Amorim: “Brasil começou a jogar nas grandes ligas”

Na Argentina, onde lançou a versão espanhola do livro "Breves narrativas diplomáticas", com tradução e edição do jornalista Guido Nejamkis, editor do 247 em espanhol, ministro da Defesa declara que o País "incomodou muitos" quando "começou a jogar nas grandes ligas"; chanceler de Itamar Franco e de Lula, Celso Amorim relata na publicação período "muito importante, com muitas mudanças na visão que o Brasil tinha de si mesmo"; segundo ele, havia antes "uma visão de autolimitação", de que não poderíamos incomodar; "Tivemos que incrementar a quantidade de diplomatas em 40%, foi a maior mudança da história recente. Também chegamos a ter 30 embaixadas na África", conta; leia entrevista

Na Argentina, onde lançou a versão espanhola do livro "Breves narrativas diplomáticas", com tradução e edição do jornalista Guido Nejamkis, editor do 247 em espanhol, ministro da Defesa declara que o País "incomodou muitos" quando "começou a jogar nas grandes ligas"; chanceler de Itamar Franco e de Lula, Celso Amorim relata na publicação período "muito importante, com muitas mudanças na visão que o Brasil tinha de si mesmo"; segundo ele, havia antes "uma visão de autolimitação", de que não poderíamos incomodar; "Tivemos que incrementar a quantidade de diplomatas em 40%, foi a maior mudança da história recente. Também chegamos a ter 30 embaixadas na África", conta; leia entrevista
Na Argentina, onde lançou a versão espanhola do livro "Breves narrativas diplomáticas", com tradução e edição do jornalista Guido Nejamkis, editor do 247 em espanhol, ministro da Defesa declara que o País "incomodou muitos" quando "começou a jogar nas grandes ligas"; chanceler de Itamar Franco e de Lula, Celso Amorim relata na publicação período "muito importante, com muitas mudanças na visão que o Brasil tinha de si mesmo"; segundo ele, havia antes "uma visão de autolimitação", de que não poderíamos incomodar; "Tivemos que incrementar a quantidade de diplomatas em 40%, foi a maior mudança da história recente. Também chegamos a ter 30 embaixadas na África", conta; leia entrevista (Foto: Gisele Federicce)

247 - Publicado no Brasil em 2013 pelo Benvirá, selo da Editora Saraiva, o livro "Breves Narrativas Diplomáticas", do ministro da Defesa, Celso Amorim, acaba de ser lançado na Argentina pela Taeda Libros.

Com tradução e edição do editor do 247 em espanhol, o jornalista Guido Nejamkis, o lançamento do livro do ministro Amorim reuniu em Buenos Aires centenas de pessoas, dentre elas dirigentes políticos, autoridades governamentais, parlamentares, diplomatas, jornalistas e estudantes.

A grande repercussão de Breves Narrativas Diplomáticas na Argentina constitui uma mostra da respeitabilidade alcançada pela nação brasileira após uma inspiradora transição democrática considerada, por muitos, como a mais exitosa da América Latina.

Abaixo, o 247 publica uma entrevista feita pela revista argentina DEF com o ministro Celso Amorim antes do lançamento da edição em espanhol de "Breves Narrativas Diplomáticas".

Amorim: “Brasil começou a jogar nas grandes ligas e isso incomodou a muitos”
Como chanceler de Itamar Franco e de Lula, Celso Amorim contribuiu decisivamente para que o Brasil consolidasse sua posição no cenário global durante a última década. Muitas dessas experiências pessoais formam parte do livro "Breves Narrativas Diplomáticas", editado na Argentina por Taeda Libros

DEF - O livro se chama Breves Narrativas Diplomáticas, mas certamente o senhor relata ali as experiências de anos muito intensos para o Brasil.

Celso Amorim - Muito intensos, a vida foi muito intensa durante esses anos. Por exemplo, lembro-me de ter estado dez dias seguidos em dez países diferentes, um dia em cada um. Dez dias em dez países. Um dia tomei café da manhã no Qatar, almocei no Kuwait e jantei no Líbano. Foram dias muito intensos, mas estávamos lá com uma missão clara. Para mim foi uma ocasião única, porque tivemos um presidente como Lula, quem tinha um avião particular do Brasil e muita coragem para tomar iniciativas. Ele me deu muita liberdade, havia afinidade entre nós dois. Uma vez nos reunimos com o presidente da Colômbia (Álvaro) Uribe, com quem tinha uma relação muito boa de trabalho embora ele não pensasse como nós. Estávamos com ele por causa de uma reunião do Grupo Rio, depois do ataque da Colômbia ao Equador, e ali ele pediu minha opinião e me disse: "O que você acha Celso? Você que tem uma relação telepática com Lula". Não sei se isso é assim mesmo, mas é um pouco de como eu sentia a relação também. Lula tinha muita iniciativa, e esse foi um período muito intenso, muito importante, com muitas mudanças na visão que o Brasil tinha de si mesmo.

Quais eram essas mudanças?

