Guido Mantega: ''para derrubar o governo, derrubaram a economia''

Ministro da Fazenda nos governos Lula e Dilma, Guido Mantega fala sobre a ação destrutiva da Lava Jato na Petrobras, a relevância do BNDES no financiamento do investimento. “Nós fizemos o único ciclo de crescimento longo dos últimos 40 anos. ‘Milagrinho’ uma pinoia”, afirma

Guido Mantega
Guido Mantega (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)
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Por César Locatelli, Carta Maior - “A eleição era no domingo seguinte, eu fui preso, com manchete, na quinta-feira. Para que serve isso? E depois não falaram mais nesse processo.”

“O Brasil quebrou em 2015? Não quebrou. O Brasil só quebra quando não consegue pagar sua dívida externa e nós tínhamos deixado 374 bilhões [de dólares de reservas internacionais].”

“Sem o BNDES você não teria industrialização no Brasil.”

“Palocci e Meirelles abortaram o início de um ciclo de crescimento [em 2005].”

“Nós fizemos o único ciclo de crescimento longo dos últimos 40 anos. ‘Milagrinho’ uma pinoia.”

“Eu estou escrevendo um livro, contando tudo isso, contando os bastidores. Quero lançar este ano.”

Com surpreendente franqueza, o ex-ministro Guido Mantega falou sobre seu “conflito civilizado” com Henrique Meirelles e a correlação de forças no início do governo Lula, que levou o presidente a entregar o Banco Central para um banqueiro. Admitiu sua irritação com a expressão ‘milagrinho’, pejorativa no seu entendimento, usada para designar o crescimento econômico por 10 anos consecutivos sob os governos petistas.

Ele lembrou a dependência que o Brasil tinha, até 2002, dos credores internacionais e a segurança conquistada com a acumulação de reservas. Revelou sua compreensão sobre a crise de 2008, sobre a ação destrutiva da Lava Jato na Petrobras, sobre a relevância do BNDES no financiamento do investimento, entre outros temas de sua longa permanência à frente da economia.

Mantega estava entre amigos no programa Conversas com Economistas, desse domingo (14): os economistas Paulo Gala, José Márcio Rego e Gabriel Galípolo. Possivelmente mais importante do que estar entre amigos, ele estava entre economistas progressistas que têm uma visão comum da economia, por exemplo: de que o Estado tem um papel essencial no crescimento econômico e na distribuição de renda; de que a taxa de juros exageradamente alta concentra renda, valoriza o câmbio em prejuízo da indústria brasileira, prejudica as contas do governo e bloqueia o crescimento econômico; de que os bancos públicos (como BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal) compõem o conjunto de instrumentos essenciais para a condução econômica do país.

[Os trechos entre aspas foram extraídos das falas do ex-ministro]

‘Milagrinho’ uma pinoia!

“Tem algumas coisas que me irritam um pouco. Por exemplo esse apelido de ‘milagrinho’. ‘Milagrinho’ é pejorativo. Porque é dizer: o Delfim fez o ‘milagrão’ e vocês fizeram o ‘milagrinho’. Nós fizemos o único ciclo de crescimento longo dos últimos 40 anos. De 1980 a 2020 só teve um ciclo longo. Teve um ciclo curto do [Plano] Real, uns quatro anos de um bom crescimento. Teve um ciclo curtíssimo do [Plano] Cruzado que durou um ano e meio. E teve um ciclo de 10 anos de crescimento de 4% ao ano. (…) ‘Milagrinho’ uma pinoia!”

Mantega ressalta diferenças entre os dois períodos. O crescimento populacional, na ditadura, se situava em torno de 3% ao ano, o que ajudava a impulsionar o crescimento do PIB. A política desenvolvimentista de Delfim, de fato, fortaleceu muito a indústria. No entanto, uma diferença muito relevante foi a concentração de renda daquele período em contraste com distribuição de renda do período recente. A pobreza no período em que Delfim Neto comandou a economia era de 35%. Em 2014, a pobreza atingia 8% da população, afirma Mantega e reforça: “não é verdade que a economia ficou estagnada nos últimos 40 anos”

“Palocci e Meirelles abortaram o início de um ciclo de crescimento”

Mantega assumiu o Ministério do Planejamento em 2003. No final de 2004 foi para a presidência do BNDES e, em março de 2006, passou a ocupar o cargo de ministro da Fazenda, onde permaneceu até o final do primeiro governo Dilma.

