Deputada do Psol promete lutar pelos Direitos Humanos no Congresso

A deputada federal eleita Talíria Petrone (Psol) tem sua trajetória política ligada à defesa dos direitos humanos. Ela diz que entrará no Congresso Nacional com o objetivo de defender a "jovem democracia brasileira". Petrone afirma: "é fundamental que a oposição a este tipo de governo esteja nos territórios, ouvindo, trocando e disputando narrativas em um país patriarcal, de fundamentalismo religioso"

Deputada do Psol promete lutar pelos Direitos Humanos no Congresso
Deputada do Psol promete lutar pelos Direitos Humanos no Congresso

Do Brasil de Fato - Professora de história, negra, feminista. Vereadora mais votada de Niterói e deputada federal eleita pelo Rio de Janeiro com mais de 100 mil votos. São muitas as bandeiras e títulos que Talíria Petrone carrega em seu próprio corpo e em sua trajetória política pela defesa dos direitos humanos.

Crítica ao futuro governo de Jair Bolsonaro, em 2019 entrará no Congresso Nacional com o objetivo de defender a "jovem democracia brasileira". "É fundamental que a oposição a este tipo de governo esteja nos territórios, ouvindo, trocando e disputando narrativas em um país patriarcal, de fundamentalismo religioso. O país que foi o último a abolir a escravidão. Isso não ficou no passado. A colonização brasileira é muito gritante agora, no presente", avalia Talíria, parlamentar do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), em entrevista ao Brasil de Fato.

Para ela, é preciso evidenciar quem sofre as consequências de um governo autoritário. "Quando a democracia dá um passo atrás, sabemos bem quais corpos ficam pelo caminho. O corpo negro, da mulher. Temos que estar nos territórios com esses corpos, disputando essas pessoas. Nem todo mundo que votou em Bolsonaro é fascista, as pessoas estavam cansadas de uma velha política e se encantaram, se enganaram por uma nova que é velha. Velha porque votou pela reforma trabalhista, velha porque votou contra as empregadas domésticas, velha porque é do ódio, do tempo da escravidão".

Amiga de Marielle Franco, vereadora e militante executada em 14 de março deste ano, Talíria vê a sua eleição para o Congresso Nacional, e a de outras mulheres negras para Assembleia Legislativa do Rio, como um legado. "Marielle está morta mas as lutas da Marielle estão muito vivas. Isso levou a população a entender que queria se sentir mais representada nos espaços institucionais".

Na entrevista, Talíria Petrone fala sobre os desafios da política institucional e as consequências da intervenção militar no estado do Rio de Janeiro.

Confira a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato - Como avalia a atual conjuntura política do Rio e do país? Qual a perspectiva da sua atuação para os próximos anos?

Talíria Petrone - O Rio é uma expressão de um momento grave que estamos vivendo no Brasil, e não só no Brasil. Temos que pensar o que é o avanço do fascismo e de governos de extrema direita, de setores de extrema direita em espaços de poder no mundo todo, é algo que traz a responsabilidade histórica desse momento. A democracia brasileira é jovem, incompleta, nunca tinha chegado plenamente em favelas, subúrbios, periferias. Nesse momento, essa jovem democracia que queríamos aprofundar é jogada no lixo. Isso, legitimado pelo voto popular, o que traz para nós reflexões e responsabilidades.

O povo elegeu um candidato que é representante da extrema direita e do fascismo, que diz que prefere ter um filho morto a ter um filho gay, que diz que tudo bem mulher ser estuprada, que compara quilombola a gado no momento que usa medidas como arroba. [Um candidato] Que defende tortura, que tem como heróis homens que enfiaram ratos em vaginas de mulheres na ditadura militar.

Esse é um cenário que saberemos o que fazer: os parlamentos serão trincheiras. Temos uma responsabilidade muito grande de fazer uma articulação o mais ampla possível para a manutenção da democracia. Sem democracia, não tem divergência, não tem luta, não tem possibilidade de lutar por aprofundamentos de direitos, de liberdade.

Tanto dentro do Congresso quanto fora dele, uma grande articulação para defender a Constituição de 1988, que para nós era insuficiente, mas que agora precisa ser garantida. Mas isso também não é suficiente. Precisamos nos articular em torno de pautas e questões que não tenho tanto certeza que essa frente ampla vai garantir. Não dá para dar um milímetro de passo atrás no que se refere à redução da maioridade penal, ao Escola Sem Partido, que na verdade é o Escola Com Mordaça, assim como a reforma da Previdência.