Muita gente, sobretudo na imprensa brasileira, acusava-nos de nos meter onde não éramos chamados. Mas nós éramos chamados. Isso me trazia à mente um livro que li em 93, quando fui a Brasília pela primeira vez (com Itamar Franco), no qual um articulador do Herald Tribune dizia que o Brasil estava jogando na liga baixa. E, finalmente, o que aconteceu é que começamos a jogar na liga de cima e isso incomodou a muita gente, inclusive do Brasil. Essa mentalidade colonial não é só cultural, porque tem muita gente que vive dessa mentalidade. Foram anos intensos nos quais tínhamos, como tarefas imediatas, a integração com a América do Sul, enfrentar o problema da ALCA - pensada em termos que não nos favoreciam, mudar os termos de negociação na OMC, além das iniciativas que tomamos com a África e o Oriente Médio. Houve um dia em que tomei um avião emprestado pela empresa Embraer. Fui buscar o chanceler do Uruguai para levá-lo para Lima, e quando cheguei fiquei sabendo que o corpo do Sérgio Vieira de Mello (NdR: Refere-se ao diplomata brasileiro assassinado no Iraque em 2003, enquanto trabalhava como representante especial das Nações Unidas) estava chegando ao Brasil e que Kofi Annan estava com ele. Então, de Lima tomei um avião para voltar ao Rio de Janeiro. No dia seguinte, voltei ao Peru para continuar o trabalho. Todos esses foram deveres que pode suportar uma pessoa com a idade que eu tinha no momento, hoje não poderia.

Em termos de políticas públicas, o Brasil é referência na região, e no livro o senhor revela aspectos interessantes a respeito do funcionamento da administração nacional. O que os leitores do livro descobrirão sobre isso?

Este é meu segundo livro. No primeiro foram conversas com jovens diplomatas, nessa oportunidade achei que devia reunir o que havíamos falado, porque eram conversações; algumas estruturadas, e outras sobre a declaração do Teerã. Além disso, os mais jovens têm a cabeça aberta ao novo. Quando escrevi essas Breves Narrativas pensei em tonar conhecidos episódios que vivi de maneira intensa e achei que era importante compartilhar para que as pessoas soubessem dos arrazoamentos que houve por detrás das ações. Também o fiz para compartilhar com pessoas que não conhecem a política e pensam que a gente toma uma decisão por si só ou escreve uma diretriz, e isso não é assim, a política é algo com muita vida, muitas dificuldades, com muitas coisas curiosas. Por exemplo; tenho dois momentos muito interessantes ocorridos durante a declaração do Teerã, quando passei cerca de vinte horas reunido com o chanceler turco, com seus assessores e com os principais negociadores iranianos. Isso coincidiu com a visita oficial de Lula. Aconteceu que não cheguei ao jantar oficial, então começaram os rumores de que "Celso Amorim tinha sido sequestrado". Ademais, durante esse jantar o próprio chanceler do Irã se apresentou e quando o fez um amigo meu, dizia que agora sim tinha certeza de que eu não estava sequestrado. Nesse dia, em meio a negociações e no auge da tensão, fizemos uma pausa e fomos para um terraço em um dos palácios iranianos. Ali havia um pé de amoras, então o negociador iraniano, que era chefe da segurança nacional, começou a recolher e compartilhar as amoras. Foi um doce momento em meio a negociações. Foi muito poético.

Ministro, na Argentina existe a visão de que, aparte dos governos que estão no poder, a chancelaria brasileira destaca-se por sua coerência histórica, algo pouco habitual nos países da região. É assim?

Quem vê as coisas de dentro, vê de um modo um pouco distinto. Eu diria que sim, se a gente fala de um longo prazo, a chancelaria do Brasil tem uma posição de estado, mas nem sempre foi tão firme. Houve coisas pouco positivas, inevitavelmente a gente sofre a influência da época. Por exemplo, a propósito da ALCA, a gente sente que estava envolvido nessa negociação e estávamos marcados pelo fato de que a negociação deveria seguir adiante. Então tive que me aproximar da chancelaria para poder fazer as modificações que me pareciam necessárias para os novos tempos. Não foi fácil e isso se refletiu dentro da chancelaria. Fui embaixador de outros presidentes e acho que também, nesses momentos, houve decisões importantes que foram difíceis. Por exemplo, participei intensamente na negociação de patentes de medicamentos com o ex-presidente FHC. Não quero generalizar, mas havia uma mentalidade de que o Brasil não devia fazer certas coisas, de que não devia causar algum tipo de incômodo aos EUA, havia uma visão de autolimitação, que em minha opinião não correspondia ao que devia ser o Brasil junto com a América do Sul. E isso foi algo que me levou a atuar dentro da chancelaria porque havia gente contrária a essa posição. Tivemos que incrementar a quantidade de diplomatas em 40%, foi a maior mudança da história recente. Também chegamos a ter 30 embaixadas na África; tudo isso implicou em um trabalho no qual não podíamos ser excessivamente tímidos.

Que peso tem o Itamaraty no esquema de poder do Brasil, pensando o país como potência regional com uma presença cada vez mais importante na cena global?