“Eu entrei no governo em 2006. O Palocci mantinha o pé no freio. O Palocci e o Meirelles… eles puseram o pé no freio. Nós já podíamos estar crescendo muito desde 2004, quando a economia cresceu 5,7%. Aí, os conservadores do Banco Central levaram um susto: ‘Como? Não pode? Isso não está no manual. O manual diz que o Brasil tem um produto potencial de 3,5%. Passou disso vai vir inflação’. Eles jogaram a taxa de juros lá para cima. Conclusão: eles abortaram o início de um ciclo”

“Eu assumi em março de 2006 e pus o pé no acelerador”

Ao comparar os anos Lula com os anos Dilma, Mantega destaca a conjuntura internacional muito favorável, com crescimento mundial e expansão do comércio exterior durante os dois primeiros governos petistas. A Brasil surfava junto grande onda: “o Brasil estava aumentando suas exportações (…) em 2002 o volume de comércio era 105 bilhões de dólares, tanto exportação quanto importação. Em 2011 tinha ido para quase 500 bilhões”.

Foi clara a opção do ministro pela priorização do investimento público, com o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) e, por outro lado, o crédito mais barato e de longo prazo, via BNDES, para o financiamento do investimento privado. “Você tem que investir para a economia crescer, Você tem que fazer infraestrutura, principalmente na economia brasileira. E aí a economia começou a crescer: em 2006 foi 4%, em 2007 foi 6,1% e em 2008 foi, no final, 5,1%. Porém até setembro, antes da quebra do Lehman Brothers, estávamos com 6,5%”

O fim do tormento da dívida externa

O crescimento econômico e os saldos positivos das exportações brasileiras permitiram colocar um fim no maior obstáculo ao pleno desenvolvimento do país, a dívida externa, que tinha provocado décadas de estagnação.

“Com isso, nós pudemos fazer uma das coisas mais importantes, que foi guardar reservas, acumular reservas, porque o Brasil até 2002 era um país dependente dos credores internacionais. Nós tínhamos uma dívida externa que nos atormentou desde os anos 1980 até os anos 2002. O Fernando Henrique [Cardoso] quase quebrou por falta de recursos externos. O primeiro objetivo da política do PT era diminuir essa dependência.”

A crise do real supervalorizado

O senso comum entende que o país vai bem quando o dólar está mais barato e que o país vai mal quando o dólar está alto. É preciso, no entanto, perceber que os problemas mais sérios para o país ocorrem quando o dólar está muito baixo. O país precisa exportar e suas empresas perdem competitividade quando sua moeda, o real no caso brasileiro, se valoriza em excesso.

Para perceber a perda de competitividade do produto brasileiro quando o dólar está baixo, imaginemos que um carro produzido no Brasil para exportação custe 50 mil reais. Se a paridade do real com o dólar for 5 reais para 1 dólar, o carro deverá ser vendido por 10 mil dólares para um comprador de outro país. Se a paridade for de 2,50 reais para um dólar, o mesmo carro custará 20 mil dólares. O dólar muito barato, o que equivale a dizer o real muito valorizado, destrói a possibilidade do produto brasileiro competir internacionalmente. A China, por exemplo, mantém sua moeda desvalorizada, dólar alto em relação à sua moeda, há décadas.

“Eu me lembro que em 2007 o câmbio tinha chegado a 1,60 [reais por dólar]. Eu falei para o presidente Lula: ‘Isso é uma crise para nós’. Nós não vamos continuar expandindo as exportações, a indústria vai quebrar. Vai acontecer o que aconteceu com FHC. Porque a valorização cambial quebrou a indústria brasileira. A indústria foi quebrada ali, pelo governo Fernando Henrique. O Collor também ajudou a quebrar.”

Mantega já revelava, em 2007, seu objetivo de mudar a combinação taxa de câmbio e taxa juros. A plena mobilidade de capitais especulativos de curto prazo combinada com uma taxa de juros excessivamente alta praticada pelo Banco Central provocava uma entrada massiva de dólares, que pressionava o dólar para baixo e valorizava o real. Mesmo as compras de dólares pelo Banco Central, uma tentativa de equilibrar o dólar num patamar mais alto, não davam o resultado esperado, era como enxugar gelo. A solução, que seria baixar os juros, contrariava a crença conservadora da diretoria do Banco Central, formada por profissionais advindos do sistema financeiro.

