A náusea

Quando o cronista constata, a partir da polêmica entre Lula e Gilmar Mendes, que não se pode confiar em mais ninguém no Brasil, muito menos nele mesmo

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Você também está sentindo? Não é que eu queira bancar o sartreano, posar de Antoine Roquentin – a vida é bela e coisa e tal –, mas o amigo não se sente nauseado diante dos acontecimentos da última semana? Um ministro do mais alto grau vai fazer fofoca a jornalistas sobre um ex-presidente que o procurou cheio de malícia pra fazer aquela política moleque que só o brasileiro conhece. É crise institucional das brabas nos Estados Unidos do Brasil (ih, não é assim?).

O que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta. Tão preta que não se pode mais acreditar em ninguém, nem no pedinte – o novo golpe é implorar por um pacote de fraldas para trocar por crack. Vamos à questão: você colocaria sua mão no fogo (pensa bem na implicação da metáfora) por Gilmar Mendes? E por Lula? Nelson Jobim, o anfitrião, serve hoje de tira-teima para os mesmos que defendiam sua expulsão do governo na época em que ele falava demais na Defesa.

O problema é esse: fala-se demais. Muita entrevista, muita exposição, tudo confundido e embasado pelo compromisso com a transparência. É por isso – e não apenas por sua inabilidade de falar em público – que o silêncio da presidente Dilma Rousseff agrada tanto. E quem dera a crise estivesse restrita ao Judiciário, que tomou o lugar do Legislativo na elaboração das leis e já vai se contaminando do mesmo mal.

O Congresso Nacional se expõe quase que diariamente (são dois ou três dias de atuação às claras por semana) em decisões que nem de longe levam em conta os interesses do País, de uma forma cada vez mais explícita. Do lado de fora, o empresariado se atrofia diante de limitações burocráticas e fiscais e sucumbe à sedução do infinito dinheiro estatal. E o que dizer da imprensa?

O descrédito é tal que não há mais isenção possível, seja da parte de quem escreve, seja da parte de quem lê. E que os espertinhos não tentem aparentar imparcialidade, porque vamos descobri-los e revelá-los, senão pelo que foi dito, pelo que não foi dito ou deveria ter sido dito ou disse que iria dizer ou, bem, você entendeu.

A salvação, contudo, está na internet, onde blogueiros imaculados, sem qualquer interesse político ou financeiro, batalham em favor do Brasil com o apoio de hordas de semianalfabetos funcionais cheios de títulos e diplomas. Ah, nisso você acredita? Só vomitando.

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