A Petrobras e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) firmaram uma parceria inédita para oferecer 1.500 bolsas de iniciação científica a estudantes negras do ensino médio em todo o país. A iniciativa integra o Projeto Inspiração e contará com investimento de aproximadamente R$ 32 milhões da estatal ao longo dos próximos anos.
De acordo com informações divulgadas pela Petrobras, o acordo foi assinado na terça-feira (30), em Brasília, pela gerente-geral de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Transição Energética e Sustentabilidade da companhia, Roberta Alves Mendes, e pelo presidente do CNPq, Olival Freire Júnior. O programa pretende ampliar a presença de mulheres negras nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), consideradas estratégicas para o desenvolvimento tecnológico e para o setor de energia.
A ação afirmativa priorizará estudantes pretas e pardas matriculadas no ensino médio regular que estejam em situação de vulnerabilidade social. Além de incentivar o ingresso em carreiras científicas, a iniciativa busca aproximar essas jovens das pesquisas voltadas ao desenvolvimento da indústria brasileira de óleo, gás e energia, acompanhando indicadores como frequência escolar, desempenho acadêmico, produtividade e evasão para medir os resultados educacionais e científicos do projeto.
Projeto prevê bolsas durante todo o ensino médio
O Projeto Inspiração foi estruturado a partir de um diagnóstico que identificou desafios persistentes na formação de profissionais nas áreas STEM no Brasil, entre eles o baixo desempenho escolar, a evasão estudantil e a reduzida participação em cursos considerados estratégicos para a inovação e a economia do conhecimento.
Como resposta a esse cenário, a iniciativa financiará bolsas de iniciação científica durante os três anos do ensino médio. Cada estudante selecionada receberá um auxílio mensal de R$ 550 para desenvolver atividades de pesquisa e formação científica.
Além do apoio financeiro, as bolsistas deverão criar currículo na Plataforma Lattes, elaborar artigos científicos e apresentar anualmente os resultados de seus trabalhos. O objetivo é proporcionar uma experiência de pesquisa desde a educação básica, fortalecendo a formação acadêmica e incentivando a continuidade dos estudos em áreas científicas.
Universidades desenvolverão pesquisas ligadas aos ODS
O CNPq será responsável por lançar um edital destinado às universidades participantes. As instituições deverão apresentar linhas de pesquisa alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU).
Entre os temas previstos estão inovação tecnológica, produção sustentável de energia, tecnologias para a indústria de energia, soluções tecnológicas voltadas à melhoria da qualidade de vida e estudos sobre as transformações do planeta ao longo do tempo.
Segundo a Petrobras, o projeto poderá beneficiar mais de 700 comunidades localizadas no entorno das unidades da companhia, distribuídas por 141 municípios de 16 estados brasileiros, ampliando o alcance territorial da iniciativa.
Pesquisa também buscará políticas de inclusão
O Projeto Inspiração integra uma pesquisa conduzida pelo Centro de Pesquisas da Petrobras sobre mobilização e inclusão de jovens em carreiras STEM. O estudo pretende subsidiar a elaboração de políticas de inclusão voltadas a jovens em situação de vulnerabilidade social como parte das ações de Transição Energética Justa desenvolvidas pela empresa.
A proposta é identificar caminhos para enfrentar desigualdades históricas que também se refletem no quadro de profissionais da própria Petrobras. Atualmente, entre os empregados da companhia que atuam em carreiras STEM, 87% são homens. Desse total, 32,75% se autodeclaram pretos ou pardos.
Entre as mulheres que ocupam essas funções, a representatividade ainda é significativamente menor. Apenas 1,19% são mulheres pretas e 3,38% são mulheres pardas, totalizando 4,57% do quadro feminino nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática.
Brasil enfrenta desafios na formação em STEM
A Petrobras destaca que as áreas de STEM são consideradas essenciais para fortalecer a inovação, a produtividade e a competitividade da economia brasileira. No entanto, dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) apontam que, embora o acesso à educação tenha avançado nas últimas décadas, o país ainda enfrenta dificuldades para garantir aprendizagem de qualidade desde a educação básica.
Segundo o diagnóstico apresentado, os principais obstáculos estão relacionados ao baixo desempenho escolar, à evasão e à dificuldade de formar profissionais qualificados em número suficiente para atender às demandas da transformação digital e da economia baseada no conhecimento.
Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2022 reforçam esse cenário. Entre 81 países avaliados, o Brasil ocupou a 65ª posição em Matemática e a 61ª em Ciências. O levantamento mostra que 73% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível básico em Matemática e 55% apresentaram desempenho inferior ao básico em Ciências. Menos de 3% alcançaram os níveis mais elevados em Matemática, enquanto menos de 6% atingiram os patamares máximos em Ciências.
No ensino superior, o quadro permanece desafiador. Apenas 15,6% dos graduados brasileiros concluem cursos nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, índice que coloca o país na 47ª posição entre 48 nações analisadas, evidenciando a necessidade de ampliar políticas de incentivo à formação científica e tecnológica.
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