Continua o ex-ministro: “houve, então, uma pressão para que o Banco Central comprasse mais reservas. Ele comprou toda essa quantidade de reservas e, mesmo assim, o câmbio foi se valorizando. Como o juro ficou alto, acima do que deveria ser, o Brasil era o paraíso da especulação financeira. Rendia mais do que qualquer outro país. Depois de 2009, depois que as taxas de juros norte-americanas caíram para 0,25%, aqui no Brasil nós ainda estávamos com taxas de juros elevadas.”

Em 15 de setembro de 2008, quebra o banco de investimentos Lehman brothers

“Aí veio a crise. A crise parou o mundo. Paralisou o crédito. Todo mundo sabia que havia bancos quebrados, então ninguém queria emprestar      para ninguém. O interbancário não funcionava, parou tudo. Isso paralisou a economia brasileira também, ficamos dois trimestres paralisados. Mas, logo de cara, tomamos várias medidas para estimular a economia.”

Do lado dos impostos, Mantega comandava uma folga e um programa de regularização fiscal, um refinanciamento de tributos. Alíquotas de tributos eram reduzidas em troca do compromisso de não demitir. O Tesouro emprestou 100 bilhões de reais para o BNDES oferecer crédito para o investimento. Até o presidente foi aos meios de comunicação para tentar transmitir confiança.

“Emprego não caiu em 2009, cresceu 400 mil empregos”.

Conflito com a política monetária

Se por um lado o Ministério da Economia colocava todos seus instrumentos na direção do aumento da atividade, da recuperação da economia, era evidente que outro órgão do governo, o Banco Central, comandado pelo ex-banqueiro Henrique Meirelles, remava no sentido contrário.

“Nosso conflito com a politica monetária foi um capítulo importante. Foi um capítulo ruim porque nós poderíamos ter crescido mais. No dia 11 de setembro [de 2008], o Banco Central eleva os juros [de 13 para 13,75%]. A crise já estava instalada.”

O Banco Central não só subiu os juros num momento de claro estancamento da atividade econômica mundial, mas manteve os juros altos até janeiro. Mantega compara a atuação, no tocante aos juros, do Brasil com os EUA:

“O Ben Bernanke foi um grande presidente de Banco Central. Ele inovou na política monetária. Foi ele que inventou o quantitative easing. Ele derrubou, definitivamente, a teoria quantitativa da moeda. Acabou com Milton Friedman.”

A teoria quantitativa da moeda prega que um aumento na quantidade de moeda em circulação só faz subirem os preços. O quantitative easing de Bernanke inundou o mercado norte-americano de dólares e resgatou bancos e empresas sem saída que não a falência. O resultado foi uma recessão grande, mas muito menor do que poderia ter sido, sem sinal de inflação. Há críticas de que teria adiado uma solução mais definitiva ou de cunho mais social, mas a teoria de Friedman perdeu crédito. Ao menos para aqueles que tem olhos para ver.

As altas taxas de juros que o Banco Central do Brasil praticava comprometiam não só a atividade econômica, mas igualmente o equilíbrio fiscal: o pagamento dos juros sobre a dívida do governos é feito com recursos do orçamento do governo. Os economistas conservadores adotaram avaliar o resultado das contas do governo, tudo que arrecadou menos tudo que pagou, antes de se considerar o gasto com juros, o que foi batizado de resultado primário.

O resultado considerando todas as despesas, inclusive aquelas com juros, chama-se resultado fiscal. Mantega revela sua indignação com a conta de juros que o governo precisava pagar por causa das altas taxas determinadas por Meirelles e equipe.

“Eu tinha um conflito com Meirelles, um conflito civilizado, não era um conflito bolsonariano. Ninguém deu tiro em ninguém. A gente se reunia, conversava, mas eu queria tirar o Meirelles de lá.”

“Nós não conseguíamos fazer um resultado fiscal positivo, nosso primário era elevado. Diga-se de passagem, eu fui o ministro que mais fez [resultado] primário positivo no Brasil. Mas, o primário não era suficiente para pagar a conta de juros, que era de 5, 6, 7 e chegou a 8% do PIB. Sabe o que é isso?”