Tem um conjunto de medidas, tanto de privatização e de precarização do que é público, quanto de uma agenda de direitos do povo LGBT, de nós que somos mulheres negras, do povo negro em geral. Precisamos unir o campo progressista e a esquerda dentro e fora do Congresso.

Uma última coisa que acho fundamental para a oposição a este tipo de governo que faz parte, na minha opinião, de uma mudança de regime: estar nos territórios, ouvindo, trocando e disputando narrativas em um país patriarcal, de fundamentalismo religioso. Em um país que foi o último a abolir a escravidão. Isso não ficou no passado. A colonização brasileira é muito gritante agora, no presente. Nossa tarefa, nesse sentido, é entender o que é o fascismo em países com a experiência da colonização. Quando a democracia dá um passo atrás, sabemos bem quais corpos ficam pelo caminho. O corpo negro, da mulher.

Temos que estar nos territórios com esses corpos, disputando essas pessoas. Nem todo mundo que votou em Bolsonaro é fascista, as pessoas estavam cansadas de uma velha política e se encantaram, se enganaram por uma nova que é velha. Velha porque votou pela reforma trabalhista, velha porque votou contra as empregadas domésticas, velha porque é do ódio, do tempo da escravidão.

Então, a articulação é dentro do Congresso e fora dele, por uma frente ampla e democrática. Mas para médio e longo prazo [é preciso] disputar corações, trazer as pessoas de volta para uma política que é corpo, que é cotidiano, que é vida concreta. Isso nós só fazemos estando nos territórios, escutando, e a partir da escuta, disputar narrativas, porque eles se apropriaram delas.

Qual o significado de uma mulher negra ocupar uma cadeira no Congresso Nacional?

A política não é um espaço para corpos de mulheres, nem para corpos de pessoas negras. A política institucional carrega duas esferas: a do poder e a do público. O lugar de poder em um Estado formado pelo racismo e pelo patriarcalismo, não é lugar de mulher negra. O lugar do espaço público não é um lugar onde o corpo negro pode circular livremente; esse corpo, que é um corpo que experimenta essa dor em um país com essas características. Estarmos em espaços decisórios onde se determina a vida cotidiana é muito importante.

O povo brasileiro é diverso. Ele é majoritariamente negro e mulher. Se esse corpo não está lá [no Congresso], as pessoas não se veem nesse lugar. Agora, esse corpo tem que vir com uma política feminista, mas que não é qualquer feminismo, na minha opinião é um feminismo popular; e, em especial, uma política anti-racista em um país que o racismo estrutura as demais desigualdades. Nosso capitalismo é formado pelo racismo, o estrutura. A desigualdade social brasileira é preta. Os filhos das mulheres negras das favelas, mulheres desempregadas, no trabalho informal, trabalhadoras domésticas, são aqueles que não têm creche, não têm escola e são os que são mortos por bala de fuzil. É quase um 'ligue os pontos'.

Esses corpos têm que estar representados em um espaço onde a caneta serve pra se tomar decisões, mesmo que seja para fazer resistência com esse corpo. É de uma responsabilidade imensa.

Estar nesse espaço é um modo de dar uma continuidade ao legado da Marielle Franco? O que espera em relação à justiça no caso? Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, os assassinos foram identificados.

A execução da Marielle é uma execução política e o que está se anunciando como o resultado das investigações é algo que já imaginávamos. Temos tanto parlamentares e agentes políticos envolvidos, quanto um envolvimento de domínio e território das milícias. Milícias nada mais é o poder econômico, militar e o político. A execução da Marielle é política e anunciamos isso desde o início e por isso a demora para achar os responsáveis. Porque mexe com gente do poder, mexe com os barões do café e com senhores do engenho que são os mesmos que ordenaram sua execução. Exigir justiça por Marielle e Anderson ainda é uma tarefa porque ainda é preciso ligar muitos pontos nessa investigação e mexer com estruturas de privilégios. É preciso solidariedade internacional. O mundo inteiro precisa entender o retrocesso democrático brasileiro que se expressa em muitas coisas mas se expressa muito na execução política de Marielle.

