Marco Aurélio Garcia, o mestre da unidade sul-americana

"Ninguém como ele foi capaz de enlaçar as diversas tradições latino-americanas e articular o nacional-popular com o progressismo, a nova esquerda surgida nos Anos 60 ou a esquerda mais clássica (quanto menos stalinista melhor, segundo ele). No caso da Argentina, isso lhe permitiu tecer um bastante amplo sistema de relações, tanto com o alfonsinismo, com o socialismo ou com os sindicatos, como com o peronismo. Alertava contra o excesso de correção política e a desvalorização dos movimentos plebeus", escreve Martin Granovsky, na Carta Maior

Marco Aurélio Garcia
Marco Aurélio Garcia (Foto: Leonardo Attuch)

Por Martín Granovsky, na Carta Maior

Lula tinha razão quando disse, ao deixar o seu adeus a Marco Aurélio Garcia, que “ele se zangaria conosco se nos visse assim”, cochichando com seu ex-chanceler Celso Amorim e ao lado de León, o filho do amigo recém falecido. Diante deles estava o ataúde com o corpo do seu conselheiro, que partiu aos 76 anos, na quinta-feira 20 de julho. O chamou de “Marquinho”. Recordou que Marquinho não gostava de ficar triste, mas sim de “brindar, com uma taça de vinho nas mãos”, e contando piadas.
 
Há três semanas, Marco Aurélio esteve pela última vez em Buenos Aires. Por sorte, nosso amigo Federico Moya, do Centro Cultural Torquato Tasso, compreendeu o quão importante seria dar a ele um lugarzinho para ver o concerto de Susana Rinaldi.
 
– Eu a vi pela última vez em Paris, quando estava exilado – contou, enquanto olhava o menu e comunicava ao garçom uma decisão transcendental – Quero comer algo bem portenho: milanesa com batatas fritas.
 
Nem precisava perguntar se acompanhava com malbec. Em sua vida, o vinho era companhia obrigatória. Como a fraternidade, o bom humor, o companheirismo, a luta pela justiça exercida naturalmente, sem nenhuma solenidade, e o tango.
 
Soube da morte de MAG, como o chamávamos, enquanto estava em plena cobertura da Cúpula dos Povos, em Mendoza. Nicolás Trotta, reitor da UMET (Universidade Metropolitana para a Educação e o Trabalho), me ligou.
 
– Sei que vocês eram amigos, e que tinham forte ligação, mas imagino que em meio a uma cobertura como esta, talvez não tivesse como saber.
 
Nicolás conheceu Marco Aurélio há pouco tempo. Ainda assim, pode desfrutá-lo: quando MAG sentia que não havia maldade do outro lado se entregava e se deixava levar, que perguntassem, que escutassem suas agudezas e suas perplexidades, que se divertissem com ele, que admirassem seu realismo nunca fatalista.
 
– Estamos fodidos, querido – dizia ele, nos últimos tempos, nas conversas em particular, com esse gesto severo que contrastava com seu sorriso permanente.
 
Mas, como bom historiador, se negava à tentação da futurologia – e como bom militante, deixava à vontade o seu lugar correspondente.
 
– Vamos ver o que acontece. No Brasil, é preciso que milhões de pessoas decidam ir às ruas.
 
Durante essa viagem à Universidade Metropolitana, nós tivemos um longo almoço com Rafael Follonier, que foi assessor Néstor e Cristina Kirchner, a quem MAG conheci desde as aventuras e desventuras da esquerda latino-americana nos Anos 70. Assim como muitos outros brasileiros, inclusive alguns que viraram a casaca e se tornaram conservadores (como Fernando Henrique Cardoso), Marco Aurélio fugiu da ditadura brasileira rumo ao Chile de Salvador Allende, e dali para a França, após o golpe de Augusto Pinochet. MAG contou histórias, como sempre, e perguntou muito. Metralhou com curiosidade, para completar seu panorama sobre o peronismo, sobre Cristina, sobre Florencio Randazzo (líder peronista mais de centro), sobre os governadores, sobre Cambiemos (a aliança macrista). Não perguntava pela política em geral, queria saber coisas específicas. Inquiria com grande conhecimento de base, com incrível capacidade de análise, a partir do contato com boa parte dos protagonistas. Não costumava emitir juízos prematuros. Quando opinava sobre a Argentina – poucas vezes, bem poucas –, usava um tom conjectural, deixando sempre um vestígio de pergunta no ar. O professor, como o chamavam dentro do governo, odiava apontar o dedo. Sabedoria de mestre.
 
