Dilma: governo debocha do desespero do povo

"De todas as atitudes de desrespeito do governo com os brasileiros mais vulneráveis e dependentes da ajuda do estado para sobreviver à epidemia, uma das mais perversas é o atraso no pagamento do auxílio emergencial aos trabalhadores", denuncia a ex-presidente Dilma Rousseff

(Foto: 247 | Prefeitura de Caruaru)
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Por Dilma Rousseff, no blog da Dilma - De todas as ações e atitudes de desrespeito do governo com os brasileiros mais vulneráveis e dependentes da ajuda do estado para sobreviver à epidemia, uma das mais perversas é o atraso deliberado no pagamento do auxílio emergencial aos trabalhadores informais e aos que perderam suas fontes de renda, aprovado há mais de 30 dias pelo Congresso.

Para evitar o pagamento imposto por lei, o governo criou uma espécie de labirinto burocrático quase sem saída, que pode resultar na morte de trabalhadores, pela doença ou pela fome. Entre 30 milhões e 50 milhões de brasileiros – a maioria pobres, mulheres e moradores de comunidades carentes – estão sendo maltratados por esta bagunça deliberada por meio da qual Bolsonaro uniu a agonia das filas da morte nos hospitais ao desespero das filas da fome nas agências da Caixa.

Inicialmente, o governo tentou impor um valor irrisório para o auxílio, de apenas R$ 200, só ampliado para R$ 600 e, em caso de mulheres chefes de família, para R$ 1.200, por pressão do PT e de outros partidos de oposição. Mas desde a aprovação o trio Bolsonaro/Paulo Guedes/Ônix Lorenzoni tem manobrado para não cumprir a lei:

– primeiro, passou a exigir CPF válido até de crianças de colo, quando muitas vezes nem seus pais têm este documento atualizado, o que provocou grandes filas nas agências da Receita Federal;

– impôs ao mesmo tempo o preenchimento de um longo cadastro, a ser feito por celular, a milhões de brasileiros que usam telefones pré-pagos com acesso muito lento à internet, e usam estas contas apenas para whatsapp ou para receber ligações de eventuais fregueses de seus serviços;

– em seguida, a Caixa ofereceu um número para informações para o qual as pessoas ligam e raramente são atendidas; e quando o são, são instruídas a voltar ao preenchimento do cadastro;

– finalmente, como o atendimento digital é ineficiente, os desempregados que têm direito ao auxílio são obrigados a ir às agências da Caixa, onde se aglomeram em longas filas por horas a fio e não são recebidos porque, mais uma vez, o banco informa que só fará o pagamento por meio do cadastro digital.

O desespero nas filas e o desabafo dos que estão sendo enganados pelo governo são mostrados pela imprensa que, invariavelmente, conclui suas reportagens com notas da Caixa informando que está “tomando providências”. Não está, não. É mais uma fake News. No dia seguinte, vemos as pessoas novamente nas filas e nas aglomerações, arriscando-se à contaminação pelo Covid-19 e voltando para casa sem o dinheiro a quem têm direito para comprar comida para suas famílias.

Submeter dezenas de milhões de brasileiros a um esforço inútil para obter o que é seu por direito, agravando seu sofrimento num momento de desemprego e ameaça da epidemia, é uma provocação perigosa, um deboche do desespero do povo. É, sobretudo, o perigoso caminho que conduz ao colapso social, e que só interessa àqueles que procuram criar condições para saídas autoritárias.

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