À medida que se aproxima a eleição presidencial de outubro, o cenário brasileiro deixa de ser mera especulação e começa a revelar seus personagens centrais. Luiz Inácio Lula da Silva aparece como candidato à continuidade de um projeto de reconstrução institucional, social e diplomática. Flávio Bolsonaro tenta assumir o espólio político do pai. Michelle Bolsonaro surge como alternativa dentro do mesmo campo, com outro estilo e forte apelo junto ao eleitorado conservador religioso.
Ronaldo Caiado, agora acompanhado por Gilberto Kassab como vice em uma chapa puro-sangue do PSD, procura representar uma direita mais institucional, mais orgânica ao sistema político tradicional. E Renan Santos, fundador do MBL e pré-candidato pelo Missão, tenta encarnar uma nova direita radicalizada, apresentando-se como uma mistura de Javier Milei e Nayib Bukele.
O quadro é complexo, mas revelador. Pela primeira vez desde 2018, a direita brasileira chega a uma eleição presidencial sem um comando único, sem uma liderança plenamente hegemônica e sem uma síntese clara entre suas diferentes frações. O bolsonarismo ainda é forte, mas já não organiza sozinho todo o campo conservador. A direita tradicional tenta se recompor. A nova direita digital busca uma linguagem própria. E o eleitorado moderado, cansado do conflito permanente, observa o processo com desconfiança.
Essa fragmentação pode ser uma das chaves da eleição.
Pesquisas recentes indicam Lula à frente de Flávio Bolsonaro tanto no primeiro turno quanto em simulações de segundo turno. Levantamento AtlasIntel/Bloomberg divulgado pela Reuters mostra Lula com 46,3% no primeiro turno, contra 36,6% de Flávio; no segundo turno, Lula aparece com 48,8% contra 42,3% do senador. A mesma pesquisa mostra Renan Santos com 7,8%, Ronaldo Caiado com 2,9% e Romeu Zema com 2%.
Não se trata, evidentemente, de eleição decidida. Campanhas mudam, erros acontecem, alianças se desfazem, crises econômicas ou políticas podem alterar o humor do eleitorado. Mas o retrato do momento revela algo importante: Lula preserva centralidade, enquanto a direita disputa internamente quem terá legitimidade para enfrentá-lo.
Lula e a aposta na continuidade
Lula chega a 2026 em condição distinta daquela de 2022. Na eleição anterior, foi sobretudo o candidato da reconstrução democrática, da derrota do autoritarismo e da recomposição mínima da civilidade institucional. Agora, precisa ser também o candidato da continuidade, dos resultados concretos e da promessa de aprofundamento.
Essa é uma posição vantajosa e, ao mesmo tempo, difícil. Vantajosa porque Lula é o único nome nacionalmente consolidado no campo progressista. Nenhum outro candidato da esquerda possui densidade eleitoral comparável. A base social lulista permanece forte, especialmente entre os mais pobres, no Nordeste, nos movimentos sociais, no campo sindical e em setores democráticos da classe média. Além disso, o governo conseguiu recuperar parte da normalidade institucional destruída nos anos anteriores.
Mas a posição também é difícil porque governar é sempre mais complexo do que resistir. A cobrança agora não é apenas contra o passado autoritário. É sobre emprego, renda, preços, juros, crédito, serviços públicos, segurança e futuro. A população quer saber se sua vida melhorou de fato. E quer saber se melhorará mais.
A grande força de Lula é representar, ainda hoje, uma ideia de país que combina inclusão social, democracia política, presença internacional ativa e algum grau de proteção dos mais vulneráveis. Essa combinação segue tendo apelo profundo em um país desigual como o Brasil.
Mas o governo também enfrenta limites. A política econômica permaneceu, em vários momentos, condicionada por uma correlação de forças conservadora. Os juros elevados continuaram funcionando como freio ao investimento, ao crédito e ao crescimento. O Congresso impôs chantagens permanentes. A extrema direita manteve capacidade de mobilização. E a mídia corporativa seguiu tratando qualquer política redistributiva como ameaça fiscal, enquanto naturaliza privilégios financeiros muito mais custosos ao país.
Por isso, a candidatura Lula não pode se contentar em defender o que foi feito. Precisa apontar para uma segunda etapa. A eleição de 2026 exigirá mais que memória. Exigirá projeto.
