Estudante divulga nova carta aberta a Lula

A estudante Maria Eduarda Paschoalini, que escreveu carta aberta ao ex-presidente Lula no ano passado, divulga nova mensagem ao petista, após a decisão do STF que lhe negou a presunção de inocência; "Vamos lá, Luiz Inácio, junto à rapaziada, está na hora da virada. Vamos dar o troco! Conte comigo e com milhões para botar lenha nesse fogo, virar esse jogo que é jogo de carta marcada. Vamos à luta sem medo que é hora do tudo ou nada. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Força, coragem e resiliência. Estou contigo e lembre-se sempre de que amanhã há de ser outro dia"

Estudante divulga nova carta aberta a Lula
Estudante divulga nova carta aberta a Lula (Foto: Ricardo Stuckert)

Carta aberta ao presidente Lula

Por Maria Eduarda Paschoalini 

Querido presidente (permita-me ainda te chamar assim),

ano passado, um pouco antes de completar 16 anos, escrevi uma carta a você, Lula. Meses depois, ela foi divulgada no jornal Brasil 247 e você me ligou. Encontramo-nos e você me fez achar toda força que existe em mim. Eu, que estive perdida, encontrei o meu caminho. Descobri que também sou profunda demais para essa gente tão rasa. Por isso, transbordo. Hoje, transbordo, novamente, em forma de carta. Dias antes de completar 17 anos, escrevo a você mais uma vez, com o intuito de tentar expressar por meio de palavras todo meu sentimento. Sei que você é forte, mas tentarei passar a ti toda a força que você me passou. É uma relação recíproca, não tenha dúvida disso. Lembra que eu disse, na carta, que estudei os partidos e decidi me filiar ao Partido dos Trabalhadores? Pois bem, dito e feito! Filiei-me e digo, com toda a certeza: eu não me arrependo. No entanto, sim, a minha vida deu uma reviravolta. Bem que você me disse que nada seria fácil. Estava certo! Não foi. E continua não sendo. A carta me trouxe comentários ruins, difamações, ameaças e um consequente boletim de ocorrência. A filiação me desvendou um ódio coberto por inúmeras máscaras. Elas estão caindo, aos poucos. E, mesmo com todo esse clima de ódio, eu sigo acreditando nas pessoas. Aprendi isso com você. Hoje, 05 de abril de 2018, acordei dilacerada. Fui dormir, na noite anterior, mal e acordei ainda pior. Negaram o seu Habeas Corpus, Lula. Julgaram você por um crime sem provas. Trata-se de novas mentiras, apenas convicções, como eles mesmo dizem. Para além da falta de provas, o que assusta nas acusações feitas é a falta de lógica. A razão se perdeu em meio ao embate político. O ódio abriu os olhos de justiça. Infelizmente, os olhos que deveriam estar devidamente vendados só te enxergam, Lula. Você não está acima, nem abaixo da lei. Como todo e qualquer cidadão, pode ser investigado e pode ser julgado. Porém, com todo o devido respeito ao processo legal, sem ser vítima (como vem sendo) de um massacre, de uma caçada midiática e de muitas acusações sem provas. Se contra fatos não há argumentos; contra falta de provas, qual é o argumento? Fizeram avançar um acordo nacional com o supremo, com tudo. Confesso que eu já esperava. Não teria sentido planejar todo esse golpe para não acabar assim. Na verdade, não acabou. Apenas, começou. Talvez, não para os dois lados. O acordo deles pode, sim, estar chegando ao fim; mas não a nossa luta. Vejo o futuro repetir o passado, como já dizia o grande Cazuza. Estou triste. Porém, não 'tô' derrotada não.

