que era amigo de Bloch, de Lacerda e de Wainer decidiu dar a resposta ao ex-governador por telefone: “O Samuel Wainer respondeu que quer que você morra de câncer no cu”! Lacerda não retrucou. Desligaram. Já tinham passado 22 anos. Mas Wainer não esqueceu que Lacerda foi o principal responsável pelo suicídio de Getúlio. E pelo fim da “Última Hora”.
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