Frente política é lançada em Porto Alegre com forças apontadas contra o bolsonarismo

O primeiro passo para a construção de uma frente política para derrotar o bolsonarismo foi dado em Porto Alegre. O teatro Dante Barone da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul ficou lotado e a Frente foi lançada com um debate entre lideranças e militantes de partidos da esquerda

(Foto: ALEX GARCIA)

Do Brasil de Fato - O primeiro passo para a construção de uma frente política para derrotar o bolsonarismo nas cidades foi dado, nessa segunda-feira (26), em Porto Alegre. Com o teatro Dante Barone da Assembleia Legislativa do RS lotado, a frente foi lançada com um grande debate que articulou lideranças e militantes de partidos da esquerda, estudantes e trabalhadores, representantes de movimentos sociais, de entidades e de organizações alinhadas com o campo progressista. Organizado pela rede Soberania e pelo Brasil de Fato RS, o encontro foi marcado por manifestações contrárias às inúmeras políticas de destruição do Brasil em curso e pela reflexão sobre as possíveis saídas para uma unificação já nas eleições municipais de 2020.

Durante os discursos, ouviram-se críticas referentes a temas como as políticas ambientais que levaram às recentes queimadas na Amazônia, os cortes de orçamento e os constantes ataques à educação e as reformas que têm eliminado os direitos duramente conquistados pelos trabalhadores. De comum acordo, a necessidade de seguir articulando os partidos e forças sociais pela democracia, pela soberania e pelos sonhos do povo brasileiro.

Movimentos, entidades e partidos contra o bolsonarismo 

Os destaques da mesa foram a presidenta nacional do PT e deputada federal, Gleisi Hoffmann, e a ex-candidata a vice-presidente da República, Manuela D’Ávila (PCdoB), que encerraram as falas. Antes, se manifestaram a dirigente sindical e militante do PSOL, Neiva Lazarotto; o presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Francisco Milanez; a recém-eleita presidenta da União Estadual de Estudantes (UEE), Gerusa Pena; o militante do Partido da Causa Operária (PCO), Paulo Silva; e os ex-prefeitos de Porto Alegre Tarso Genro e Raul Pont.

O sonho ainda é possível

Manuela: "É possível que a nossa cidade volte a cantar esperança"

Uma das presenças mais aguardadas, Manuela D’Ávila fez a fala final do debate. A ex-deputada disse que, apesar do clima de desesperança com tudo o que tem acontecido na política brasileira, o sonho ainda é possível. Ela exemplificou com as reinvenções que surgiram em Porto Alegre, em outros momentos de crise econômica e social: “É possível que a nossa cidade volte a cantar esperança. Precisamos pensar em reconstruir isso. Como podemos cantar a esperança em 2020 do jeito que conseguimos lá atrás, com a escola de tempo integral do Brizola, em 89 com as creches comunitárias, ou com as obras viárias, com o asfaltamento nas comunidades. Se conseguimos isso também em um momento em que nos diziam que nada era possível, nós podemos construir uma alternativa de resistência ao que o Brasil vive a partir das cidades. E eu não tenho a menor dúvida de que nós só faremos isso se conseguirmos olhar muito além de nós mesmos”.

Gleisi Hoffmann foi categórica ao afirmar que o povo brasileiro não merece esse governo. “O Bolsonaro tem um projeto de destruição do país, de tudo aquilo que nós construímos nesse período de democracia que nós vivemos pós-Constituição de 88, onde nós constitucionalizamos direitos básicos da população brasileira, onde nós conseguimos levar para nossa Constituição a defesa da nossa soberania, do nosso meio ambiente, da proteção social”, afirmou a deputada, exaltando o esforço na construção da frente na capital gaúcha. “Por isso a importância de nós estarmos aqui, partidos que são diferentes, que têm criação histórica e formação diferente, mas que são unidos pela defesa do Brasil, da soberania do povo brasileiro e, sobretudo, pela democracia que nós construímos a duras penas nesse país”.

Gleisi: "O Bolsonaro tem um projeto de destruição do país"

A presidenta do PT lembou ainda que, em todos os movimentos de rua, lá estavam os militantes de variados partidos de esquerda. Ela saudou as siglas representadas no debate e também os convidados que preferiram não estar oficialmente no evento, apontando que já existem movimentos de unidade nacionalmente. “Conseguimos constituir um fórum dos partidos de oposição e hoje nós temos uma atuação coesa lá no Congresso Nacional. Nós estamos lá com o PCdoB, que aliás tem se esforçado muito desde o primeiro momento. Lá tem o PSOL, o PDT, o PSB, o PT, até a Rede participou de reuniões nossas. Isso quer dizer que nós não tenhamos divergências? Temos divergência sim, tivemos no processo eleitoral, em matérias pontuais, mas tem algo que nos une, que é a defesa do Brasil”.

Manuela também ressaltou a importância da unidade política, afirmando ter muita esperança no que pode ser construído em conjunto. Mas, para ela, é preciso ir além das pautas políticas que há muito tempo são defendidas pela esquerda: “A nossa unidade é fundamental e necessária para que tenhamos força e capacidade de conversar com as pessoas que não estão juntas conosco ainda. Precisamos conversar com homens e mulheres que pensam diferente da gente e não fazemos isso com palavras de ordem pronta, o pessoal quer saber dos problemas reais e temos que falar desses problemas”.

“É importante que a gente tenha também nos municípios um enfrentamento a essa política de destruição”, disse Gleisi. Para ela, não se pode discutir a realidade das cidades sem discutir a forma de financiamento dos programas e projetos sociais, a participação do governo federal e as políticas públicas para áreas como saúde, educação e transporte.