A Chancelaria tem um papel muito importante, porque em muitos casos é inovadora, pela situação internacional. Daí muitas ideias nascem, mas depois, naturalmente, têm que impregnar o restante do governo. Porque toda a integração não é suficiente para que o chanceler ou o presidente seja integrador. Eu acredito que não se pode subestimar sua influência, mas também não se deve a sobre-estimar. A política externa toca no imaginário das pessoas, na imagem que as pessoas fazem do seu próprio país. Muito antes que surgisse Barack Obama, em certos setores da direção do Brasil o pensamento era "Sim, podemos fazê-lo", contudo, a muita gente não lhe convinha que isso fosse assim, sobretudo para aqueles que são da ideia da dependência.

Ministro, queria pedir-lhe algumas reflexões vinculadas à doutrina de defesa do Brasil, que desde DEF seguimos bem de perto. Como se inscreve essa doutrina no marco da Unasul, onde encontrou uma cobertura interessante para consolidar-se?

Falo muito disso quando tenho a possibilidade de visitar países da América do Sul, porque acredito que é algo muito importante que tenhamos, além dos acordos comerciais, uma forte cooperação em defesa. Um tipo de unidade em defesa, apesar das diferenças, que não são simples. Desde o meu ponto de vista, a defesa do Brasil, e acho que pode aplicar-se à América do Sul, seria cooperação para dentro da região e dissuasão para fora. Dentro da América do Sul, queremos cooperar porque é a melhor dissuasão: quanto mais cooperemos, menos problemas teremos com nossos vizinhos. Isso não significa que não tenhamos narcotráfico ou bandos armados; sem embargo, ameaças de estado na América do Sul, não creio que existam. Para fora, para o exterior, é um pouco distinto, porque é um mundo de incertezas. Temos o luxo de que as últimas décadas tem sido de paz em termos globais. Houve sangue em regiões específicas que não experimentamos, mas nada garante que no futuro não possa haver conflitos ao redor dos recursos naturais, das rotas marítimas, então temos que ter um fator de dissuasão em direção ao exterior. Trata-se de ter a força suficiente para causar um dano que os faça pensar duas vezes antes de atacar. Essa é a essência da dissuasão. Acho que faremos melhor se progredirmos na nossa união, porque sempre vai existir o interesse externo de dividir-nos. Quanto mais unidos estivermos, mais capacidade vamos ter de defender-nos e defender nossos recursos, que não são apenas naturais, mas também tecnológicos. Temos indústrias nucleares, de aviação, de petróleo, shale oil; tudo isso deve ser protegido. Devemos organizar-nos na defesa e não delegar isso a terceiros, sobretudo quando são de fora.

Essa visão comum inclui também o combate às ameaças não estatais, concretamente ao tráfico ilícito em qualquer de suas formas? Como se enfrenta essa situação?

Cooperando. Não são coisas separadas, porque essas ameaças existem e temos que enfrentá-las. Falando do Brasil e da Argentina, temos o Atlântico Sul, uma região que está sujeita, como outras, a esse tipo de coisas. O Brasil tem uma relação muito próxima com a África, cultural e étnica, além de que quase 70% do nosso petróleo importado vêm da África. Então, por exemplo, o que acontece no Golfo de Guiné tem consequências para nós. Temos países ligados ao Brasil com problemas muito graves, como por exemplo, o tráfico de drogas. Assim, não podemos abandonar essas questões, porque se nós não nos interessamos por elas, outros podem fazê-lo. E se queremos que o Atlântico Sul continue sendo uma área de paz, temos que estar presentes. Então, a ameaça da droga ou do terrorismo pode não ser um mal em si mesmo, senão também o remédio para esse mal, porque pode trazer uma presença que não desejamos ou porque pode trazer alianças militares que são estranhas à nossa região. Não estamos muito longe disso, porque se a OTAN já esteve na Líbia, pode descer a Mali e um dia chegar ao Atlântico Sul, por isso temos que estar atentos.

Que importância tem hoje a guerra cibernética na visão geral da defesa do Brasil?

Tem que ser prioridade, por muitos motivos. Hoje quase tudo é controlado eletronicamente, digitalmente. Então, um ataque cibernético pode causar um grande prejuízo ao país. Uma arma cibernética é potencialmente uma arma de destruição massiva. Temos que estar preparados para defender-nos disso. Claro que os assuntos dos que falam os jornais hoje não são guerras, senão espionagem. Mas entre a espionagem e a guerra, a fronteira não é muito grande. Sem nenhuma paranoia, temos que estar capacitados para nos defender ou fazer com a dissuasão que o ataque tenha um custo para os que têm capacidade. Não é segredo para ninguém, porque saem nos jornais que muitos países contratam hackers para integrar suas forças armadas, inclusive hackers condenados por sua própria justiça. Por isso, temos que estar atentos. O fato de que existam novas ameaças não quer dizer que desapareceram as antigas. Tampouco se devem confundir as novas formas que as ameaças podem assumir. Os atores principais sempre serão os Estados.

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