Para termos uma ideia do peso do gasto com juros, basta recordar que o programa Bolsa Família, que beneficiava quase 50 milhões de pessoas, custava para o governo em torno de 0,6% do PIB ao ano.

“Eu falei, nós temos um representante do setor financeiro no governo. É verdade que nós tivemos que fazer isso por causa da nossa correlação de forças. Em 2003, a gente estava enfraquecido. Apesar do presidente ter ganhado a presidência, não pense que ganhou e você tem o poder absoluto. Nada disso. Você compartilha do poder com a elite que continua mandando, com o setor financeiro que é fortíssimo, uma boa parte do Judiciário é conservadora, as instituições são conservadoras, dentro do Estado. Então, o Lula teve que colocar um banqueiro no Banco Central. Foi bom porque ele conseguiu se consolidar como presidente, senão acho que ele não durava três meses lá.”

“A economia internacional começou a fazer água em 2011”

No início de 2011, muitos países, o Brasil entre eles, retiraram os incentivos à economia que, entretanto, ainda não estava pronta para caminhar pelas próprias pernas. Mantega queria mostrar que as contas do governo estavam ajustadas, para novamente tentar convencer o Banco Central a baixar a taxa de juros. Ele cortou gastos e aumentou a meta de resultado primário, antes de perceber que a atividade mundial estava tombando.

“A economia internacional começou a fazer água em 2011, os países acharam que tinham conseguido superar, tiraram a ajuda do governo, as políticas fiscais, e a economia começou a cair lentamente. O governo Dilma pegou a pior fase da crise de 2008/2009. No primeiro semestre, achamos que estava tudo bem. E nós freamos a economia, para não descuidar da inflação. Veja como sempre fomos responsáveis em matéria de inflação. Nós fizemos um congelamento de gastos de 50 bilhões [de reais].”

“Eu anunciei um aumento do superavit primário de 10 bilhões em 2011. Eu estava criando as condições para o Banco Central baixar a taxa de juros, mas ele começou subindo a taxa de juros. Quando estourou a crise europeia, uma derivada da crise norte-americana, os banco europeus que estavam entupidos de ativos podres, estavam escondendo, quando fizeram o stress test eles todos estavam quebrados.”

Muitos atribuem o tranco que a economia brasileira sofreu, exclusivamente ao término do ciclo de alta das commodities, mas Mantega entende que foi toda a conjuntura de desalavancagem que atuou para nos brecar.

“A crise de 2008/2009 continuou baixando o crescimento da economia mundial, o crescimento do comércio mundial e isto nos afetou. Não é só a desvalorização da commodities, a famosa relação de intercâmbio. Não é só isso. É muito maior do que isso. É uma economia mundial que está desalavancando, que está ficando mais pobre. Isso implica confiança, fluxo de capitais etc.”

“De janeiro a março de 2011, nós tivemos uma entrada maior de que a saída de capitais de curto prazo de 36 bilhões de dólares. Eu falei nós vamos afundar aqui. Afundar na abundância. Você pensa: o que é pior falta de capitais ou excesso de capitais de curto prazo? Eu diria que os dois são ruins, a falta e a abundância. Nós vamos para a crise da Ásia, que teve uma abundância e depois o pessoal se retira.”

“Nós começamos a tomar medidas para segurar a entrada de capital externo”

A atividade econômica mundial baixa, em regra, libera capitais para aplicações financeiras e parte importante se destina à especulação. Os Bancos Centrais, em 2011, voltavam a reduzir suas taxas, mas no Brasil elas eram mantidas altas. A operação que o mercado internacional fazia naquele momento, e ainda faz quando tem oportunidade, chama-se carry trade. O banco, fundo ou empresa toma empréstimos nos países com taxa de juros baixa e aplica nos países com taxas altas. O objetivo é embolsar a diferença de juros, e mesmo a diferença de taxa de câmbio se a moeda do país em que investiu se valorizar.

A entrada excessiva de dólares com objetivos especulativos e por prazo curto, preocupava Mantega pelos efeitos deletérios que provocaria, via baixa do dólar, na economia real. Além disso ele se recordava da crise asiática, provocada pela enxurrada de dólares, seguida de saída ao estilo estouro de manada repentino ao primeiro sinal de aumento de risco. Ele sabia que ao mexer nas regras ia ganhar um poderoso inimigo: os bancos e o setor financeiro como um todo, nacional e internacional. Ele precisava reduzir a taxa de juros e impedir essa entrada de capital externo.