Não souberam reconhecer o seu tamanho, Lula. Mas eu sei. Sou branca, minha família é bem estruturada, nunca precisei de me preocupar com a comida do dia seguinte, estudo em escola particular, sempre tive onde morar e o que vestir. Tenho condições financeiras boas o suficiente para viver bem. Mas sei que nem todos, infelizmente, são como eu. E você tentou fazer com que fossem. Por essa razão, eles tentam te impedir. Você deu voz a quem nunca teve vez. E isso incomoda. Incomodou porque você reduziu a taxa de inflação de 12,5%, em 2002, para 4%. Aumentou as exportações de 60 bilhões de dólares para 128 bilhões de dólares. Promoveu um enorme aumento real do salário mínimo. Reduziu a dívida externa de 210 bilhões de dólares, em 2002, para 157 bilhões, em 2006. Em seu governo, houve um superávit nas transações correntes (enquanto no governo anterior, teve um déficit). Criou o ProUni, permitindo que mais de 240 mil estudantes carentes pudessem cursar uma faculdade. Inclusive, você criou mais 18 universidades durante seu mandato. Criou a Bolsa-Família, programa social de transferência de renda fortemente elogiado pela ONU, que o considera como exemplo a ser seguido por outros países emergentes. Houve o acúmulo de sucessivos lucros recordes pela Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES (isso tudo prevalecendo o social sobre o lucro, ainda por cima). Teve a queda da taxa de desemprego. Incomodou porque você lotou os aeroportos de gente que às vezes nem mesmo tinha condições de andar de ônibus. Misturou brancos, ricos, pobres e negros em universidades públicas. Ajudou a favela a comprar os seus bens e as empregadas domésticas a serem tratadas como reais cidadãs de direitos. Facilitou a vida de quem não tinha dinheiro para comprar um remédio caro com as farmácias populares. Custeou de graça universidades privadas para filhos de pedreiros. Fez sorrir de novo quem não tinha dentes. Quis governar um país onde "pobre" é visto como "podre" e, ainda assim, conseguiu retirar 30 milhões de brasileiros da linha da pobreza. Incomodou porque você nunca foi nada, Lula. Pobre, imigrante nordestino, filho de analfabetos e operário. Foi sindicalista, ajudou a fundar um partido e teve a audácia de se candidatar à Presidência da República. Como você não era nada, apenas uma voz dissonante que acreditava que era possível acabar com a desigualdade, a fome e a miséria neste país, perdeu a eleição três vezes. Mas não. Você nunca perdeu a esperança e, por isso, tornou-se tudo. E acabou incomodando. Afinal, na ordem lógica das coisas, onde já se viu alguém que não é "nada" se tornar "tudo"? Você desafiou o sistema, Lula. Insistiu e foi até o fim.

Em nome de todos os que se acostumaram com o rótulo de "esquecidos" e finalmente foram lembrados, das mulheres que se empoderam todos os dias, dos negros que lembram aos senhores da casa grande que não voltarão à senzala, dos LGBTT's que lembram ao sistema conservador que não voltarão ao armário, dos movimentos sociais, dos sindicatos, dos sem-teto, dos sem-terra, do nosso partido, de todas as minorias e em meu nome, a nossa eterna gratidão, Luiz Inácio Lula da Silva. Grande parte do que sou hoje, devo a você. Obrigada por me ensinar que o povo não é o problema. O povo é a solução. Obrigada por abrir os meus olhos diante às injustiças. Obrigada por me mostrar que as pessoas não são más, elas só estão perdidas. Ainda há tempo, presidente, ainda há. Obrigada por tirar de mim todo o silêncio que me atordoava e por me dar voz ativa, para mandar no meu destino - salve Chico! -. Obrigada por me ensinar que a palavra desistir não pode estar presente no meu dicionário. Por me dizer que eu, jovem de 16 anos, posso conquistar o que eu quiser, basta acreditar. Por me ensinar que luto é verbo. E que, nessa minha jornada, eu vou cair diversas vezes. Em umas, sozinha. Em outras, vão tentar me derrubar, como hoje. Mas aí me lembro de uma das maiores lições que você me passou: devo reconhecer a queda e não desanimar. Obrigada por ter me mostrado como ser forte mesmo diante a inversões midiáticas que conseguem reforçar a mentira, até que ela se torne verdade. Obrigada por me instruir a ter e ser resistência. Com você, aprendi a nadar contra a correnteza. Obrigada por me fazer estar do lado certo da história. Obrigada por me mostrar que a única riqueza que um político tem é a palavra. Obrigada por me explicitar, assim como Guimarães Rosa, que o que a vida quer da gente é coragem. E é com essa coragem toda que levantei hoje para defender você, Lula, que durante todo esse tempo me defendeu. Porque fazer isso é defender a democracia da minha pátria mãe gentil. Obrigada, simplesmente, por ser você, Lula. Vamos lá, Luiz Inácio, junto à rapaziada, está na hora da virada. Vamos dar o troco! Conte comigo e com milhões para botar lenha nesse fogo, virar esse jogo que é jogo de carta marcada. Vamos à luta sem medo que é hora do tudo ou nada. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Força, coragem e resiliência. Estou contigo e lembre-se sempre de que amanhã há de ser outro dia.

Duda

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