Guerra da cracolândia aterroriza comerciantes

"A operao policial se tornou uma ameaa para a gente", disse ao 247 o comerciante Juliano lvares, da rua Timbiras, no epicentro das ocorrncias; "os viciados usam nossas lojas para esconder suas pedras, seus cachimbos e at suas facas"; "estamos em pnico"

Guerra da cracolândia aterroriza comerciantes
Guerra da cracolândia aterroriza comerciantes (Foto: CRIS FAGA/AGÊNCIA ESTADO)
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Gisele Federicce _247 – Medo e terror. No oitavo dia da Operação Centro Legal, realizada pela Polícia Militar de São Paulo para varrer os usuários de crack da região central da cidade, o sentimento entre os comerciantes estabelecidos ali há tempos é de absoluta insegurança. Para fugir das seguidas abordagens policiais, os viciados têm usado as lojas como esconderijos de cachimbos usados para queimar as pedras de crack e, também, de armas. Quando se sentem ameaçados pela polícia, muitos não pensam duas vezes em jogar facas e outros objetos em locais como estacionamentos, mercadinhos, lojas de roupas e discos. Uma vez passada a blitz policial, voltam para buscar o que deixaram, promovendo uma nova onda de pânico entre lojistas e clientes.

Ontem, uma senhora foi agredida dentro de um estabelecimento comercial no bairro do Anhangabaú por um usuário de droga que queria recuperar seu cachimbo, jogado dentro da loja para não ser pego pela polícia. “A operação se tornou uma ameaça pra gente. Dá medo”, conta o gerente de um estacionamento localizado na rua Timbiras, imediações da Praça da República, Juliano de Souza Álvares. “Chamo a polícia com frequência, mas a PM demora muito e minhas solicitações já foram repassadas para a Guarda Civil Municipal. Quando chegam aqui, dizem que não há muito o que fazer”.

O recepcionista de um hotel próximo, André Velo, garante que o número de hóspedes diminuiu nos últimos dias e relaciona a queda à forte presença de marginais em frente ao estabelecimento. Nesta terça-feira, cerca de 100 usuários de crack se concentravam entre as ruas Timbiras e Guaianazes, tornando impossível a passagem de carros e dificultando a de pedestres, exatamente como ocorria na cracolândia.

Segundo o dono de um escritório de advocacia localizado na rua Timbiras, na República, Kléber Bellucci, o número de assaltos também tem aumentado. “Estou aqui há 15 anos e nunca tinha presenciado assaltos. Agora, com a vinda dos usuários pra cá, é cada vez mais comum”. Atualmente, Bellucci procura por um escritório na Barra Funda, zona oeste da cidade, para fugir da situação instalada no local.

A operação Centro Legal, iniciada no dia 3 de janeiro, já demandou a abertura de inquérito pelo Ministério Público, que classifica a ação como “ilícita”, “pouco inteligente” e de “resultados pífios”. As centenas de viciados em crack, antes concentrados na região conhecida como cracolândia, no bairro de Campos Elísios, são expulsos diariamente por agentes da PM, que têm como objetivo “tornar o ambiente mais seguro”, conforme relatou o coronel da corporação, Álvaro Batista Camilo.

O problema acarretado com a expulsão dos usuários da cracolândia, que chegou a ser feita com balas de borracha e cassetetes pelos agentes, nos últimos dias, é a dispersão dessas pessoas para bairros vizinhos, como República, Anhangabaú, Santa Cecília e Marechal Deodoro, espalhando a violência pelas ruas ao redor e não resolvendo efetivamente o problema.

TRÁFICO CONTINUA – O tráfico, um dos principais motivos alegados pela polícia para o início da operação, não chega perto de estar sendo combatido. A venda de pedras de crack a R$ 5 e de óxi a R$ 2 continua sendo feita sem o menor pudor, tanto na região da cracolândia como nos bairros vizinhos. Segundo relato dos comerciantes, o traficante geralmente anda com uma sacolinha na mão e nem sempre é também um usuário da droga. Como descreve o editorial publicado na edição de hoje da Folha de S.Paulo, “o que deveria ser uma ação coordenada, na qual a repressão ao tráfico estaria associada a medidas de caráter social e sanitário, voltadas para o tratamento de usuários, revelou-se, até aqui, um espetáculo de descoordenação, que tem prejudicado a imagem do poder público e da Polícia Militar”.

A solução para o problema, na visão de Kléber Bellucci, seria o Estado tratar os viciados como doentes. “Qualquer ‘noia’, fora de suas faculdades mentais, não vai dizer que quer ser internado. Ele quer é usar droga. O que está sendo feito não é solução”. A internação involuntária, proibida por lei, é um tema controverso entre especialistas da área. Atualmente tramita na Câmara o Projeto de Lei 2930/11, da Comissão Especial de Políticas Públicas de Combate às Drogas, que altera essa legislação, permitindo que a internação involuntária seja pedida por cônjuge ou parente dependente do usuário e que este seja internado involuntariamente por até 90 dias. Uma pesquisa realizada pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Uniad-Unifesp) com 170 usuários da cracolândia revela que 34% acham que a internação involuntária pode ser usada em determinadas condições. Ainda segundo o estudo, 62,3% gostariam de se livrar da droga e 47% estão dispostos a se submeter a tratamento.

Segundo dados da Polícia Militar divulgados na manhã de hoje, 55 pessoas foram detidas desde o início da operação. Entre as 3.031 abordagens policiais, 32 condenados foram recapturados e 23 pessoas foram presas. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, a PM dobrou seu efetivo da corporação e desde ontem 287 policiais militares estão na região da cracolândia e entorno.

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