“Acho que o Brasil nunca tinha feito controle de capitais externos. Eu falei: isso aqui é um pecado para o setor financeiro, isso aqui é grave. Eu vou entrar na lista de pessoas não gratas pelo mercado financeiro. Também pressionamos para baixar a taxa de juros. Quando nós vimos que estourou a crise na Europa, o Banco Central baixou a taxa de juros, ele fez o que os outros bancos já tinham feito, quer dizer não fez nada mais do que a obrigação. O mercado achou que era intervencionismo estatal”

Ele relembra que tanto o FMI quanto o Financial Times, em editorial, acharam que as medidas foram adequadas. Não houve cerceamento do investimento estrangeiro direto, recursos que entram no país para tomar a forma de investimento real, não financeiro. As ações miravam o capital especulativo, que vinha se beneficiar exclusivamente do diferencial de taxas de juros.

“Veja, em 2011, controle de capital externo, uma forçada para baixar juros. Os juros foram baixando até 7,5%. Você imagina como ficaram loucos os bancos.”

A Nova Matriz Econômica “era mais uma brincadeira com aquele tripé macroeconômico”

Os economistas conservadores brasileiros, aqueles que têm presença constante no meios de comunicação, execravam qualquer alteração nos fundamentos do chamado ‘tripé macroeconômico’ formado pelo regime de metas de inflação, câmbio flutuante e equilíbrio fiscal. É preciso reparar que no tripé não há menção ao emprego, à competitividade da indústria ou ao crescimento econômico. Mantega tinha muito claro que, a continuar como vinha até ali, a desindustrialização se agravaria.

“Nossa estratégia era do social desenvolvimentismo que começou a ser posta em prática desde o governo Lula, que implicava equilíbrio fiscal, implicava controle da inflação, mas uma aceleração do crescimento. Como você combate a crise? Combate com investimento do Estado, crédito do Estado etc., como faziam os outros países. E aliás, estão fazendo hoje mais do que nunca.”

“A Nova Matriz dizia o seguinte – era mais uma brincadeira com aquele tripé macroeconômico – juros menores, câmbio flutuante e redução de tributos. Qual é o pecado? Eu queria mudar a relação câmbio juros. Porque o que nos estava matando, e o que matou a indústria, em grande parte, foi que nós não conseguímos ter um câmbio razoável para que a indústria competisse. Não é só isso. A competitividade cresceu muito com a presença da China, da Coreia…”

“Nós cutucamos a onça com vara curta”

A relação juro alto e dólar baixo era mortal para a competitividade brasileira. Mudar a relação câmbio juros significava baixar os juros, o que provocaria alta do dólar, o que seria mortal para o carry trade dos especuladores. A escolha do governo foi pela economia real.

“Em 2012 eu lanço isso: vamos mudar a relação câmbio juros. Essa relação é mortal para os especuladores financeiros. Quando o juro chegou a 7,5% e nós estávamos desvalorizando o real, o pessoal estava perdendo dinheiro. O pessoal não tinha mais carry trade aqui no Brasil. Nós éramos o país com mais carry trade do mundo. Não tinha lugar melhor. O Brasil era grau de investimento, um país seguro. Totalmente seguro, com reservas elevadas e pagando uma taxa de juros de junk bonds [títulos de baixíssima credibilidade]…”

O Brasil tem dois tristes recordes em matéria de juros: é, historicamente, campeão de taxas básicas altas, aquelas determinadas pelo Banco Central, e também campeão de taxas cobradas pelos bancos. A administração Dilma/Mantega decidiu tirar o país dessas duas lideranças. Além de pressionar o Banco Central por taxas menores, atuou junto ao bancos públicos para baixar o spread bancário, que é a taxa que o banco soma a suas taxas de captação para cobrar daqueles que tomam recursos emprestados. Em outras palavras, o que o cliente do banco paga por seus empréstimos é a taxa que o banco paga para tomar recursos no mercado mais o spread. O spread é de onde sai o lucro do banco.

