Aloysio Nunes: 'não somos poderosos a ponto de chutar o balde'

O atual ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes (PSDB), que vai deixando o cargo, afirma que a concepção de política internacional do novo governo é temerária e que o Brasil não é "poderoso" a ponto de "chutar o balde" nas relações internacionais, como pretendia fazer com a transferência da embaixada brasileira em Israel; para Nunes, o novo governo traz ideias antiglobalistas que contrariam a cultura local

Aloysio Nunes: 'não somos poderosos a ponto de chutar o balde'
Aloysio Nunes: 'não somos poderosos a ponto de chutar o balde' (Foto: Agencia Brasil/Antonio Cruz)

247 - O atual ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes (PSDB), que vai deixando o cargo, afirma que a concepção de política internacional do novo governo é temerária e que o Brasil não é "poderoso" a ponto de "chutar o balde" nas relações internacionais, como pretendia fazer com a transferência da embaixada brasileira em Israel. Para Nunes, o novo governo traz ideias antiglobalistas que contrariam a cultura local. 

A reportagem do jornal O Estado de S. Paulo destacou trechos da entrevista que fez com o ainda ministro. Sobre seu período na chancelaria, ele diz: "foi um período de muita turbulência. Não nos esqueçamos que o presidente Michel Temer assumiu o governo depois de um processo político penoso, num ambiente polarizado. As forças políticas que perderam o poder se empenharam em acionar todas suas conexões no exterior para lançar uma campanha de descrédito sobre a institucionalidade do Brasil. Isso perdura até hoje. Mesmo durante o processo eleitoral, tive de explicar que este é um País onde a democracia funciona, onde as eleições seriam limpas e os resultados, respeitados. Paralelamente, houve a retomada da frente econômica, que havia sido deixada em segundo plano. Retomamos os temas que são próprios da ação diplomática do Brasil. A começar pela integração no continente, e aí foi fundamental a dinamização do Mercosul, a busca de uma coordenação com países da Aliança do Pacífico, um programa de segurança nas fronteiras. E fazer do Mercosul uma plataforma para novas parcerias econômicas mundo afora. Retomamos essa obra de Santa Ingrácia, que é a negociação com a União Europeia. E começamos negociações com outros países e blocos: Canadá, Efta, Cingapura, Coreia do Sul."

Aloysio fala também de Venezuela e da tradição progressista do Itamaraty, posta em prova com a guinada mais à direta do governo do qual faz parte: "fizemos o que tínhamos de fazer. No momento em que lá se caracterizou a ruptura democrática, aplicamos o que prevê o tratado constitutivo do Mercosul, o Protocolo de Ushuaia, que é a suspensão. Tomando o cuidado que ela não implicasse em prejuízo para os cidadãos venezuelanos, que já sofrem muito com a situação de crise que eles vivem. E depois trabalhamos para levar o tema venezuelano à OEA (Organização dos Estados Americanos). Mas temos muitos brasileiros que vivem na Venezuela e uma fronteira extensa. Algum nível de diálogo com o governo venezuelano é necessário."

O atual ministro ainda ressalta, depois de ponderar sobre as medidas erráticas iniciais de seu sucessor, a relevância (ou irrelevância) de atos mais polêmicos, como a transferência da embaixada em Israel: "isso (a mudança da embaixada) acrescenta ao interesse nacional? Acho que não. E (a consequência negativa) não é só a questão do comércio. É uma condição de respeito do Brasil à lei internacional. É um padrão de comportamento nosso ao qual temos de nos apegar, porque não somos um País poderoso a ponto de chutar o balde quando alguma regra internacional não nos beneficia. Temo um azedume intercomunitário no Brasil. Temos comunidade árabe, judaica que convivem bem. Não quero briga da José Paulino com a 25 de Março (ruas de São Paulo)."

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