247 – Negros são 71% dos mortos pela polícia em nove estados brasileiros em 2025, apesar de representarem parcela menor da população total dessas unidades da federação. O levantamento, divulgado nesta quarta-feira (29) pela Rede de Observatórios da Segurança, mostra que pretos e pardos, sobretudo homens jovens, seguem como as principais vítimas da letalidade policial no país, segundo a Folha de São Paulo.
O estudo “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã” aponta que pessoas negras têm maior probabilidade de morrer em ações policiais do que o restante da população em todos os estados pesquisados. O relatório analisou dados de Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.
A Rede de Observatórios da Segurança, iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), monitora indicadores de violência a partir de informações fornecidas pelas secretarias estaduais de segurança por meio da Lei de Acesso à Informação. Nos nove estados acompanhados, foram registradas 4.330 mortes por intervenção policial em 2025, ante 4.069 no ano anterior. O aumento foi de 6,4%.
A alta da letalidade policial contrasta com a queda de outros indicadores de violência no país. Segundo dados do Ministério da Justiça citados no levantamento, o Brasil registrou 31.481 vítimas de homicídio em 2025, redução de 10,4% na comparação com 2024. Nos nove estados analisados pela rede, a queda dos homicídios foi menor, de 8,5%.
O mesmo movimento de redução foi observado em crimes como estupro e feminicídio nos estados monitorados. Ainda assim, sete das nove unidades da federação acompanhadas tiveram crescimento nas mortes provocadas por policiais entre 2024 e 2025. Apenas Piauí e Bahia registraram queda nesse tipo de ocorrência.
Na Bahia, foram contabilizadas 1.570 mortes por intervenção policial em 2025, recuo de 7,7% em relação ao ano anterior. O estado, porém, segue como o mais letal entre os pesquisados, tanto em números absolutos quanto na taxa de mortes por intervenção policial a cada 100 mil habitantes. Em 2024, a Bahia havia atingido o recorde de 1.702 vítimas.
A desigualdade racial aparece de forma mais acentuada no estado. Embora a população negra corresponda a 79,7% dos habitantes da Bahia, pretos e pardos representaram 93,9% das vítimas de ações policiais letais em 2025, com 1.243 mortes. O relatório afirma que “o território vive sob constante tensão devido à disputa de mais de 20 facções por rotas e pontos de venda de drogas”.
A letalidade policial na Bahia também é marcada pela concentração territorial. Doze municípios, em um universo de 417, responderam por metade das mortes registradas. Houve casos de morte por intervenção policial em 346 dos 365 dias do ano. Mais de mil vítimas tinham entre 18 e 29 anos.
Em sete anos, policiais das forças de segurança da Bahia mataram 8.743 pessoas, número superior ao registrado nos demais estados monitorados. No mesmo período recente, o estado conseguiu reduzir o total de homicídios: foram 3.663 vítimas em 2025, queda de 13% em relação a 2024, segundo o Ministério da Justiça. Também houve recuo nos registros de estupro e feminicídio.
No Amazonas, a letalidade policial permaneceu estável. O estado registrou 43 mortes em 2025, o mesmo número observado no ano anterior. Apesar disso, apresentou a maior proporção de vítimas negras: pretos e pardos foram 96% dos mortos pela polícia, embora representem 73% da população amazonense.
O relatório também chama atenção para o aumento de mortes de crianças e adolescentes em ações policiais. Nos nove estados monitorados, foram 312 vítimas de até 17 anos em 2025, 15 a mais do que em 2024. A Bahia concentrou a maior parte desses casos, com 152 vítimas de 12 a 17 anos.
O Rio de Janeiro teve o segundo maior número de crianças e adolescentes mortos por policiais no levantamento. Foram 44 vítimas de 12 a 17 anos e duas com até 11 anos. Os dados reforçam a preocupação do estudo com o impacto da letalidade policial sobre jovens, especialmente negros, em territórios mais vulneráveis.
Outro problema apontado pela Rede de Observatórios da Segurança é a baixa qualidade das informações sobre raça e cor das vítimas em alguns estados. No Ceará, 57% dos casos de mortes pela polícia não têm informação racial. O relatório observa que esse índice já chegou a 77% em anos anteriores. No Maranhão, a subnotificação alcança 55% dos mortos, ante 68% dois anos antes.
Para os pesquisadores, a ausência de informações completas dificulta o diagnóstico da violência policial e contribui para invisibilizar a dimensão racial do problema. “Por anos, a persistência de índices alarmantes, de casos classificados como ‘não informados’, funcionou como um mecanismo de apagamento estatístico que impedia um diagnóstico preciso da letalidade policial”, afirma o relatório. “É preciso destacar que o cenário permanece preocupante”.
❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.
✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.
Apoie o jornalismo independente do 247:







Participe da discussão