“Nós compramos briga com esse setor (…) Nós cutucamos a onça com vara curta. Isso é muito importante para explicar a crise que teve no governo Dilma. Além de tudo, em 2011 e 2012, nós investimos contra o spread. Fizemos uma política explícita, usando os bancos públicos, que são importantes para fazer competição no setor. Temos aqui 5 ou 6 bancos que detêm 80% do crédito no país. E não vão ser essas startups [empresas novas que estão entrando no mercado] que vão resolver.”

“Nós conseguimos que baixassem os spreads nesse país, que era absurdo.”

“Nós fomos hostilizados por esse setor. Esse setor nos queria matar.”

“Esse foi o principal conflito que nos levou a uma grande crise. Até então nós tínhamos a simpatia da Economist, do Financial Times, do FMI. Lá fora, nós tínhamos protagonismo, em todos esses foros internacionais. O Brasil era tido como uma potência emergente. Nós chegamos a ter o sexto PIB. Nós chegamos a passar o Reino Unido. Essa composição juro reduzido e câmbio desvalorizado é mortal [para os especuladores financeiros]. Nós compramos a briga com os principais competidores que nós podíamos ter, que é o setor financeiro. Então acabou a coalizão, o entendimento com esse setor.”

“Em 2013, na véspera daquelas manifestações, Dilma tinha 70% de ótimo e bom”

A queda do consumo foi provocada pela associação dos efeitos da desaceleração mundial com o esgotamento do ciclo de endividamento, nos anos anteriores de crescimento, grande parte da população se endividou com juros altos e em 2012 e 2013 precisava pagar as dívidas e não tinha possibilidade de continuar aumentando se consumo. Dilma, no entanto, mantinha grande aprovação até o início das manifestações de junho de 2013.

“O que causou a crise de 2014 foi esse conjunto de fatores.”

“Com tudo isso Dilma manteve uma popularidade muito alta. Em 2013, na véspera daquelas manifestações, ela tinha 70% de ótimo e bom. Ela tinha mais do que o Lula teve no primeiro mandato. Porque o povo gostou que nós fomos contra os bancos, reestruturamos as regras das tarifas que os bancos cobram…”

“Quando veio a mobilização, que foi feita com a ajuda da internet e com dinheiro de grandes empresários norte-americanos, a direita se mobilizou contra nós. A direita aqui, a oposição aqui porque não aguentavam mais: ia ter uma quarta eleição e eles não queriam perder. Então, Aécio estava se mobilizando e tudo mais.”

Não é plausível dissociar o momento econômico do momento político. A tensão provocada pelas manifestações, a disputa eleitoral acirrada e a recusa do PSDB em aceitar a derrota têm peso relevante na queda da economia, ninguém se arrisca a investir, mesmo a consumir bens de maior valor, sem que o horizonte político esteja visível. Mantega considera que muitas críticas são dirigidas ao governo e pouco se atribui ao caldeirão político que já fervia desde meados de 2013.

“Então, veja a importância da crise política para explicar essa crise. Eu acho que isto é subavaliado. E mesmo assim a Dilma ganhou a eleição. Porque até o último momento nós tivemos aumento de empregos, nós tivemos pleno emprego. O desemprego em 2014 era o menor possível. O déficit da Previdência era 1% do PIB, estava sob controle, porque aumentou muito a arrecadação por causa da formalização As contas estavam absolutamente em ordem. Nós fizemos superavit primário até 2013. Em 2014 houve uma surpresa, estava projetado aumento do crescimento, que não aconteceu, porque esse conflito foi aumentando, um ano eleitoral muito disputado e, em 2014, despencaram as commodities. O barril de petróleo foi a 25 dólares.”

“O mundo todo estava sofrendo isso. Nós estávamos sofrendo mais porque tínhamos internamente uma crise política. Aí, a Dilma resolveu contratar o Joaquim Levi…”

“O Brasil quebrou em 2015? Não quebrou. O Brasil só quebra quando não consegue pagar sua dívida externa e nós tínhamos deixado 374 bilhões [de dólares de reservas internacionais]. Em 2016, a Dilma entregou o governo com 374 bilhões, então o Brasil não quebrava. Nós éramos credores externos líquidos, desde 2007 até hoje. Nós fizemos 11 anos de [superavit] primário.”