Antes de chegar ao cargo de assessor especial de Lula, em 1° de janeiro de 2003, MAG tinha sido secretário de relações internacionais do PT (Partido dos Trabalhadores) e professor de História Contemporânea na Unicamp (Universidade de Campinas). Muitas vezes pensou em voltar à academia, até que o golpe contra Dilma o obrigou a deixar seu escritório. Em 2016, já com 75 anos, não pode fazê-lo. Além disso, lhe restou uma aposentadoria menor que o esperado: “passei do Planalto à planície baixa”, escreveu num email, irônico.
 
O plano que tinha com Trotta e Follonier era falar com Aníbal Jozami, da Universidade de 3 de Febrero, e também amigo de MAG, para fazer um projeto para o Núcleo de Estudos Brasileiros da UMET, e assim trazê-lo para viver em Buenos Aires, onde daria seminários para a pós-graduação, palestras a dirigentes sindicais, entre outros encontros.
 
Não deu tempo. O infarto o impediu. Uma pena, porque Marco Aurélio adorava Buenos Aires e tinha muitos amigos por lá, a quem desafiava:
 
– Nenhum de vocês tem uma biblioteca de política argentina como eu.
 
Certamente não. Parte de sua amizade consistia em manter uma conta corrente na base da troca de livros, na qual, evidentemente, o amigo ficava como devedor – muitas vezes ele já havia comprado, em alguma viagem, o livro argentino que indicávamos, e por outro lado era difícil que não acertasse com sua recomendação brasileira.
 
– Você leu a sério do Elio Gaspari sobre a ditadura? Eu te mando os livros. E recomendo a biografia de Getúlio Vargas. Eu te mando também.
 
A noite no Tasso, antes e depois do show de Rinaldi, MAG aproveitou para nos contar que tinha muitos projetos por diante. Estava ordenando sua biblioteca no apartamento em São Paulo, que ocupava a pouco tempo, já sem Brasília em sua vida cotidiana. Nos relatou como andava o ordenamento de seu gigantesco arquivo.
 
– Vou escrever alguns artigos, porque recebi muitos convites para seminários. Também estou relendo a autobiografia de Eric Hobsbawm, “Tempos Interessantes”. Quero escrever algo parecido. Não será exatamente sobre a minha vida. Como Hobsbawm, quero relacionar minhas histórias com a história das últimas décadas.
 
Posso falar aos menos dos seus últimos 18 anos. Conheci MAG quando Alberto Ferrari, um amigo latino-americanista em comum e ex-funcionário do governo de Raúl Alfonsín, montou um instituto de Estudos Brasileiros na Universidade de San Martín, e convidou Luiz Inácio Lula da Silva para uma palestra. Isso foi em 1999.
 
– Me acompanha até (o aeroporto de) Ezeiza para buscá-lo? Ele vem com o Marco Aurélio Garcia. Nem sabia quem era, mas Ferrari me explicou que era um assessor de quem Lula não desgrudava em nenhuma de suas viagens ao exterior.
 
Lula acabava de perder sua terceira eleição presidencial, em outubro de 1998, e também havia sido derrotado dentro do PT, pela ala mais dura.
 
– Não entendo para quê convidar um morto político – disse o Lula a Ferrari. Como fazia o MAG, Lula também não perdia a chance de rir de si mesmo.
 
Seria a primeira parte de uma reportagem-crônica para o Página/12, que o acompanharia em toda a sua visita, por palestras acadêmicas e numa visita uma favela, na localidade de General San Martín. Em meio a essa agenda, encontrei um momento para perguntar a Lula se seria candidato outra vez.
 
– Depende – respondeu.
 
Foi o MAG que me explicou o resto do que Lula pensava.
 
– Te disse isso porque não quer ser o candidato de uma seita. Quer liderar o PT e ser o candidato de uma força capaz de montar uma aliança para triunfar e governar.
 
O PT conseguiu exatamente isso. Quando Lula ganhou os dois turnos do pleito de 2002, finalmente foi eleito presidente.
 