Lula terá que dizer ao país que a reconstrução democrática não se completa apenas com a derrota eleitoral do bolsonarismo. Ela exige redução das desigualdades, recuperação da capacidade de investimento do Estado, combate ao rentismo, valorização do trabalho, enfrentamento da crise climática, fortalecimento da educação pública e defesa da soberania nacional.
Esse é o terreno no qual Lula é mais forte: quando transforma a eleição em escolha de rumo histórico.
O bolsonarismo procura um herdeiro
Do outro lado, o bolsonarismo enfrenta seu dilema mais profundo desde 2018. Jair Bolsonaro segue sendo a referência emocional de sua base, mas sua capacidade de comandar diretamente o processo político foi reduzida. O campo que ele criou precisa escolher quem poderá representar seu legado: Flávio, Michelle ou alguma combinação instável entre ambos.
Flávio Bolsonaro aparece como o herdeiro mais direto. Carrega o sobrenome, a estrutura partidária, a familiaridade com o eleitorado radicalizado e a tentativa de transformar a eleição em um plebiscito sobre o destino político do pai. Seu discurso tende a se apoiar na vitimização, na denúncia de perseguição, na defesa da anistia e na tentativa de reativar a energia emocional de 2018 e 2022.
Mas Flávio carrega também os problemas do próprio bolsonarismo. Não possui o carisma agressivo do pai, nem sua capacidade de comunicação direta com as massas. Tem trajetória mais associada ao aparelho político tradicional do Rio de Janeiro e às velhas controvérsias do clã. Sua candidatura tenta representar a rebeldia antissistema, mas vem de dentro de uma das famílias mais instaladas no sistema político brasileiro.
Michelle Bolsonaro, por sua vez, ocupa outro espaço. Sua imagem dialoga com setores evangélicos, com mulheres conservadoras e com eleitores que talvez rejeitem a brutalidade explícita do bolsonarismo masculino, mas ainda se identifiquem com sua agenda moral. Ela pode funcionar como uma tentativa de suavização estética do mesmo projeto político.
No entanto, essa suavização não deve iludir. O conteúdo central permanece: conservadorismo moral, antipetismo, hostilidade às instituições de controle quando elas atingem a direita, defesa de uma agenda regressiva nos costumes e ambiguidade diante dos ataques à democracia. Michelle pode mudar a embalagem, mas não altera necessariamente o produto.
Além disso, a própria família Bolsonaro passou a expor fissuras públicas. Reportagem do Financial Times relatou uma crise entre Michelle e Flávio, com acusações de traição e disputa de espaço político dentro do campo bolsonarista. Segundo a publicação, o conflito ameaça desestabilizar a campanha de Flávio e revela divisões no movimento de direita.
Esse dado é politicamente relevante. O bolsonarismo sempre dependeu da imagem de comando vertical, disciplina afetiva e lealdade absoluta ao chefe. Quando a disputa sucessória aparece dentro da própria família, o mito da unidade começa a se desgastar.
A pergunta que se impõe é simples: o bolsonarismo sobreviverá a Bolsonaro como força eleitoral majoritária ou se dividirá em facções concorrentes?
Caiado, Kassab e a direita institucional
A entrada de Ronaldo Caiado com Gilberto Kassab como vice representa outra tentativa: construir uma direita mais institucional, menos dependente do sobrenome Bolsonaro e mais palatável para setores do empresariado, do agronegócio, do Congresso e das elites regionais.
A escolha de Kassab como vice é muito significativa. Não se trata de um nome popular no sentido eleitoral tradicional. Kassab não entra para emocionar multidões, mas para organizar máquina, negociar alianças, atrair prefeitos, deputados, governadores e operadores políticos. É o vice da engrenagem, não do palanque.
A Folha informou que Kassab será vice de Caiado em uma chapa pura do PSD, isto é, formada apenas por quadros do próprio partido. Isso mostra força organizacional, mas também revela uma limitação: a candidatura ainda não conseguiu se transformar em polo amplo capaz de agregar outras legendas de peso desde a largada.
