Agualusa: impeachment foi triunfo da estupidez

Escritor angolano José Eduardo Agualusa, que viveu quatro anos no Brasil, acha assustador que país tenha aberto tamanho espaço para o conservadorismo; "Espero que aquilo que se sucedeu sirva para despertar o conjunto da sociedade brasileira, em especial os mais jovens", diz ele

Escritor angolano José Eduardo Agualusa, que viveu quatro anos no Brasil, acha assustador que país tenha aberto tamanho espaço para o conservadorismo; "Espero que aquilo que se sucedeu sirva para despertar o conjunto da sociedade brasileira, em especial os mais jovens", diz ele
Escritor angolano José Eduardo Agualusa, que viveu quatro anos no Brasil, acha assustador que país tenha aberto tamanho espaço para o conservadorismo; "Espero que aquilo que se sucedeu sirva para despertar o conjunto da sociedade brasileira, em especial os mais jovens", diz ele (Foto: Leonardo Attuch)

Por Jamyle Rkian, da revista Brasileiros, via Opera Mundi As confusões da política brasileira têm deixado assustados não só os próprios brasileiros, mas também aqueles que estão acostumados a visitar o país. O escritor angolano José Eduardo Agualusa aporta por aqui ao menos uma vez por ano e acompanha tudo o que acontece por meio de seus amigos. Morou no Brasil por quatro anos, dois em Pernambuco e dois no Rio de Janeiro. Quando voltou para Portugal, onde reside atualmente, levou consigo carinho e preocupação com o país, como se fosse nativo.

Sentado em uma cadeira pouco confortável e sedento por água de coco, Agualusa mostrou-se perplexo com a situação atual do Brasil. A visita a São Paulo foi breve. Apenas cinco horas antes de pegar um voo para o sul, onde participou da terceira edição da Feira Literária Internacional de Maringá. Em maio, assinou um manifesto em Portugal contra o golpe no Brasil, assim como os escritores Valter Hugo Mãe, Pilar del Rio, Gonçalo M. Tavares, entre e outros.

Agualusa acha assustador como o Brasil, que avançou tanto nos governos Lula e Dilma Rousseff, abriu tamanho espaço para o conservadorismo. O discurso do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e o coro que o acompanha é o exemplo mais claro disso. “Bolsonaro não deve ler ficção, porque para ler ficção deve-se ter empatia”, exclamou o luso-angolano-brasileiro, dizendo já ter falado isso para uma amiga.

A notícia do impeachment de Dilma foi recebida por Agualusa com muita revolta. “O triunfo da estupidez e da injustiça nunca deixa de me surpreender”. Mas disse que esperava o contrário, acreditando até o fim que o bom senso e a justiça prevaleceriam. Não foi o que aconteceu. Para ele, uma presidenta inocente foi julgada por uma maioria de criminosos, o que é inaceitável.

Ele acredita que ir para a rua é a melhor forma de a juventude lutar contra isso: “Espero que aquilo que se sucedeu sirva para despertar o conjunto da sociedade brasileira, em especial os mais jovens. E que o Brasil consiga, ao longo dos próximos meses, produzir novas lideranças e novas ideias”. Segundo ele, também é necessário que jovens comecem a se envolver na política de forma mais direta, pois mesmo as lideranças progressistas dos principais partidos são compostas por figurões antigos.

Na opinião do escritor, o Brasil foi sequestrado por um grupo de delinquentes. De acordo com ele, esse grupo tem como objetivo retomar o poder do Judiciário, já que Dilma permitiu que ele trabalhasse de forma independente do poder político. “Esta luta é – tem de ser! – a luta de todos os brasileiros honestos”, concluiu.

Zelador de causas sociais e políticas, Agualusa esteve envolvido na luta contra o abuso do governo angolano no caso que ficou conhecido como “15+2”, quando ativistas – entre eles o rapper Luaty Beirão – foram presos ao se reunirem para ler um livro no ano passado. Eles foram acusados, arbitrariamente, de estarem tramando uma rebelião contra o governo de José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979.

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