Marcos Munrimbau sobre Sérgio Camargo: “somos irmãos, mas temos posições diferentes”

Artista e educador falou à TV 247 sobre carreira, arte, formação familiar, ativismo social e as polêmicas envolvendo o irmão, Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares. “Eu sempre percebi que ele tinha traços de personalidade diferentes dos meus”. Assista

Marcos Munrimbau
Marcos Munrimbau (Foto: Reprodução/Facebook)
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Por Nêggo Tom, para o 247 - Há um antigo ditado popular que diz que quem sai aos seus não degenera. Porém, como em tudo na vida, existem exceções à regra. E numa dessas excepcionalidades do destino, o polêmico Sérgio Camargo, que hoje preside a instituição nacional em homenagem a Zumbi dos Palmares, é um desses frutos que, sem nenhuma explicação, caíram bem longe de sua árvore de origem. O programa “Um Tom de resistência”, apresentado por Ricardo Nêggo Tom na TV 247, recebeu o cantor, compositor, instrumentista e educador Marcos Munrimbau, um dos irmãos de Sérgio. Sobre a sua carreira e suas referências musicais, Marcos diz que “é muito significativo falar sobre esse processo, que vem desde a minha tenra idade. Eu tive o privilégio de ter nascido numa família cuja arte, música, literatura, poesia e o cinema fizeram parte da minha infância. Uma criança que nasce num celeiro de arte como esse, dificilmente iria trilhar um caminho que não fosse o da arte, ou que não estivesse atrelado a ela. A minha casa, a casa do meu pai, era como se fosse um polo cultural. Nós recebíamos ali cineastas, poetas, escritores, teatrólogos, dançarinos, artistas plásticos. Foi um grande laboratório natural, onde o meu canto começou a emergir e o artista Marcos Munrimbau começou a surgir”.

Filho do jornalista, poeta e escritor Oswaldo de Camargo, um dos mais importantes intelectuais negros do Brasil, Marcos falou sobre a importância do pai na formação da sua personalidade. “O que eu mais tenho do meu pai é a persistência. Na medida em que você vai tomando consciência do seu papel e da sua missão nesse planeta, e, principalmente, como negro e você começa a entender os sinais e os códigos culturais que vão chegando, você tem dois caminhos a seguir. Desistir ou persistir. É importante ressaltar que a minha persistência tem muito a ver com os estímulos e com a formação que eu recebi e por ter como referência um pai como Oswaldo de Camargo e uma mãe como dona Florenice, que hoje brilha no céu. Porque não é fácil persistir e permanecer na batalha. Por isso que a palavra ‘oportunidade’ é muito importante. Meu pai teve oportunidade, e eu, consequentemente, tive oportunidades através dos meus pais. Para quem não teve as mesmas oportunidades e a persistência que eu tenho e que meu pai teve a vida inteira, só torna muito difícil. É um contexto desafiador demais, principalmente para a comunidade negra”.

Marcos também falou sobre racismo estrutural e a falta de representatividade negra no meio artístico, especialmente nas telenovelas. Ele considera que “o processo de construção de um país que se coloque no cenário mundial de uma forma democrática, a tal da democracia racial que tanto falam, mas que na prática sabemos que as coisas não são bem assim, tem influência direta nessa representatividade. Quando falamos de novelas, vemos ainda esse processo ocorrendo paulatinamente, o que acaba sendo um grande medidor para percebermos que, em pleno século 21, ainda há muito caminho a percorrer. A ausência de negros em maior número na teledramaturgia brasileira, tem muito a ver com o racismo estrutural. As novelas também estão dentro desse pacote. Ainda assim, elas acabam send o um espaço de fala e imagem que correspondem as nossas experiências históricas de exclusão do povo negro. É a novela reproduzindo o olhar de uma sociedade para o negro, quanto o coloca no quartinho de serviço, na cozinha ou como chover”. 

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Com pensamentos opostos ao de Sérgio Camargo, Marcos fala do irmão com uma certa tristeza. “Somos irmãos, mas temos posições diferentes”, diz ele. Sobre o comportamento do presidente da Fundação Zumbi dos Palmares, que tem causado polêmica ao se posicionar sempre como um inimigo declarado do movimento negro, Marcos disse que “algumas ações que tomamos na vida falam por si. Eu deixo para que a história e a percepção de cada um faça uma análise com relação às atitudes e ao comportamento dele. Certas coisas são públicas e notórias, e, às vezes, acabamos replicando coisas que já estão evidentes. Tudo isto está posto. Eu fico triste, meu pai fica triste. Mas cada um deve ser responsável pelas suas escolhas. Porque o universo é sábio e ele cobra. É fundamental que nós tenhamos consciência do nosso papel é de quem somos. Eu lamento por tudo isto, mas a minha energia tem de estar disponível para a construção de algo diferente dessas situações que não agregam valor”. Sobre a personalidade do irmão desde a infância, Munrimbau disse sempre ter notado algo de diferente em Sérgio. “Eu, particularmente, sempre percebi que ele tinha traços de personalidade diferentes dos meus. O meu traço é de generosidade e de acolhida. Mas ele tem outros traços e eles estão postos à mesa e deixam rastros no caminho.”

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