Caiado tenta se apresentar como governador eficiente, homem de segurança pública, conservador firme, mas não necessariamente golpista. É uma candidatura desenhada para dizer ao eleitor de direita: é possível derrotar Lula sem retornar ao caos bolsonarista.
O problema é que essa tese ainda não encontrou povo. Tem lógica política, mas pouca tração eleitoral. Nas pesquisas, Caiado aparece distante de Lula e de Flávio. Sua candidatura pode interessar a elites regionais, setores do agronegócio e parte da direita tradicional, mas ainda precisa demonstrar capacidade de falar com o eleitor comum, especialmente fora do Centro-Oeste.
Há ainda uma contradição estrutural. Para crescer, Caiado precisa atrair eleitores bolsonaristas sem parecer inimigo de Bolsonaro. Ao mesmo tempo, precisa convencer moderados de que não representa uma simples continuidade do bolsonarismo com modos mais civilizados. Esse equilíbrio é difícil. Se se aproxima demais do bolsonarismo, perde a promessa de moderação. Se se distancia demais, perde a base conservadora radicalizada.
Kassab pode ajudar a montar palanques. Mas palanque não é voto automático. A política brasileira está cheia de máquinas partidárias poderosas que, em eleição presidencial, não conseguiram produzir paixão, identidade ou esperança.
Caiado tem estrutura. Falta-lhe narrativa nacional.
Renan Santos e a nova direita de laboratório
A presença de Renan Santos na disputa merece atenção. Seria um erro tratá-lo apenas como personagem folclórico ou candidatura menor. Sua força pode não estar na possibilidade imediata de vitória, mas na capacidade de introduzir um novo vocabulário político à direita.
Quando Renan se define como “Milei na forma e Bukele no conteúdo”, ele não está apenas fazendo uma provocação. Está tentando importar para o Brasil duas experiências recentes da direita latino-americana.
De Milei, toma a estética da ruptura: agressividade verbal, ataque ao Estado, promessa de reformas duras, linguagem de choque, guerra contra a “casta”. De Bukele, toma a promessa de ordem: enfrentamento brutal ao crime, culto à autoridade, desprezo por garantias institucionais vistas como obstáculos à segurança
Renan declarou à CNN Brasil: “Sou Milei na forma e Bukele no conteúdo”. Em evento da Genial Investimentos, na Faria Lima, afirmou também que precisa de “elementos dos dois”, referindo-se a Milei e Bukele.
Essa fórmula é perigosa justamente porque parece simples. Para uma sociedade cansada da violência, da lentidão do Estado, da desigualdade e da impunidade, a promessa de “cortar tudo” e “prender todos” pode soar como solução mágica. Mas a história mostra que soluções mágicas costumam cobrar preço alto.
O ultraliberalismo de Milei, aplicado a uma sociedade profundamente desigual como a brasileira, significaria ataque frontal a políticas sociais, serviços públicos e instrumentos mínimos de proteção. Já o modelo Bukele, frequentemente exaltado por sua queda nos índices de violência em El Salvador, envolve estado de exceção prolongado, prisões em massa, denúncias de violações de direitos humanos e concentração de poder.
O Brasil não é El Salvador. É um país continental, federativo, com facções complexas, desigualdades regionais profundas, polícias estaduais, sistema prisional superlotado e uma história marcada por violência de Estado contra pobres e negros. Importar mecanicamente o modelo Bukele seria flertar com uma política de segurança pública baseada na suspensão permanente de garantias constitucionais.
Renan Santos tenta transformar isso em marca geracional. Apresenta-se como alguém mais jovem, mais digital, mais agressivo e mais “moderno” que a velha direita. Mas, no conteúdo, o que oferece é uma combinação de Estado mínimo para os pobres e Estado máximo para punir os pobres. Essa equação é antiga. A novidade está apenas na embalagem.
Mesmo assim, sua candidatura deve ser observada. A Reuters mostrou Renan com 7,8% no levantamento AtlasIntel/Bloomberg, acima de Caiado naquele cenário específico. Isso indica que existe um segmento do eleitorado disposto a experimentar uma direita pós-bolsonarista, mais conectada às referências internacionais da radicalização contemporânea.
A esquerda não deveria subestimá-lo.
Três direitas em disputa
O ponto central da eleição de 2026 é que não existe apenas uma direita no tabuleiro. Existem pelo menos três.
