O pensamento da direita e a produção cultural

Os ataques reacionários ao Fora do Eixo e à Mídia Ninja têm se multiplicado recentemente, manifestando assim mais um esforço retrógrado para demonizar uma ação que se distingue pela modernidade

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Uma das acusações mais interessantes que os chamados pensadores de direita fazem contra os de esquerda é a de que eles são "burros". A principal característica da esquerda seria a burrice, simples assim.

Como é possível que alguns seres humanos inegavelmente inteligentes, alguns até intelectuais brilhantes, sejam de esquerda? Arthur Koestler tem uma explicação fisiológica: o problema é uma "fadiga de sinapse", um enfraquecimento das conexões entre as células do cérebro dos esquerdistas, coitados. Mas a explicação mais comum é psicológica: a origem da esquerda é a frustração, por não deter o poder, e o ressentimento, conforme Max Scheler proclamou e, depois, Raymond Aron e Monnerot repetiram.

Ainda hoje, dizem que o antiamericanismo que se espalha por quase todos os países do mundo, é resultado da inveja. Segundo Simone de Beauvoir, Monnerot dizia. no próprio título de seu livro, que o comunismo era O Islã do Século XX; atualmente, numa simples reversão, poder-se-ia dizer que o islamismo é que é o comunismo do século XXI. Ambos expressariam um mal metafísico, uma arte demoníaca para perder a humanidade. Informa ainda Beauvoir que, para Paul Claudel, por exemplo, condenar a exploração do homem pelo homem é tolice porque o homem "pede" para ser explorado. Não basta, portanto, segundo Claudel, defender a ordem estabelecida; ele sustenta que ela merece o apoio divino, nada menos. Beauvoir conclui que algum tipo de mística é necessário para a direita – e o próprio Deus é invocado para sancionar seus objetivos.

Estas informações de Beauvoir estão no seu ensaio O Pensamento da Direita Hoje, que data de 1955. Além da pretensa inteligência, oposta à suposta burrice da esquerda, ela também assinala outras características do pensamento da direita que, não surpreendentemente, ainda são as mesmas hoje em dia. Entre elas contam-se a crença feroz na desigualdade entre os homens (divididos entre outras coisas, entre direitistas sabidos e esquerdistas estúpidos), o pessimismo catastrófico diante do futuro (as coisas sempre vão de mal a pior, a hecatombe está logo ali, na primeira esquina) e a paranoia obstinada que obriga a localizar o inimigo responsável por todo o mal e que deve ser implacavelmente destruído (em 1955, naturalmente, era o comunismo bolchevista).
Repito que estas características não mudaram. Senão vejamos.

A desigualdade constantemente detectada entre ricos e pobres, brancos e pretos, héteros e homossexuais etc. é um dos principais pilares da visão direitista do mundo. Essa é, para o direitista, uma determinação divina; assim é porque o próprio Deus quis assim, como garantem os economistas neoliberais, os racistas de todos os lugares, não só os norte-americanos, e os homófobos de todas as partes. Como diz a velha piada, somos todos iguais mas uns são mais iguais do que os outros...

O pessimismo é uma velha tecla tocada obstinadamente pela direita. Sempre estamos no caminho errado e caminhamos diretamente para o desastre. Basta ler os jornais ou ligar a TV. O Brasil caminha para o abismo, a inflação sobe desembestada, o PIB despenca, a corrupção aumenta, os serviços públicos se esfarelam, e assim por diante. A catástrofe é iminente.

Com tal visão, a paranoia se alastra de maneira aparentemente irresistível. Como disse Jules Romain, "estar à direita é ter medo do que existe". Assim, alimentado pelos tais pensadores da direita, o medo puro e simples domina a classe média pretensiosa e desnorteada.

O que fazer? Punir os responsáveis. Ao contrário de 1955, só alguns débeis mentais continuam a dizer que a culpa é do comunismo, pois até nos Estados Unidos, ele já foi substituído pelo terrorismo islâmico. Aqui no Brasil, ainda não prendemos e torturamos árabes, as ameaças são outras. Nossa inteligência direitista aponta diretamente para Lula, o PT, Dilma, o governo trabalhista a os chamados "mensaleiros" que são os seus atuais demônios. A obsessão contra Lula, diariamente xingado de todos os nomes, é particularmente típica. Se Lula não existisse, a direita certamente o inventaria.

A essas características da direita, detectadas por Simone de Beauvoir, e confirmadas pelo atual panorama político brasileiro – desigualdade, pessimismo e paranoia –, eu gostaria de acrescentar mais uma que é o controle da produção cultural através dos mecanismos estabelecidos. Minha experiência no campo da produção cultural no Brasil é ampla e atravessa décadas, daria para escrever um livro sobre isso. Mas quero oferecer apenas, para encerrar estas reflexões, um exemplo bem recente. Eu ainda não tinha tomado conhecimento do Fora do Eixo e da Mídia Ninja quando assisti ao programa Roda Viva, da TV Cultura, que entrevistou Pablo Capilé e Bruno Torturra. Para mim, foi uma revelação alentadora e, ouso dizer, entusiasmante. Os dois jovens apresentavam a proposta de uma produção cultural totalmente nova em seus supostos e objetivos, uma verdadeira vanguarda cuja necessidade eu e muitos dos meus companheiros de geração vínhamos sentindo há muitas décadas.

Diante de um grupo de entrevistadores nitidamente hostis às ideias e atividades dos dois jovens, eles mostraram o sentido do trabalho que vem realizando com serenidade e segurança, sem se perturbarem um momento sequer pelas provocações dos dissimulados mas inegáveis adversários, através de exposições claras, bem articuladas e, acima de tudo, de uma honestidade evidente. O objetivo dos entrevistadores não era realmente colocar em questão os objetivos e os métodos de trabalho dos entrevistados mas simplesmente o de comprometê-los com uma suposta má fé na utilização de verbas, dentro do viés moralista vigente que se deve, na verdade, ao pessimismo catastrófico sistemático que, por sua vez, como vimos, caracteriza a direita em geral e a brasileira em particular.

Os ataques reacionários ao Fora do Eixo e à Mídia Ninja têm se multiplicado recentemente, manifestando assim mais um esforço retrógrado para demonizar uma ação que se distingue pela modernidade, pela eficiência e por seus propósitos saudáveis. Os recursos usados para tal tentativa de demolir um esforço cujo valor é inegável, não primam pela inteligência ou mesmo pelo bom senso.

Ao que tudo indica, hoje, ao contrário do que dizia Koestler, são os direitistas que estão sofrendo de "fadiga de sinapse".

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