Acho que esse corpo é um corpo que foi executado por carregar tantas representatividades. A Marielle era essa mulher parlamentar que nunca arredou pé de defender a favela, de ser uma parlamentar deste povo, mas também carregava no seu corpo: uma mulher negra, mulher que amava mulheres, socialista, defensora de direitos humanos, eleita parlamentar. É quase um pensamento assim: 'É inadmissível que esse corpo ocupe o parlamento e que possa galgar espaços mais altos na esfera de poder para subverter o poder, horizontaliza-lo, devolver o poder para esse povo preto e favelado'. Esse ódio conectado com essa história conservadora e racista também é um elemento que não pode ser ignorado.

A Marielle foi executada. Não gosto de dizer que a Mari tá viva porque isso faz com que a gente perca a dimensão da responsabilidade desse tempo. Ela foi executada com quatro tiros na cara. Entender isso é entender que mudou de patamar. É o país que mais assassina defensores de direitos humanos. Marielle está morta mas as lutas da Marielle estão muito vivas. Isso levou a população a entender que queria se sentir mais representada nos espaços institucionais.

Tivemos três mulheres negras eleitas para a Assembleia Legislativa do Rio, que trabalhavam com a Mari. Mulheres de subúrbio, de favela. Eu tive mais de 100 mil votos. É um legado. Não o legado só de um corpo, que já seria um grande legado, é um legado de luta contra o encarceramento dos jovens negros, contra o genocídio desses jovens, filhos de mulheres como Marielle. Pelo direito de amar e de ser quem é. Contra o avanço sobre os povos quilombolas, indígenas, caiçaras, ribeirinhos. Em defesa da distribuição de renda, de terra, contra os latifúndios. Contra esse poder constituído que é branco, masculino e que é também proprietário, que é dono dos bancos.

Marielle é uma pauta completa e essa é uma forma de exigirmos justiça para nossa companheira e lembrar da sua memória pra sempre e também eleger mulheres para que não sejamos mais poucas com tanta representatividade.

Essa execução aconteceu em um Rio de Janeiro sob intervenção militar. Qual o saldo da intervenção para o estado?

A intervenção militar no Rio de Janeiro foi algo não planejado, algo político para tentar salvar um governo aos pedaços e algo para aprofundar uma lógica militarizada de segurança pública que é a mesma tocada há décadas. O saldo da intervenção foi mais chacinas e mais tiroteios. Aprofundamento da violência que o povo de favela, preto, filho de mulheres pretas, sofrem por meio das mãos do Estado. As mesmas balas da Polícia Federal que mataram Marielle são as que atingiram corpos na Chacina do Salgueiro, que atingirão corpos na Chacina da Maré, no Alemão, na Penha; lá trás na Chacina da Candelária.

A intervenção militar deixa esse saldo, que é o mesmo saldo de banho de sangue do modelo de segurança pública gestado há décadas por essa máfia, que é dos ruralistas, dos banqueiros e também das empresas de armas. É preciso outro modelo de segurança pública pautado na prevenção, na inteligência, na unificação das polícias, na integração, no controle de armas e munições, mas, em especial, que tenha proposta concreta. Se tem essas coisas é pra dizer que não é 'com flores', mas também não é desse jeito, é com a legalização e regulamentação das drogas, mas, em especial, com parar de achar que território de favela é inimigo e que o povo preto é inimigo. Esse é o saldo da intervenção.

Apesar do cenário, podemos dizer que há uma articulação de resistência?

O recado é justamente que há resistência. E não é de agora. O corpo negro só existe porque resiste. É uma resistência ancestral. Lá nos navios negreiros, as mulheres negras eram as mais temidas porque mesmo sequestradas de diferentes cantos do continente africano, conseguimos juntar culturas, religiosidades, identidades. Éramos temidas embora invisibilizadas nos livros didáticos. Seguimos sendo resistência: a de Lélia Gonzalez, de Dandara, de Carolina de Jesus, de Tereza de Benguela, e das mulheres negras que estão lá, que perdem filho mas estão ajudando uma a outra, quando não tem creche, uma ajuda a outra, ajuda com passagem. Isso é política. A política que é resistência, as mulheres negras fazem no território há muito tempo. Então, vamos ocupar cada vez mais os espaços de poder para conectar a política real e concreta com o que é assinado e decidido nos Congressos. Àqueles que acharam que haveria um passo atrás, afirmamos que haverá muitos passos a frente, mesmo nesses tempos de retrocesso.

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