Deduragem e prisão espetacular matam reitor da Federal de Santa Catarina

"Luiz Carlos Cancellier de Olivo suicidou-se porque não suportou a humilhação e o vexame a que foi submetido ao ser preso pela Polícia Federal. (...) Trata-se de suicídio que cobre de vergonha todo o país, que consagrou como métodos de investigação a deduragem, a humilhação pública e a prisão estrepitosa, sob os holofotes de uma mídia linchadora e vulgar", escreve Laura Capriglione nos Jornalistas Livres

"Luiz Carlos Cancellier de Olivo suicidou-se porque não suportou a humilhação e o vexame a que foi submetido ao ser preso pela Polícia Federal. (...) Trata-se de suicídio que cobre de vergonha todo o país, que consagrou como métodos de investigação a deduragem, a humilhação pública e a prisão estrepitosa, sob os holofotes de uma mídia linchadora e vulgar", escreve Laura Capriglione nos Jornalistas Livres
"Luiz Carlos Cancellier de Olivo suicidou-se porque não suportou a humilhação e o vexame a que foi submetido ao ser preso pela Polícia Federal. (...) Trata-se de suicídio que cobre de vergonha todo o país, que consagrou como métodos de investigação a deduragem, a humilhação pública e a prisão estrepitosa, sob os holofotes de uma mídia linchadora e vulgar", escreve Laura Capriglione nos Jornalistas Livres (Foto: Giuliana Miranda)

Por Laura Capriglione, nos Jornalistas Livres

“Minha morte foi decretada no dia de minha prisão”, escreveu o reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, no bilhete que deixou ao se suicidar nesta segunda-feira, 2/10, em Florianópolis.

Não foi um suicídio discreto. Cancellier, morto aos 60 anos, deixou à vista de todas e todos o seu corpo inerte no meio do vão central às 10h30, no mais tradicional shopping da capital catarinense, o Beiramar.

Trata-se de suicídio que cobre de vergonha todo o país, que consagrou como métodos de investigação a deduragem, a humilhação pública e a prisão estrepitosa, sob os holofotes de uma mídia linchadora e vulgar.

Reconhecido como intelectual e jurista comprometido com os Direitos Humanos e a diversidade, Cancellier militou no movimento estudantil durante a resistência à Ditadura Militar (1964-1985), tendo participado ativamente das campanhas pela anistia, pelas diretas-já e pela Constituinte.

Nada dessa trajetória, entretanto, foi capaz de frear o ânimo da delegada Erika Mialik Marena, da Polícia Federal, que pediu e conseguiu da Justiça a decretação da prisão temporária do reitor Cancellier por supostas irregularidades cometidas com relação às prestações de contas dos contratos do Ensino à Distância (EaD) oferecidos pela instituição entre 2008 e 2014.

Ressalte-se que Cancellier tornou-se reitor da UFSC apenas em maio de 2016. A mesma delegada pediu e obteve a decretação do “AFASTAMENTO CAUTELAR DO EXERCÍCIO DO CARGO/FUNÇÃO PÚBLICA de todos os servidores públicos abaixo relacionados [inclusive o reitor], com proibição de que exerçam cargo público de qualquer natureza, de que entrem na UFSC e de que tenham acesso a qualquer material da UFSC…”

Como sempre tem ocorrido, foi uma delação que serviu de gatilho às investigações –“ao que tudo indica feita por um professor do Curso de Física e dirigida ao MPF/SC”.

Na edição de 14 de setembro, o “Bom Dia Brasil” abriu com informações sobre a operação da Polícia Federal desencadeada naquele mesmo momento em Santa Catarina e Brasília contra “fraudes no ensino à Distância”. A apresentadora Ana Paula Araújo assim comentou a notícia: “É roubalheira para tudo que é lado! O reitor da Universidade de Santa Catarina foi preso!”

Em artigo publicado no jornal “O Globo”, apenas quatro dias antes do suicídio, o reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo relatou o sofrimento moral que lhe foi imposto:

“A HUMILHAÇÃO E O VEXAME A QUE FOMOS SUBMETIDOS — EU E OUTROS COLEGAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA (UFSC) — HÁ UMA SEMANA NÃO TEM PRECEDENTES NA HISTÓRIA DA INSTITUIÇÃO. NO MESMO PERÍODO EM QUE FOMOS PRESOS, LEVADOS AO COMPLEXO PENITENCIÁRIO, DESPIDOS DE NOSSAS VESTES E ENCARCERADOS, PARADOXALMENTE A UNIVERSIDADE QUE COMANDO DESDE MAIO DE 2016 FOI RECONHECIDA COMO A SEXTA MELHOR INSTITUIÇÃO FEDERAL DE ENSINO SUPERIOR BRASILEIRA; AVALIADA COM VÁRIOS CURSOS DE EXCELÊNCIA EM PÓS-GRADUAÇÃO PELA CAPES E HOMENAGEADA PELA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE SANTA CATARINA. NOS ÚLTIMOS DIAS TIVEMOS NOSSAS VIDAS DEVASSADAS E NOSSA HONRA ASSOCIADA A UMA “QUADRILHA”, ACUSADA DE DESVIAR R$ 80 MILHÕES. E IMPEDIDOS, MESMO APÓS LIBERTADOS, DE ENTRAR NA UNIVERSIDADE.”

Em entrevista à jornalista livre Raquel Wandelli, Júlio Cancellier, irmão do reitor morto, disse Luiz Carlos “deu todos os sinais em público de que estava fortemente deprimido e se sentindo exilado, mas não pôde receber o apoio dos amigos porque a juíza responsável pela primeira ordem de prisão mantinha-o incomunicável. Essa foi a grande mágoa dele: estava se sentindo humilhado e vexado e ainda privado do convívio com as pessoas”.

A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), emitiu uma nota pública em que expressa o pesar pela morte prematura de Cancellier ao mesmo tempo em afirma a “absoluta indignação e inconformismo com o modo como foi tratado por autoridades públicas o Reitor, ante um processo de apuração de atos administrativos, ainda em andamento e sem juízo formado.”

“É INADMISSÍVEL QUE O PAÍS CONTINUE TOLERANDO PRÁTICAS DE UM ESTADO POLICIAL, EM QUE OS DIREITOS MAIS FUNDAMENTAIS DOS CIDADÃOS SÃO POSTOS DE LADO EM NOME DE UM MORALISMO ESPETACULAR. É IGUALMENTE INTOLERÁVEL A CAMPANHA QUE OS ADVERSÁRIOS DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS BRASILEIRAS HOJE TRAVAM, DESQUALIFICANDO SUAS REALIZAÇÕES E SEUS GESTORES, COMO JUSTIFICATIVA PARA SUPRIMIR O DIREITO DOS CIDADÃOS À EDUCAÇÃO PÚBLICA E GRATUITA.”

Só para lembrar, a narrativa inspiradora do juiz Sergio Moro é a Operação Mãos Limpas, levada a cabo durante os anos 1990 na Itália. Também baseada em delações, vazamentos seletivos, prisões e humilhações públicas, a Mãos Limpas teve relação causal direta com 11 suicídios em 1992, 10 em 1993 e outros 10 em 1994, que foram os anos em que as fogueiras estiveram mais acesas.

Quantos mais aceitaremos que morram, literalmente “de vergonha”, até que paremos com a máquina de moer gente que está instalada no Judiciário brasileiro?

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