A primeira é a direita bolsonarista, representada por Flávio e Michelle. É a direita da guerra cultural, da anistia, da nostalgia autoritária, da religião usada como arma política, da vitimização permanente e do ataque às instituições quando estas contrariam seus interesses.
A segunda é a direita institucional, representada por Caiado e Kassab. É conservadora, ligada ao agronegócio, ao Congresso, aos governos estaduais, às máquinas partidárias e ao pragmatismo do poder. Não rompe necessariamente com o bolsonarismo, mas tenta discipliná-lo e torná-lo mais administrável.
A terceira é a nova direita radical, representada por Renan Santos. É digital, provocadora, ultraliberal, punitivista e internacionalizada. Já não depende apenas de Bolsonaro. Busca inspiração em Milei, Bukele e outras experiências de radicalização conservadora na América Latina.
Essas três direitas disputam o mesmo território eleitoral, mas não são idênticas. Todas são adversárias do campo progressista, mas cada uma oferece um risco distinto.
O bolsonarismo representa o risco da reincidência autoritária. A direita institucional representa o risco da restauração conservadora com aparência de normalidade. A nova direita radical representa o risco da atualização ideológica do extremismo, agora com linguagem juvenil, estética digital e referências importadas.
Esse é o grande desafio analítico: perceber que a extrema direita não desaparece quando muda de roupa. Ela pode trocar o grito pela gestão, o capitão pelo governador, o pastor pela primeira-dama, o meme pelo coach político, o golpe explícito pela erosão institucional gradual. Mas continua sendo, em suas diferentes expressões, um projeto de redução da democracia.
O que está em jogo
A eleição de outubro será decidida em torno de temas concretos: renda, emprego, preços, segurança, saúde, educação, corrupção, religião, costumes e medo do futuro. Mas por trás desses temas haverá uma pergunta maior: que tipo de Estado o Brasil quer construir?
Lula representa a tentativa de preservar e ampliar um Estado social, democrático, soberano e negociador. Com contradições, limites e concessões, é verdade. Mas ainda assim situado no campo da inclusão, da democracia e da reconstrução nacional.
Flávio e Michelle representam a tentativa de restaurar o bolsonarismo como força governante, ainda que com estilos diferentes. Caiado e Kassab representam a tentativa de reorganizar a direita tradicional em torno de uma alternativa conservadora mais institucional. Renan representa a tentativa de lançar no Brasil uma direita de laboratório latino-americano, meio Milei, meio Bukele, inteiramente adaptada à era da política-espetáculo.
A disputa, portanto, não é apenas eleitoral. É civilizatória.
O Brasil decidirá se seguirá tentando reconstruir suas instituições depois do trauma autoritário recente ou se abrirá espaço para novas formas de radicalização. Decidirá se enfrentará a desigualdade com políticas públicas ou se aceitará a velha receita de austeridade para muitos e privilégio para poucos. Decidirá se segurança pública será tratada como política de Estado ou como espetáculo de força. Decidirá se religião continuará sendo dimensão legítima da vida social ou se será usada como instrumento de captura política. Decidirá se o país terá política externa soberana ou voltará à subordinação automática aos interesses de fora.
Nada disso é pequeno.
Por isso, a eleição de 2026 não pode ser tratada como simples disputa de nomes. Ela expressa uma reorganização profunda do sistema político brasileiro. Lula continua sendo o centro de gravidade do campo democrático-popular. A direita, por sua vez, tenta descobrir quem será seu novo rosto: o herdeiro familiar do bolsonarismo, a versão religiosa e suavizada do mesmo projeto, o conservador institucional do PSD ou o jovem radical que mistura Milei e Bukele como se democracia fosse detalhe.
O eleitor brasileiro terá diante de si não apenas candidaturas, mas caminhos.
E talvez essa seja a síntese mais importante: em outubro, o Brasil não escolherá apenas quem ocupará o Palácio do Planalto. Escolherá se deseja aprofundar a reconstrução democrática ou se voltará a apostar em aventuras autoritárias, agora recicladas, embaladas e vendidas como novidade
O país já pagou caro demais para fingir que não sabe a diferença.
❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.
✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.
Apoie o jornalismo independente do 247:







Participe da discussão