Demissão de Guedes é dada como certa, afirma especialista

O ministro da Economia, Paulo Guedes, um dos grandes fiadores de Jair Bolsonaro junto ao mercado financeiro, sofreu um duro revés nesta semana com a saída de dois importantes nomes da pasta. É grande a chance de demissão do ministro, de acordo com um analista entrevistado pela Sputnik Brasil

Paulo Guedes
Paulo Guedes (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
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Sputnik - Na terça-feira (11), Guedes foi surpreendido pelas saídas dos secretários especiais de Desestatização, Desinvestimentos e Mercados, Salim Mattar, da Burocratização, Gestão e Governo Digital, Paulo Uebel, e o diretor do programa de burocratização, José Ziebarth. Ao anunciar as demissões, o ministro classificou o episódio como "debandada".

Desde a saída dos hoje ex-ministros da Justiça, Sergio Moro, e da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, especula-se que Guedes seria o próximo nome forte do ministério de Bolsonaro a deixar o governo. Como os dois antigos colegas, o ministro da Economia alfinetou o presidente, afirmando que o mandatário estaria sendo mal aconselhado e que poderia caminhar para o impeachment ao não respeitar o Teto de Gastos.

Em entrevista à Sputnik Brasil, o cientista político Guilherme Carvalhido, professor da Universidade Veiga de Almeida no Rio de Janeiro, concordou que Guedes está fragilizado há algum tempo, em um processo que começou com a aproximação de Bolsonaro com o Centrão, bancada com vários partidos e que conta com mais de 100 votos na Câmara dos Deputados.

"Ele [Guedes] já vem se fragilizando por quê? Falando de uma maneira bem direta, boa parte dos políticos, sobretudo em um momento de crise, desejam e querem dinheiro, e o principal ponto de distribuição de dinheiro no Brasil é o governo federal. Logo, quando você faz acordos com os políticos no Congresso para distribuir dinheiro no sentido de emendas e processos que o governo tem direito, e você tem na figura do ministro Paulo Guedes, um sujeito com uma ideologia e uma forma de governar na qual o Teto de Gastos, o controle dos gastos é significativo, isso começa a colocar a força do ministro como mais enfraquecida", explicou.

A abertura dos cofres do governo para o Centrão – que já obteve também cargos de primeiro (ministro das Comunicações, Fábio Faria, integra o bloco) e segundo escalões – não são o único elemento que torna a situação de Guedes complicada no Ministério da Economia. A pandemia da Covid-19 e a liberação de recursos para o auxílio emergencial, por exemplo, também impõem desafios reais e ideológicos.

"Ele está mais enfraquecido porque neste momento em que o governo está gastando bastante em decorrência da pandemia, e também por conta dos acordos firmados com o Centrão por razões variadas, a figura do ministro Paulo Guedes está sim sendo enfraquecida se comparada com o início do governo, quando você não tinha essa mesma demanda e esses mesmos problemas", acrescentou Carvalhido.

Na quarta-feira (12), Bolsonaro fez questão de responder à fala de Guedes ao dizer que "o norte" do seu governo é a responsabilidade fiscal e as privatizações – esta outra pedra fundamental vendida pelo presidente ainda na campanha eleitoral, mas que pouco avançou até aqui. Entretanto, o especialista ouvido pela Sputnik Brasil vê que as ações falam mais do que as palavras no momento.

"O presidente Bolsonaro já de uns meses para cá, sobretudo quando ele aliviou o discurso e se tornou mais político, começou a fazer acordos com setores da sociedade, principalmente dentro dos setores do chamado Centrão no Congresso Nacional, [onde] o presidente vem construindo um discurso muito mais conciliador. Dessa forma, ele está tentando alinhar, sim, os interesses das estruturas de governo que ele iniciou o governo, ou seja, um Estado mais liberal, menos gastador, mas ao mesmo tempo ele está coligado com desejos de setores políticos de terem mais dinheiro", pontuou ele.

A ideia de manter um discurso de austeridade parece estar alinhada com os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, respectivamente, dos quais Bolsonaro vem tentando se reaproximar nos últimos dias. Todavia, a influência deles sobre o presidente enfrenta outra linha, mais com um olhar em 2022, que acredita que o governo deveria aproveitar o afrouxamento do endividamento público na pandemia para obras públicas e injeção de investimentos na economia.

Guedes sugeriu que "assessores" de Bolsonaro estariam aconselhando o presidente de maneira equivocada, o que levaria a uma irregularidade na responsabilidade fiscal e a uma possível crise de responsabilidade, o qual abriria espaço para um processo de impeachment de Bolsonaro. O principal conselheiro alvo do ministro da Economia, segundo a mídia, seria o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho – este um indicado pelo próprio Guedes.

Para Carvalhido, a dualidade entre austeridade da ideologia liberal que Guedes defende e o eventual rompimento do Teto de Gastos por aumento de gastos públicos por conta da Covid-19 e do Centrão no Congresso não é exatamente nova na história política brasileira, mas não se saberia exatamente o tamanho do impacto, caso ela eventualmente acabe acontecendo.

"Uma eventual saída do ministro Guedes do governo teria um impacto muito forte, falando internamente, de uma questão relacionada aos interesses empresariais brasileiros [...] a saída eventual dele enfraquece internamente em princípio essa relação, fortalecendo uma possibilidade de maior contato com setores tradicionais da sociedade brasileira, sobretudo setores nos quais o dinheiro público tem mais importância para a sustentação da sociedade", disse.

"Neste momento, você não tem nenhum ministro que tenha força significativa para movimentar as estruturas do governo. Não há dúvida de que dentro daquela ideia original do governo Bolsonaro, montado ao final de 2018 com a sua eleição e iniciado em 2019, muitos já saíram. Guedes está nesta estrutura, neste núcleo mais duro do processo eleitoral de Bolsonaro, e hoje as substituições que foram feitas pelo presidente não estabelecem uma demonstração social de quadros que tenham significância, ou seja, que mudando de um nome A para um nome B venha a causar grandes impactos", complementou.

Se no âmbito interno uma possível saída de Guedes parece remediável, ainda que não se saiba quem teria potencial para substituí-lo, na esfera internacional o Brasil poderia ter mais problemas, sobretudo diante dos investidores que hoje já demonstram preocupação com a destruição da Amazônia, e que poderiam, hipoteticamente, ver uma mudança de rumo se houver mudança no topo do Ministério da Economia.

"Em termos internacionais, você quebra sim também uma política que Bolsonaro vem tentando estabelecer desde 2019, com o que a gente chama de processo liberal, ou seja, um Estado menos gastador, menos burocrático, uma mudança de rumos históricos dentro do Brasil. [A saída de Guedes] mostraria ao mundo, principalmente para os investidores externos de que há uma mudança de rumo", concluiu Carvalhido.

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