Luiz Mott, o ex-heterossexual

Fundador do Grupo Gay da Bahia (o primeiro no Brasil a adotar a causa), antroplogo fala ao Bahia 247 sobre as lutas e conquistas do movimento gay e analisa a homofobia no pas

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Ele se assume como ex-heterossexual: foi casado com uma mulher por cinco anos e tem duas filhas. Acredita também que há sim, ex-gays. Polêmico, o antropólogo Luiz Mott luta há 31 anos pelos direitos humanos. Sua jornada se iniciou com a fundação do Grupo Gay da Bahia – o primeiro no Brasil a adotar a causa homossexual. Um dos fundadores da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transexuais (ABGLT), foi criador também do Centro Baiano Anti-Aids, do Grupo Lésbico e da Associação de Travestis de Salvador. Mesta entrevista, Mott fala sobre as lutas e conquistas do movimento gay no Brasil, pedofilia, adoção de crianças por casais homossexuais, violência e conta qual é o lado cor-de-rosa que só a Bahia tem.

247 – Até alguns anos atrás, a homossexualidade era considerada uma doença no Brasil, mas esse conceito mudou. Você acredita que a concepção do baiano a esse respeito também mudou?

Luiz Mott - A homossexualidade existe desde a pré-história. E Goethe, escritor alemão, dizia que a homossexualidade é tão antiga quanto a própria humanidade. Nos últimos anos, sobretudo a partir de 1969, quando os homossexuais de Nova York se revoltaram, brigaram com a polícia e conseguiram ser respeitados, começou a se comemorar o orgulho gay. Essa revolta serviu de inspiração para todo o mundo e movimentos homossexuais começaram a surgir em diversos países. No Brasil, essa movimentação começa em 1979 e eu fundo o Grupo Gay da Bahia em 1980. Eu posso dizer que, nas últimas três décadas, os homossexuais passaram a ser mais respeitados, ao menos nas boas intenções do governo, propondo sanções contra a homofobia e incluindo os homossexuais no Plano Nacional de Direitos Humanos, mas, infelizmente, muita coisa ainda está apenas no papel, há boas intenções, mas poucas ações.

247 – Cada vez mais acompanhamos casos de violência contra os homossexuais. A homofobia ainda é forte no Brasil?

Luiz Mott – Um dos grandes problemas do movimento homossexual brasileiro, além da não inclusão dos temas homossexualidade, direitos humanos e minorias sexuais nos programas curriculares de escolas e universidades para acabar com a ignorância em relação a eles, é a violência praticada contra a população homossexual, o que é chamado cientificamente de homofobia – o ódio, o medo, a intolerância à homossexualidade. A homofobia se manifesta dentro de casa, enquanto as outras minorias, como os negros e os deficientes físicos, aprendem com a família a enfrentar o preconceito. O homossexual enfrenta o oposto, pais e mães espancam, humilham, expulsam seus filhos quando percebem que eles são lésbica, travesti ou gay. Então, a discriminação vai do insulto, da agressão física e da humilhação em locais públicos como no exército e nas escolas, até chegar aos assassinatos.

247 – Quais são os números da violência contra os LGBTs aqui na Bahia?

Luiz Mott – O Brasil ocupa a vergonhosa posição de campeão mundial de assassinatos a homossexuais. A cada dois dias um gay, um travesti e, em menor número, uma lésbica é barbaramente assassinado, vítima da homofobia. A Bahia oscila entre o segundo ou terceiro lugar no ranking de mortes no país, em 2007 ela foi o estado mais violento, com 24 assassinatos. São crimes de ódio, cometidos com requintes de crueldade, com muitos golpes, tiros, tortura, até mesmo mutilação da vítima. É um verdadeiro homocídio.

247 – Quais são os maiores desafios do movimento gay na Bahia?

Luiz Mott - O movimento homossexual brasileiro, atualmente chamado de LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros (que inclui travestis e transexuais) – tem como prioridade a criação de leis que punam a homofobia, equiparando o preconceito contra o homossexual ao racismo. Nós não queremos privilégios, queremos direitos iguais, nem menos, nem mais. Esses projetos estão no Senado e já foram aprovados pela Câmara dos Deputados, mas encontram resistência de deputados, religiosos e fundamentalistas, evangélicos e católicos. Eles acusam os projetos de limitar a liberdade de se falar mal de homossexuais livremente no púlpito, pois eles já não podem mais falar mal do candomblé ou de outras religiões, mas continuam caluniando e pregando o ódio contra os homossexuais. Outra prioridade, não só para o país como para a Bahia, é que as travestis e transexuais sejam chamadas por seu nome feminino, pois é uma vergonha para elas, que vivem, vestem-se e portam-se como mulheres, ao chegarem em ambientes públicos, serem chamadas pelo nome de registro. Daí a importância de que o registro civil autorize a mudança para quem vive socialmente o sexo feminino.

247 - A Lei anti-homofobia tem sido respeitada na Bahia?

Luiz Mott – Até agora não houve nenhum caso de gays, lésbicas ou travestis que lançassem mão dessa lei, que denunciassem casos de abuso em alguma delegacia ou na Secretaria de Segurança Pública, apelando para que seus autores fossem punidos. Mas isso não significa que não haja discriminação homofóbica aqui na Bahia, pelo contrário, o GGB sempre recebe denúncias, mas as vítimas temem sofrer retaliações ao registrarem junto aos órgãos responsáveis, pois nossos policiais não perceberam ainda que os homossexuais devem ser tratados como os demais cidadãos. A lei foi aprovada, mas ainda não foi regulamentada e isso é, inclusive, uma das reivindicações do movimento aqui em Salvador.