A essa altura Ferrari e MAG, com seu estilo sempre sugeridor, me tornaram um obeso em termos de conhecimento sobre o Brasil, a base de relatos, livros recomendados, personagens, filmes e novelas. Era uma glória ler Teoria e Debate, a revista do PT, efervescente e aberta como a Rinascita do Partido Comunista Italiano, de Enrico Berlinguer, no começo dos Anos 80. Além disso, concreta: foi dela e dos estudos da Fundação Perseu Abramo – que MAG presidiu – que nasceu o projeto Fome Zero, de José Graziano, o atual chefe da FAO. Nunca está demais lembrar Lula fez aquela campanha vitoriosa prometendo que todos os brasileiros fariam três refeições por dia, e cumpriu.
 
– Depois de tantos anos de escravidão, o Brasil teve em Lula o governo a favor dos escravos – concluiu Alberto Ferrari, numa desolada análise recente pela regressão e o revanchismo das elites que apoiam o governo de Temer.
 
Lula levou MAG ao Planalto, para ser seu assessor especial, especialmente para relações internacionais, embora sempre tivesse em conta a opinião do professor também nos momentos de crise, por suas convicções firmes, sua capacidade de negociação e a certeza de qual era a identidade do PT junto aos trabalhadores e o resto dos setores populares. MAG tinha uma vantagem extra: sem ser cínico nem alheio aos valores éticos, nunca se colocou no papel de fiscal, mas era um sujeito que, virado de cabeça para baixo, de seus bolsos só cairiam os trocados ganhos com seu salário.
 
Em 2005, quando veio à tona o escândalo do Mensalão, que ameaçou colocar o PT na defensiva e fazê-lo perder as eleições de 2006, Lula mandou o MAG para a linha de frente da campanha para a sua reeleição.
 
– Querido, vou aceitar a missão porque não podemos estar todo o tempo todo respondendo os ataques dos grandes meios. Temos que fazer política com o que somos. Com um programa para que as mudanças continuem. Não somos um grupelho testemunhal, somos o PT.
 
Ganhara, e o mesmo aconteceu em 2010 e em 2014, encabeçados por Dilma Rousseff.
 
– Quando era jovem, jamais pensei que só depois dos 60 anos começaria a trabalhar como funcionário de um governo que ajudei a eleger – dizia sorrindo este homem nascido em 22 de junho de 1941, em Porto Alegre, e que naquele janeiro de 2003 se aproximava dos 62.
 
Marco Aurélio sabia tudo o que acontecia no governo, e tinha posição tomada sobre tudo e sobre todos. Mas não causava intrigas, não estava em sua natureza. Sustentava a ideia de que a divisão era uma perda de tempo para a construção coletiva. Expansivo e conversador, administrava com muito zelo suas opiniões, e parecia medir o grau de reserva de acordo com o nível de confiança que tinha com seu interlocutor de momento. Desprezava os fofoqueiros, gostava dos que sabem guardar um segredo. Se irritava com os que não entendiam quando uma reflexão sua podia ser utilizada para interpretar um fenômeno, mas nunca para ser citada.
 
Era um gênio da análise realista. Sabia se colocar no lugar de um aliado, e inclusive compreender os interesses de um adversário ou inimigo, sem confundir os objetivos próprios. Não utilizava a empatia que gerava para se aproveitar do outro. Tampouco deixava de usá-la como instrumento de diálogo ou de negociação.
 
Nos seis minutos que falou em frente ao ataúde do amigo, Lula destacou essa parte. Disse que Marco Aurélio não era um diplomata como os que se formam no Instituto Barão do Rio Branco, no Itamaraty, mas agregou que “nenhum presidente teve o privilégio de contar com Celso Amorim como chanceler e com Marco Aurélio, que me representava diante dos partidos de esquerda, os movimentos sociais e o movimento sindical”. Chorou ao lado de Amorim e, confortado por seu ex-chanceler, seguiu: “até poderia ter disputado o cargo com o Celso, e teria a primazia de agradar os governantes do mundo inteiro. Ele adorava o meio, e se encantava com Obama, Bush, Chirac, Putin. Lhe agradava sua forma de ser. Nunca disse que falava em meu nome, mas as pessoas sabiam quem falava em nome do Estado Brasileiro era o Celso Amorim e quem falava em nome do Lula, do PT e da periferia do Brasil era o companheiro Marco Aurélio Garcia. Que era adorado. Era adorado pelo Néstor Kirchner, pela Cristina, pelo Duhalde. Era adorado pelo Chávez, pelo Evo Morales, pelo antecessor do Evo, pelo Uribe, pelo Santos. Por todas as pessoas que o conheceram. Todos o viam como uma figura especial, com uma capacidade extraordinária”.
 
