"Discurso anticorrupção era vazio", diz advogado sobre evolução do patrimônio de ex-mulher de Bolsonaro

“Um discurso totalmente vazio, da moralidade, que se filiava ao lavajatismo para fazer ‘limpeza no país’, diz o advogado integrante do Coletivo Advogados e Advogadas pela Democracia José Carlos Portella Júnior sobre o discurso anticorrupção que ajudou a eleger Jair Bolsonaro

Ana Cristina Siqueira Valle e Jair Bolsonaro
Ana Cristina Siqueira Valle e Jair Bolsonaro (Foto: Divulgação/Podemos | Reuters)
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Rede Brasil Atual - Reportagem da revista Época mostra que a segunda ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro, Ana Cristina Siqueira Valle, conquistou uma significativa evolução patrimonial enquanto foi casada com Bolsonaro. Durante uma década, Ana Cristina comprou 14 imóveis, parte deles em dinheiro vivo. As informações foram divulgadas neste sábado (18).

Com base em quase 40 escrituras de compra e venda e 20 registros em cartórios no Rio de Janeiro e Brasília, entre 1997 até 2008, a revista apurou que o patrimônio em imóveis da então esposa de Bolsonaro chegou a ser avaliado em cerca de R$ 3 milhões na data da separação. O que hoje equivaleria a R$ 5,3 milhões com os valores corrigidos pela inflação.

Antes de seu casamento, no entanto, atuando como assessora parlamentar de um deputado federal, Ana Cristina não possuía nenhum imóvel. Mesmo o atual presidente, quando se uniu a ela, também “estava longe de possuir o patrimônio atual”, destaca a reportagem. Apenas em 10 anos, a carteira imobiliária do casal multiplicou. O período é o mesmo em que se concentra parte da investigação sobre as “rachadinhas” nos gabinetes de Flávio e Carlos Bolsonaro.

De acordo com a Época, depois da separação, Ana Cristina ficou com nove dos 14 imóveis. Entre eles, cinco terrenos em Resende, no sudoeste do Rio de Janeiro, que anos depois levaram a outras transações incomuns. As áreas foram revendidas, em 2013, por R$ 1,9 milhão, embora tenham sido adquiridas por R$ 160 mil, sete anos antes. Por trás da compra e da valorização imobiliária está o empresário do setor de transportes Marcelo Traça. 

Traça é responsável pelo acordo de colaboração premiada que delatou um esquema de propinas entre o setor de transporte com políticos e agentes públicos. Na delação, o empresário afirmou que adquiria imóveis para lavar dinheiro.

Discurso vazio 

Em entrevista a Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual, o advogado criminalista e integrante do Coletivo Advogados e Advogadas pela Democracia José Carlos Portella Júnior destaca que há dois pontos que podem ser extraídos desses fatos. O primeiro deles a respeito do discurso anticorrupção emplacado por Bolsonaro na campanha eleitoral em 2018. 

“Um discurso totalmente vazio, da moralidade, que se filiava ao lavajatismo para fazer ‘limpeza no país’.” Mas que, na prática, vem se provando “inconsistente” diante de fatos como as várias suspeitas sobre a evolução patrimonial do entorno e do próprio presidente Bolsonaro. A mais recente delas mostra que o Ministério Público do Rio de Janeiro apurou que a esposa de Flávio Bolsonaro, Fernanda Bolsonaro, pagou a primeira parcela de uma cobertura com um depósito feito por Fabrício Queiroz. O ex-assessor é hoje investigado como um operador financeiro do esquema de “rachadinha” no gabinete do filho do presidente.

“A gente já denunciava a inconsistência do discurso (de Bolsonaro) lá atrás, que servia para fins de manipulação da opinião pública para fazer um setor acreditar que ele era ‘fora do sistema’, que viria para fazer uma ‘limpa'”, relembra Portella. 

Controlar Bolsonaro

O segundo ponto destacado pelo advogado criminalista é o modo como esses casos e acusações de corrupção são tratados de forma diferente de quando são relacionados a pessoas do campo progressista. Portella cita como exemplo o caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e fala sobre o comportamento de parte da mídia tradicional, “que trata desses fatos sobre a família Bolsonaro com parcimônia. Você vê a diferença do tratamento”, compara.

Para o advogado criminalista, por trás dessa atuação seletiva há o interesse em “controlar o presidente”, sem tirá-lo do poder. “Obviamente tem setores da elite que querem emparedar Bolsonaro com essas denúncias. Mas, ao mesmo tempo, o que me parece é que esse mesmo setor não tem interesse em derrubar Bolsonaro tão rápido. Na verdade, o interesse maior é controlar o Bolsonaro e isso fica muito claro com a forma em que a mídia comercial trata da questão”, observa.

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