247 – Existe uma imagem de que na Bahia "vale tudo". Essa identidade libertária incentiva as pessoas a saírem de outros estados para assumirem sua opção homossexual aqui?

Luiz Mott – Apesar de a Bahia possuir uma imagem de cidade alegria ou da boa terra, ela também apresenta contradições. Tanto aqui quanto no resto do país há esse lado cor-de-rosa. Nós temos a maior Parada do Orgulho Gay do mundo, na cidade de São Paulo, com 3 milhões de pessoas e aqui na Bahia participam quase meio milhão de pessoas. Eu calculo que 90% dos participantes dessas festas sejam simpatizantes, ou seja, não são gays, lésbicas ou travestis, mas pessoas que vão para aproveitar o som e os trios elétricos. O lado cor-de-rosa da Bahia é a identificação pública de seus cantores, principalmente cantoras, como gays ou lésbicas. Há rumores, prolongados durante décadas, de que Maria Bethânia, Gal Costa, Margareth Menezes, Daniela Mercury, são lésbicas, embora nenhuma delas assuma isso publicamente. Daniela Mercury, inclusive tem se mostrado muito corajosa, defendendo a camisinha e por isso foi barrada no Vaticano.

247 – Quais artistas mais apoiam o movimento?

Luiz Mott – Circulam também rumores sobre Xuxa e sua relação com Ivete Sangalo, que inclusive já demonstrou seu apoio à causa, cantando em uma das paradas em São Paulo. O mesmo acontece também com Gilberto Gil e Caetano Veloso, simpatizantes à nossa causa, eles se beijaram em frente à Prefeitura Municipal de Salvador, em 1990, quando Gil era vereador. Há outros apoiadores como Gerônimo, que foi padrinho da última parada, Xandy, marido de Carla Perez, Luiz Caldas e até mesmo Psirico. Esse lado cor-de-rosa, infelizmente, não leva uma afirmação categórica como leva a causa negra, por exemplo. Portanto, existe uma contradição do lado positivo com o lado vermelho sangue, dos assassinatos. Em um estado tão acolhedor como a Bahia não pode haver tamanha violência contra os homossexuais. Esperamos que as nossas denúncias e o nosso trabalho acabem com esse quadro de mortalidade, esse verdadeiro homocausto, que faz da Bahia um dos estados mais violentos do país.

247 – O que vem sendo feito para conscientizar a população homossexual sobre a Aids e as DSTs?

Luiz Mott – Quando a Aids surgiu no Brasil, no início da década de 80, foi chamada de peste gay. Embora ela tenha afetado populações homossexuais masculinas, no Haiti e na África, ela infectou primeiro comunidades heterossexuais e só então foi transmitida para os homossexuais. O GGB foi a primeira ONG a fazer a prevenção da doença na Bahia, distribuindo preservativos e realizando o teste anti-HIV na nossa sede, a cobrar do poder público ações efetivas contra a doença. Atualmente, além de termos produzido folhetos e até um livro sobre a prevenção da Aids, continuamos distribuindo preservativos não só para os gays como para a população em geral, em dias especiais como o 1º de dezembro (Dia Mundial de Luta contra a Aids) e outras datas importantes. Fazemos conferências sobre o assunto nas escolas e em diversos espaços em Salvador.

247 - Existe diferença entre ser homossexual e ser gay?

Luiz Mott – A palavra homossexual foi cunhada em 1869, na Alemanha, onde homo vem do grego igual e sexual do latim sexo. É um termo que inclui tanto o gay quanto a lésbica. A palavra travesti só surge em 1910. A palavra lésbica surgiu no século XVIII em alusão à Ilha de Lesbos, na Grécia, onde viveu a principal lésbica da antiguidade, Safo, uma poetiza cujos poemas foram destruídos pela Igreja na Idade Média. A palavra homossexual engloba todos aqueles, inclusive os animais, que praticam sexo no sentido macho com macho e fêmea com fêmea. A palavra gay, divulgada no Brasil a partir dos anos 70, significa em inglês "alegre", mas possui raízes no próprio português e no catalão, no provençal, em línguas latinas, que deram origem, na língua portuguesa, a gaiato, gaiatice, gaio, que significam alegre. Então, originalmente, na Idade Média, chamavam-se os rapazes gays de rapazes alegres, e se usa esse termo ainda hoje, de uma forma simbólica. Ou seja, o gay faz parte do conceito homossexual, embora a gente utilize cada vez mais o termo para definir aquele que tem sua homossexualidade assumida.

247 – O que você acha da criação de uma criança por um casal homossexual?

Luiz Mott - A adoção de crianças e adolescentes por um casal homossexual é um tabu por muitos considerarem que essa condição influenciará a orientação sexual desses jovens. É um equívoco imaginar que há uma ligação direta. Há pesquisas nas áreas de psicologia e sociologia nos Estados Unidos sobre isso e a observação realizada no Brasil demonstra que o número de filhos de homossexuais criados por heterossexuais é o mesmo que o criado por gays ou lésbicas. Cerca de 10% das crianças serão homo, independentemente se os pais forem heterossexuais ou não. Eu mesmo sou filho de pais heterossexuais e não fui influenciado por isso. E eu vou mais além, se os filhos de homossexuais forem homo, qual seria o problema? Não há problema, pelo contrário, nós pertencemos a uma comunidade de grandes personalidades e estrelas que deram contribuições fundamentais à humanidade. Felizmente, aqui na Bahia, contamos com o trabalho do juiz Salomão Resedá, que defende que a adoção seja feita em nome do casal homossexual, e não apenas em nome de uma das partes, como costuma ser feito.

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