Frente pode crescer

Neiva: "Estamos aqui para dizer que não podemos ter um minuto de sossego enquanto militantes" 

Ao iniciar sua fala, Neiva Lazarotto estendeu uma bandeira do PSOL na tribuna. Ao lado do PDT e do PSB, o partido não participou oficialmente do encontro. A sindicalista entende que a unidade na luta já acontece nas ruas, mas a construção da frente política, uma necessidade que a conjuntura impõe, pode acontecer em Porto Alegre se não for uma repetição de mais do mesmo. Para a unidade, disse, “nossos companheiros Robaina, Luciana e Fernanda apresentaram cinco pontos que consideramos justos. Um deles veio a público nesta tarde, que é a realização de prévias para as eleições municipais. Temos acordo, achamos que a questão programática é fundamental. Por isso estamos aqui para dizer que não podemos ter um minuto de sossego enquanto militantes de esquerda, enquanto nosso povo não tiver SUS assegurado, transporte digno, direito a escola e universidade públicas, enquanto não tivermos uma periferia digna”.

Todos contra a destruição do país

Gerusa: "A gente precisa construir uma frente ampla"  

A presidenta da UEE, Gerusa Pena, disse que o campo progressista precisa pensar alternativas para fazer a disputa de narrativa com a população e reverter, por exemplo, os ataques à educação pública. “Não tivemos só uma derrota eleitoral no ano passado, mas política e de ideias, ideológica. Ainda tem muitas pessoas que apoiam Bolsonaro. Como vamos fazer para convencer nosso povo a construir uma nova alternativa para o país?”, questionou. Ela ressaltou a unificação das entidades estudantis gaúchas, que aconteceu no congresso da UEE realizado no final de semana anterior. “Teve uma chapa inscrita que reuniu todas as forças políticas do movimento estudantil. A gente precisa construir uma frente ampla e debater aquilo que nos une e não o que nos divide”, disse.

Milanez: "temos que ser generosos com quem caiu nessa ilusão e está disposto a conversar" 

Francisco Milanez começou sua fala lembrando que a Agapan tem 48 anos de vida e que, nem na ditadura militar, o movimento ambientalista e os demais setores enfrentaram tamanha destruição. “A Amazônia é bem simbólica, o desrespeito aos índios é bem simbólico”, apontou. Para ele, os ataques às políticas de defesa do meio ambiente, bem como à reforma agraria e à agroecologia, estão todos interligados. “Não podemos olhar para nossas visões e esquecer o todo, porque esse é um processo muito coerente de destruição”. O ambientalista vê na unidade é uma saída importante: “temos que ser generosos com quem caiu nessa ilusão e está disposto a conversar. A crise é a chance de afinar a visão de desenvolvimento que desejamos para nós todos”

Paulo: "Lula foi preso para que Bolsonaro assumisse a presidência e destruísse o Brasil" 

Paulo Silva, do PCO, traçou uma avaliação: “há trabalhadores sendo demitidos, índios sendo queimados, professores e estudantes sendo intimidados por fascistas, aposentados perdendo sua aposentadoria, uma juventude encarcerada cada vez mais presa”. Para ele, o enfrentamento ao bolsonarismo passa por parar de apanhar e partir para o ataque. “Nós temos força para revidar. Não podemos só ficar esperando as eleições, que acabam sendo manipuladas por eles, como aconteceu no ano passado. Lula foi preso para que Bolsonaro assumisse a presidência e destruísse o Brasil. O único jeito de sair dessa ditadura é liberdade para Lula, nada pode ser mais democrático do que eleições gerais com Lula candidato”, disse.

Tarso: "O Nero latino-americano incendeia a Amazônia" 

O ex-prefeito e também ex-governador Tarso Genro ressaltou o fascismo do governo Bolsonaro, que é contra a vida. “O Nero latino-americano incendeia a Amazônia e isso não é uma questão menor. O fascismo não é só inimigo dos trabalhadores e daqueles que defendem um projeto democrático moderno, avançado. O fascismo é inimigo também da naturalidade, da natureza. O fascismo se relaciona com o mundo da mesma forma que se relaciona com homens e mulheres que querem bloquear seu projeto perverso”. Para ele, a rejeição do povo apresentada nas pesquisas e a repercussão internacional negativa são oportunidades para o campo democrático se unir. “Vamos iniciar, com estas eleições municipais, uma unidade politica superior, que dissolva as fronteiras burocráticas entre os partidos, para integrar as pessoas, os militantes, os que acompanham nossa causa, em busca de um bem superior, que é derrotar o fascismo e o banditismo”.

Raul: "Unidade é o elemento-chave para virar o jogo" 

Outro ex-governante de Porto Alegre presente no evento, Raul Pont entende que a construção da unidade não deve ser somente em momento eleitorais. “Ela é fundamental para que se possa transformar essa vontade, indignação e até raiva dos últimos acontecimentos, que não consegue se expressar no conjunto da sociedade, em função de estar anestesiada pelas mentiras dos meios de comunicação de massa que desinformam as pessoas”, aponta. Pont disse ainda que os partidos que não participaram oficialmente do encontro serão convidados novamente para pensar a construção da frente: “Sabemos que deveriam estar aqui, e por suas razões, os companheiros trabalhistas não estão, nem os do Partido Socialista Brasileiro. Mas sabemos que, entre eles, muitos gostariam de estar”, ressalta, lembrando que a resistência conjunta é o elemento-chave para virar o jogo.

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