“Sem o BNDES você não teria industrialização no Brasil”

O ex-ministro defende, com veemência, o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), criado em 1952 por Getúlio Vargas: “Sem o BNDES você não teria industrialização no Brasil. É só isso”. Os bancos privados no Brasil não oferecem empréstimos em prazo compatível com a necessidade dos investimentos de longa maturação das empresas. “Não tinha crédito de longo prazo no Brasil. Como não tem ainda”, afirma.

É o BNDES que cumpre esse papel há quase 70 anos. Mantega ressalta ainda que as três CPIs e as inúmeras investigações porque passou o banco nada revelou de ilegal na condução da instituição. Ele admite que gostaria que os bancos privados assumissem esse papel: “Eu gostaria que o setor privado financiasse todo o investimento do país, sem precisar do BNDES, mas precisava do BNDES por conta da política monetária ortodoxa que sempre se fez no país.”

“O BNDES foi fundamental para sairmos da crise de 2008/2009. Crise mundial pega todo mundo. Não tem nenhuma política econômica que evita uma crise mundial. Mas a política econômica desenvolvimentista heterodoxa minimiza a crise, faz com que ela seja de menor duração.”

“Nós estamos ficando para trás com essa política. Agora o governo está cortando gastos. Ele estabeleceu o limite de gastos. Isso aqui é uma estupidez.”

“Nós colocamos 190 bilhões de reais no plano safra em 2014. A agricultura brasileira vai de vento em popa por quê? Porque ela teve cobertura e com taxa de juros mais baixa. Aí entrava Banco do Brasil, Caixa Econômica, esses bancos são importantíssimos. Eles estão privatizando os bancos sem vender. Assim como fizeram com a Petrobras.”

“Foram três CPIs do BNDES. Vários processos foram abertos. Todos os diretores do BNDES foram interrogados. Imagine a polícia indo na casa de 46. Não descobriram nada. O BNDES é absolutamente correto. São comitês que decidem. O BNDES nunca lucrou tanto quanto na nossa gestão.”

Lava Jato

Além das pessoas vitimadas pelas ilegalidades da Lava Jato, como Mantega e Lula, a própria economia sofreu um ataque extremamente potente dessa luta política travestida de combate à corrupção.

Muito antes das revelações retumbantes proporcionadas pela Vaza Jato, inúmeros juristas já apontavam as ilegalidades perpetradas pelo ex-juiz, Sérgio Moro, em conluio com os procuradores do Ministério Público Federal.

O professor e jurista Afrânio Silva Jardim, em artigo de 2017 para o livro Comentários a uma sentença anunciada, assevera: “pode-se afirmar, sem medo de errar, que o ex-presidente Lula não está tendo um processo penal justo e foi condenado de forma absolutamente injusta. Já o tinham eleito como criminoso, agora acham que encontraram seus crimes”.

O ex-ministro descreve os ataques da Força Tarefa da Lava Jato à economia brasileira, através da maior empresa do país.

“Eu queria falar do papel da operação Lava Jato na derrubada da economia. Foi fundamental. A operação Lava Jato paralisou a cadeia produtiva de petróleo e gás. Eu era presidente do Conselho de Administração da Petrobras. Eu estava lá por dentro. Isso foi em março/abril de 2014. De fato, tinha corruptos lá. Não estou dizendo que não tinha. Tinha corruptos que tinham que ser punidos. Agora, nunca tinha sido feita uma investigação direito. Quando começaram os ataques à Petrobras, ela foi paralisada. Por quê? A Polícia Federal, quase todo dia, ia lá revirava as gavetas, pegava documentos. Sendo que todos esses corruptos que estavam nessa primeira fase, não estavam mais trabalhando na Petrobras. Eles já tinham sido mandados embora. Nós mandamos eles embora. Esse Paulo Roberto Costa, esse Cerveró, tinham sido dispensados em 2012, eles não estavam lá.

Não era necessário paralisar. Você sabe que a Petrobras era a maior empresa brasileira, com faturamento de 330 bilhões na época. Sempre teve lucro, ao contrário do que dizem, só não teve em 2014 por causa do impairment, porque caiu o barril de petróleo e todas as empresas internacionais de petróleo fizeram impairment, que é um ajustamento dos valores do patrimônio tendo em vista os novos valores do ativo que você tem. 40 bilhões de impairment então deu lucro negativo.

