Movimento negro reage ao comitê do Carrefour: “Não há mediação com quem nos mata”

Integrantes do coletivo, como o professor Silvio Almeida, são criticados: “Como aceitam formular propostas para o Carrefour amenizar seu racismo?”

Protesto em frente ao Carrefour em Porto Alegre
Protesto em frente ao Carrefour em Porto Alegre (Foto: Ezequiela Scapini)
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Por Igor Carvalho, no Brasil de Fato – A criação de um Comitê Externo de Diversidade e Inclusão, resposta do Carrefour à sociedade, após o assassinato de João Alberto Silveira Freitas em uma unidade do supermercado, foi rejeitada pela Coalizão Negra por Direitos, entidade que reúne 150 organizações ligadas ao movimento negro.

Em nota, a coalizão lembrou do histórico de crimes raciais cometidos pelo Carrefour e criticou a postura da empresa nos dias seguintes ao assassinato.

“[A empresa] resolveu monetizar a vida interrompida tragicamente de João Alberto com a criação de um fundo de igualdade racial de valor irrisório ao lucro da empresa, e, por fim, buscará escamotear sua responsabilidade via comitê", diz o texto.

"Nos cabe reafirmar que não há saídas que não sejam construídas juntos com as organizações do movimento social negro e o irrestrito respeito à família da vítima e sua comunidade", ressalta a nota da Coalização Negra por Direitos. 

O comitê foi criado para assessorar o Carrefour em medidas de combate ao racismo na estrutura da multinacional francesa. Para tanto, o supermercado convidou figuras públicas, todas negras, para trabalharem na estruturação das medidas.

Entre os nomes, estão o empresário Celso Athayde, fundador da Central Única das Favelas (Cufa), o filósofo Silvio de Almeida, a historiadora Anna Karla Ferreira dos Santos, e Maurício Pestana, diretor da revista Raça Brasil.

No texto, a coalizão condena a individualização das soluções. “Assim como não cremos na ideia de que teremos heróis; nós os cultivamos no dia a dia das lutas do povo negro. Lembremos que Palmares, o Quilombo capaz de desafiar a Coroa portuguesa, foi uma construção coletiva, de homens e mulheres que deram suas vidas à luta por liberdade.”

O Brasil de Fato teve acesso às propostas elaboradas pelo comitê. No documento, que será apresentado às 100 maiores empresas brasileiras, há uma crítica à multinacional francesa na abertura.

“Nosso posicionamento de total repúdio aos casos de racismo e outras formas de discriminação ocorridos reiteradamente na rede de supermercados Carrefour e em outros espaços, em especial o bárbaro assassinato de João Alberto Silveira Freitas."

O documento ressalta ainda que o Carrefour "tem se notabilizado por episódios de violência ocorridos em suas dependências e protagonizados por pessoas que estavam sob sua responsabilidade.”

Entre as 28 medidas sugeridas, há três pilares, ações para padronizar a segurança das empresas do grupo francês, como a exigência de que as terceirizadas não tenham policiais e milicianos entre os sócios; a evolução para 50% de negros no quadro de funcionários da empresa e um plano de carreira para ascensão interna de pretos e pardos em postos de comando.

Além da indenização, sem interposição jurídica, da família de João Alberto, e responsabilização civil e criminal dos assassinos. Não há menção à punição da empresa na Justiça.

"A única mediação possível é da Justiça"

Regina Adami, do Ìrohín Centro de Documentação, Comunicação e Memória Afro-Brasileira, uma das entidades que compõe a Coalização Negra por Direitos ressalta que o posicionamento da coalização é de que "a única mediação possível é da Justiça".

"O supermercado tem que ser condenado como co-autor do assassinato. Não são indivíduos ou pessoas iluminadas que vão fazer essa mediação. O grande problema é que o mercado não trabalha com o respeito à vida e à legislação. Eles contratam empresas de segurança que violam a vida, a maioria das empresas são formadas por policiais ou ex-policiais", ressalta.

No dia 20 de novembro, a Coalizão foi ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, exigindo a responsabilização criminal da multinacional francesa e da Vector Segurança Patrimonial, empresa que presta serviço ao supermercado. Além disso, a entidade pede a cassação do alvará de funcionamento do Carrefour no Rio Grande do Sul.

Após a criação do comitê, integrantes do movimento consideram que o supermercado optou por uma saída sem diálogo com o movimento negro.

“Quando essas pessoas aceitam participar desse comitê, elas aceitam mediar com quem nos mata. Nós, da Coalizão, vamos apoiar a família e não vamos mediar com eles", afirma Regina Adami.

As críticas são direcionadas também aos integrantes do colegiado, por aceitarem a proposta.

"O caminho é a Justiça, não queremos nenhuma interposição entre a Justiça e os assassinos. Como agora, negros aceitam formular propostas para o Carrefour amenizar seu racismo?”, questiona.

Para Wania Sant’Anna, historiadora e representante da comunidade de terreiro Ilê Omolu Oxum, que integra a coalizão, “não será a resposta de um comitê independente, composto por personalidades públicas, que poderá responder à crise".

Ela ressalta que a situação teve início com um assassinato filmado e visto por toda a sociedade brasileira. "Ali, vemos um paralelo natural com o assassinato de George Floyd. A resposta da empresa veio com duas notas, a primeira tentando se eximir de responsabilidade pelo assassinato, depois o comitê. O fato objetivo é a Justiça e a responsabilização", ressalta.

Outros lados

Em contato com o Brasil de Fato, Silvio de Almeida preferiu não se manifestar, mas lembrou que o comitê é respaldado por 700 organizações e indivíduos, entre eles a Educafro, Unegro e a Frente Favela Brasil, entidade fundada por Celso Athayde, que pretendia ser um partido político, mas não conseguiu as assinaturas suficientes. Athayde também preferiu não comentar as críticas, alegou que está focado em atender “9 milhões de pretos” nas favelas, através da Cufa.

Em postagem em seu perfil no Twitter no último domingo (27), o filósofo expôs os motivos que o levaram a participar da iniciativa implementada pelo Carrefour. Almeida afirma que não foi convidado pela empresa, mas por outros integrantes do comitê, "que pediram minha ajuda para pensar formas de reparação e responsabilização que fossem efetivas e que não caíssem no esquecimento".

Almeida afirma que sua participação não acontece por meio de assessoria e não há vínculo trabalhista entre ele e a empresa. Ele diz não ser ingênuo a respeito das mudanças que podem ser realizadas na empresa e enfatizou que não acredita em "capitalismo humanista".

"A questão é de tomar uma decisão em defesa da vida: se eu puder evitar que mais uma pessoa morra, sinto que é meu dever fazer algo", escreveu. 

Outro integrante do comitê, o empresário e ativista Celso Athayde defendeu a estratégia de mudar empresas "por dentro".

"Se queremos mudar então vamos entrar e construir as mudanças", publicou ele em sua conta do Twitter.

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