O ufanismo do Banco Central

Objetivos da autoridade monetária estão distantes da realidade da economia brasileira

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Definitivamente, o Brasil não é mais o mesmo. Mudou de patamar e não é mais o “país do futuro”, mas sim uma realidade do presente. O país já foi graduado ao hall das economias com menores riscos para receber investimentos internacionais, e também realizá-los no exterior, fato que “nunca antes na história deste país” se viu algo parecido. Aliás, com pré-sal, Copa e Olimpíadas, nada é mais importante e imprescindível que receber investimentos externos, afinal, o nível de endividamento que o governo se encontra não permite que sejamos patriota se ignorarmos “os gringos”. Sim, eles foram, são e sempre serão importantes para o crescimento e desenvolvimento do Brasil. Mas não nos enganemos, pois os “ouros” estão aqui e não depois das fronteiras do território nacional.

Dia após dia, página após página, os jornais locais e internacionais evidenciam que o Brasil não é mais apenas o “país do futebol”. Agora, o país além de ser o maior exportador de commodities minerais e agrícolas é também celeiro de geração de energia limpa, tema considerado o grande desafio deste século, bem como exportador de ideias criativas na área de publicidade & mídia.

O governo já precisou aportar recursos no BNDES para dar vazão para essa onda de investimentos que ocorrem no setor produtivo. Porém, infelizmente, o mesmo investimento não é observado nas áreas de infraestrutura, logística e mobilidade urbana, o que eleva o chamado “custo Brasil”.

Todos os dias são veiculadas notícias de investimentos de empresas multinacionais em diversos segmentos de atividade no Brasil, inclusive com transferência de sede e plantas de produção. São montadoras coreanas, japonesas, chinesas e até empresas taiwanesas de alta tecnologia. Até os bancos estrangeiros estão expandindo suas filias por este país afora.

Nessa onda de investimentos, com geração de emprego e renda, o mercado financeiro também tem se desenvolvido com a criação de novos instrumentos de captação de recursos, como FIDCs, CCBs, CCIs, além de lançamentos de IPOs e debêntures, além da forte inclusão bancária que tem alterado não apenas o comportamento do consumo, mas a própria massa de consumidores no país. Por exemplo, hoje não se fala mais na tradicional pirâmide socioeconômica, formada por uma grande base de pessoas de baixa renda para reservar o topo à classe de alta renda. A figura geométrica formada, agora, é o losango. Tal mudança decorre da forte emersão de pessoas que saíram da miséria e migraram rapidamente para classes superiores em função da estabilidade monetária conquistada há mais de uma década e meia.

Seguindo a mesma transformação estrutural da economia, o Banco Central tem alterado sua postura quanto à execução da política monetária, mesclando instrumentos tradicionais (ex: taxa de juros e compulsório) com medidas complementares que visam arrefecer o consumo via crédito, como as “macroprudenciais”, que estão sendo aplicadas em um momento ímpar da economia doméstica e que, portanto, gera incertezas quanto a sua eficiência no objetivo proposto.

Com essa nova roupagem, a autoridade monetária nacional procura não onerar a dinâmica da política econômica, que foca na geração de emprego, e deixa em segundo plano seu ofício primário que é o de proteger o valor da moeda nacional. Ou seja, cabe ao BC não deixar que a taxa de inflação, que atualmente está em processo de alta, altere a figura geométrica de um losango para voltar novamente à pirâmide. Esse seria um retrocesso para a nação, com a (re)imersão de pessoas para as camadas mais baixas de renda.

É desejável que, em 2011, haja moderação no ritmo de crescimento econômico do país, que em 2010 bateu na maior taxa de crescimento dos últimos 24 anos: 7,5% de expansão. Entretanto, é importante destacar que arrefecer o consumo com medidas burocráticas ou arrecadatórias (aumento do IOF) não surtirá o efeito desejado de reverter o processo de alta da taxa de inflação, que ocorre desde o início de 2010, tampouco reverter rapidamente essa trajetória para uma queda efetiva dos preços. Pois, como evidenciado anteriormente, o Brasil tem recebido grandes volumes de investimentos para o setor produtivo em razão de um horizonte em que o nível de renda e emprego continuarão em crescimento.

Dessa forma, para que tais medidas complementares (macroprudenciais) surtam algum efeito no combate à alta da taxa de inflação é necessário que a economia esteja em um estágio que não seja este atual, que é a conjunção de um crescimento dos investimentos, consumo, geração de emprego e renda, além de uma inflação em alta fomentada, em parte, por fatores externos (alta dos preços das commodities). Portanto, as medidas complementares surtirão efeito somente em um segundo momento, que será quando a economia for conduzida por uma sintonia muito fina entre os executores da política monetária e os agentes de mercado. Um ajuste mais vigoroso na política monetária neste atual estágio é indispensável.

Há extrema necessidade de o BC reafirmar o compromisso com a austeridade monetária (leia-se controle da inflação em nível civilizado), bem como ancorar novamente as expectativas futuras de inflação para o objetivo perseguido (4,5%) e consolidar sua autonomia operacional. É sumariamente necessário que sejam utilizados instrumentos mais eficientes, testados e aprovados no passado, como a taxa de juros básica para acomodar o nível de preços da economia e a atividade econômica em um patamar mais adequado às condições reais de capacidade de produção e consumo.

É louvável que haja preocupação em preservar o ritmo de crescimento da economia com geração de emprego e renda, bem como a contínua migração de pessoas de classes de renda mais baixas para classes superiores. Mas não nos enganemos de que o caminho ideal é deixar a taxa de inflação flutuar por um terreno um tanto sombrio, que é muito próximo ao limite superior da meta (6,5%). Pois, além de reduzir constantemente o poder de compra de parcela da população, que não tem como se proteger deste mal chamado inflação, é um prejuízo à própria dinâmica do crescimento sustentado no longo prazo, visto que os investimentos, que aumentam o potencial de crescimento e o ganho de escala, tendem a se reduzir por conta das incertezas monetárias devido ao risco de retorno menor em termos reais, decorrente de uma taxa de inflação maior que o valor inicialmente projetado, como ocorria até meados da década de 1990, quando o longo prazo no Brasil era considerado o horizonte de medíocres 12 meses.

Por fim, muita coisa mudou no Brasil ao longo dos últimos 15 anos, como a maior previsibilidade do nível de preços, adoção da Lei de Responsabilidade Fiscal, avanço no judiciário, redução da vulnerabilidade externa, além de indicadores socioeconômicos. Porém, em nenhuma hipótese, os ufanismos podem fazer parte da pauta de discussão sobre a qual será seguida para a construção de um país melhor: se a via do rápido crescimento com geração de emprego e renda, mas com duração de vida curta pela geração da inflação e frustração de expectativas futuras de investimentos e consumo; ou se pela via mais lenta, porém duradoura, de um crescimento pautado pela estabilidade monetária que permite a constante ampliação dos projetos de investimentos e geração de empregos e renda.

Alex Agostini é economista-chefe da Austin e responsável pela área de rating de entes públicos

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