E destruíram as 10 ou 12 principais empresas de construção civil do Brasil, que eram empresas que tinham atuação externa, competitivas. Nenhum país do mundo fez isto. Você tem corrupção nos Estados Unidos, lembrem da Enron, a Siemens, todos os países têm, mas ninguém destruiu a empresa. Você tem que pegar os responsáveis e põe na cadeia. Aqui não, os responsáveis estão fora da cadeia, porque eles fizeram delações fajutas, fraudadas. O sujeito chegava lá, diziam: ‘você quer sair da cadeia? Você tem que me dar a cabeça de um ex-presidente, de um ex-ministro’. Era assim e nós nos ferramos nessa. Imaginem o custo que nós tivemos de ter a polícia na nossa casa. Antes a Polícia Federal fazia a minha segurança. Eu andava com a segurança da polícia. Aí eles vieram na minha casa. Embora foram muito educados, tratamento perfeito, reviraram a casa, pegaram todos os equipamentos. Não acharam coisa nenhuma, abriram todas as minhas contas, mas era para fazer uma matéria de jornal. Era para acabar conosco.”

“Para derrubar o governo, eles derrubaram a economia. Criou uma insegurança jurídica, inclusive, no país. Os empresários falavam: ‘amanhã vou seu eu preso, hoje foi o Marcelo Odebrecht, depois de amanhã foi o outro’. Pegaram todas essas empresas e quebraram, As empresas quebraram. Não fizeram isso em país nenhum. E não foram só elas, toda a cadeia produtiva quebrou também. Ninguém recebia mais.”

“A indústria naval que tinha se recomposto, tínhamos cinco grandes estaleiros, quebrou. Ela tinha 83 mil empregos diretos, 400 mil empregos indiretos em 2014. Hoje tem 15 mil empregos. Isso graças a uma política de participação do componente nacional, 75% tem que ser de componente nacional. E as estrangeiras aceitaram esse jogo e vieram investir aqui.”

Prisão

Sérgio Moro decretou a prisão preventiva de Mantega em 16 de setembro de 2016. A Polícia Federal procurou-o em sua casa no dia 22, mas ele acompanhava a esposa, em tratamento contra um câncer, no Hospital Albert Einstein. Os policiais o prenderam no hospital. Na tarde do mesmo dia, o juiz revogou sua ordem anterior.

O advogado de Mantega, José Roberto Batochio, segundo o Consultor Jurídico, afirmou que a revogação restabeleceu a ordem jurídica violada. Segundo ele, a prisão era "arbitrária, desnecessária, autoritária, espetaculosa e desumana. Portanto, constituía uma supina ilegalidade". O advogado foi além e afirmou: "Essa prisão demonstra que no Brasil as liberdades pessoais se acham sequestradas. O cativeiro é no Paraná".

Mantega adverte para o autoritarismo em alta

“Eu cheguei a ser preso por algumas horas. Aquele juiz que hoje está trabalhando lá para aquela empresa [Alvarez & Marsal] que é de ex-policiais do FBI, da CIA. Vocês sabem, é uma empresa que eles plantaram e estão colhendo.”

“Nossa reputação foi para o vinagre, porque quando a imprensa colocava a mensagem, ela dizia: ‘o ministro foi preso’, então ele é culpado. Foi preso, mas relaxaram a prisão logo em seguida. Eu não cheguei a ser preso. Mas aí sai: ministro é preso. À frente da minha casa, às seis horas da manhã, tinha 40 jornalistas. Aquilo era um circo montado para nos desmoralizar. Meu nome saiu na imprensa internacional, me desmoralizou internacionalmente. Eu tinha um prestígio internacional.

Imagina minha mulher que estava com câncer. Aquilo foi um desastre. Os filhos foram embora do Brasil, não querem ficar aqui, não aguentam. Mas, felizmente estamos superando tudo isso. Todo mundo tem claro… o que fizeram com o Lula. Ele ficou 580 dias preso, sem prova nenhuma. Era só ler o inquérito. Ninguém leu aquele inquérito. Essa história do triplex no Guarujá é uma piada.

Isso é o aumento do autoritarismo aqui no Brasil. A direita que tinha vergonha, no passado, de seu autoritarismo, agora é explícita. O sujeito ganhou a presidência cultuando um torturador. Onde é que estão os valores? Armando a população, apoiando as milícias. Nós caímos muito, nos temos um risco político muito sério no país.”

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