Marco Aurélio não era de comentários maldosos individuais, mas em termos de política ele tinha suas categorias. Sabia ser solidário e apreciava a solidariedade. Sem deixar de lado a ideologia, podia dizer que alguém “era uma boa pessoa”. A categoria era ainda mais se agregava que “era um profissional”. Queria dizer que se tratava de alguém sério com quem se podia entrar em acordo ou disputar dentro de uma base racional comum.
 
Essas características pessoais foram decisivas para que, desde 2003, ele fosse um dos grandes condutores da integração sul-americana. Já não era somente o impulsor de iniciativas como o Foro de São Paulo, agora defendia iniciativas entre os Estados. Era o homem ideal, porque conhecia boa parte dos que governava e era capaz de criar novos vínculos rapidamente, sem dividi-los. Costumava repetir a ideia de que cada processo nacional tinha suas senhas particulares. Não o fazia somente por respeito mas também pela sabedoria de historiador e político por quem Hobsbawm perguntou depois da agradável entrevista que fiz com ele em Londres, em 2009.
 
Ninguém como ele foi capaz de enlaçar as diversas tradições latino-americanas e articular o nacional-popular com o progressismo, a nova esquerda surgida nos Anos 60 ou a esquerda mais clássica (quanto menos stalinista melhor, segundo ele). No caso da Argentina, isso lhe permitiu tecer um bastante amplo sistema de relações, tanto com o alfonsinismo, com o socialismo ou com os sindicatos, como com o peronismo. Alertava contra o excesso de correção política e a desvalorização dos movimentos plebeus.
 
Estava convencido de que o primeiro passo para construir um arco de alianças do Brasil, visando alcançar a unidade sul-americana e um maior peso no mundo, deveria ser com a Argentina. E convencido de verdade: podia explicá-lo numa conferência, e também persistir com a ideia em privado, enquanto compartilhava de uma porção de camarões. Essa noção estratégica tão forte o colocou no papel de um dos poucos brasileiros e argentinos que, em 2004, depois de um ato hostil do ministro da Fazenda brasileiro quando a Argentina negociava com o Fundo Monetário, teve a certeza de que era preciso agir para reconstruir o laço pessoal entre Lula e Néstor Kirchner, para que os processos políticos em cada país não se desvinculassem e se tornassem mais difíceis.
 
Lula, claro, fez a sua parte. Em setembro de 2004, durante a Assembleia da ONU, foi até o hotel onde estava Kirchner, sem ser convidado, e esperou até ser atendido. E que conte o fato de que presidente argentino não o fez esperar durante 45 minutos de propósito. A conversa deve ter sido boa, porque a relação se tornou indestrutível a partir dali, e quando Kirchner faleceu, em outubro de 2010, Lula chorou sua perda como a de um irmão.
 
Ao se despedir de MAG, ele chorou de novo. Lula não é um melancólico, mas vem de uma sequência de dores recentes. Em menos de um ano teve que lidar com a perda de sua esposa, com um juiz que o condenou em primeira instância sem provas, com o golpe contra Dilma e a demonização do PT por parte dos escravocratas brasileiros. Na mesma semana da condenação, o governo de Temer aprovou uma reforma trabalhista que leva o país de volta ao Século XIX, e que Marco Aurélio chamava de “contrarreforma”, dizendo que fazia parte de um projeto neoliberal de longo prazo.
 
“Querido León, sei que você está perdendo um pai”, lhe disse Lula ao filho de Marco Aurélio, enquanto agarrava o seu braço, “mas o seu pai foi forte. Nas ideias e no humor. A esquerda no mundo inteiro não tem outra pessoa como ele. Brindemos pela importância que a sua passagem pelo planeta Terra teve”. Depois, fez uma pausa e olhou para o corpo como se o abraçasse. “Estou aqui, Marquinho, para me despedir de você dizendo o seguinte, querido: a carne se vai, mas as ideias continuam, o humor e a beleza política continuam”.
 
Soube que Marco Aurélio havia estado com Lula depois da condenação, e que o sentia com força para lutar. Não sei se esse encontro foi a última imagem que Lula tem de MAG.
 
Quem me dera poder emprestar a ele a imagem que guardei. Susana Rinaldi talvez consiga fazê-lo com os versos de Yuyo Verde. Marco Aurélio a acompanharia desde sua mesa. “Déjame que llore y te recuerde / trenzas que me anudan al portón / de tu país ya no se vuelve / ni con el yuyo verde / del perdón”, canta radiante. Neste momento, ele é um homem feliz.

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