Países árabes cobram ações concretas do Brasil

Ali Houssein el-Zoghbi, vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), contou que 34 embaixadores de países árabes islâmicos participaram da reunião com Jair Bolsonaro, mas disse que ainda espera ver ações concretas como visitas a países árabes. Bolsonaro, no entanto, não teria citado nenhum país que visitaria durante a reunião

Países árabes cobram ações concretas do Brasil
Países árabes cobram ações concretas do Brasil (Foto: Alan Santos/PR)

Sputinik – Com clima tenso entre Brasil e países árabes após promessas do presidente Jair Bolsonaro sobre Israel, o Planalto realizou uma reunião com empresários e embaixadores árabes em Brasília. Sobre os desdobramentos do encontro, a Sputnik Brasil ouviu dois representantes que participaram da reunião e um especialista em Relações Internacionais.

Apesar das declarações feitas desde a campanha, Bolsonaro não chegou a realizar a mudança de embaixada prometida para Israel, de Tel-Aviv para Jerusalém. Porém, em recente visita ao país, anunciou a criação de um escritório de representação comercial do Brasil em Israel, sem status diplomático.

Uma iniciativa da ministra da Agricultura, Teresa Cristina, e da Confederação Nacional Agropecuária do Brasil (CNA) tentou diminuir a tensão do governo com o mercado árabe — que gira em torno da aproximação com os israelenses — reunindo o presidente brasileiro com dezenas de diplomatas e representantes da comunidade árabe no Brasil em um jantar em Brasília na quarta-feira (10).

Ali Houssein el-Zoghbi, vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), entidade responsável pela certificação da carne halal brasileira, participou da reunião e falou sobre o assunto em entrevista à Sputnik Brasil.

"Esse jantar representou um marco importante porque ele trouxe um aceno inequívoco por parte da ministra da Agricultura e do próprio presidente de que o Brasil considera bastante importante, senão vital para sua economia, esse mercado", afirmou. A carne halal é produzida de acordo com rituais islâmicos e tem um mercado liderado mundialmente pelo Brasil.

El-Zoghbi contou que 34 embaixadores de países árabes islâmicos participaram da reunião e que o mercado que envolve o comércio entre esses países e o Brasil chegou a US$ 16 bilhões na balança comercial em 2018, com mais de um milhão de empregos diretos.

O vice-presidente da Fambras acredita que houve uma mudança de pensamento por parte do Planalto no que tange à política externa, porém ainda espera ver ações concretas como visitas a países árabes. Bolsonaro, no entanto, não teria citado nenhum país que visitaria durante a reunião.

A esperança é de que o atual governo trabalhe para manter a evolução do comércio de carne halal brasileira, que já tem mais de quatro décadas.

Para Ali Houssein el-Zoghbi, o risco de que os mercados árabes suspendam o comércio com o Brasil caso se consolide a mudança de embaixada em Israel existe, apesar de não haver certezas sobre as consequência da mudança diplomática.

Ele explica que diversos países mundo afora poderiam substituir o Brasil neste mercado e acredita que "não vale a pena o risco".

"Qualquer iniciativa, qualquer ruído que possa prejudicar esse mercado importante para o Brasil nós temos que, realmente, afastar. E é isso que nós começamos a construir a partir desse jantar", explica o dirigente da Fambras.

Comunidade árabe deu sinais de que observa o Brasil e aguarda ações concretas

Jorge Mortean, professor de Relações Internacionais e especialista em questões do Oriente Médio, acredita que a reunião foi importante para mostrar "prudência".

"Faço uma análise de que felizmente a diplomacia brasileira demonstrou um certo tipo de prudência, não para menos, porque o setor agropecuário, [é] gigantesco — externo então nem se fala. Nossa penetração de mercado, dos nossos produtos de proteína animal, são gigantescas", afirmou.

Ele ressalta, no entanto, que a iniciativa para a reunião entre a diplomacia árabe e o Planalto não partiu da presidência. Para ele, essa é uma sinalização de que os países estão atentos aos movimentos brasileiros.

"No entanto — lendo pelas entrelinhas — nós podemos ter uma leitura de que os países árabes mandam um recado claro de que sim, eles estão presentes, eles estão atentos à nossa movimentação", apontou o especialista, ressaltando a posição da diplomacia palestina de que "o Brasil deve seguir sua trilha histórica em termos de diplomacia, priorizando pela não interferência em assuntos externos".

Para Mortean, a diplomacia brasileira, após a reunião, sinalizou que não pretende alterar sua política externa com os países árabes. Ele acredita também, que a possibilidade de visitas a países da região deve considerar o Egito e os Emirados Árabes Unidos, devido à influência política e cultural egípcia e ao papel financeiro e logístico dos Emirados Árabes.

O empresário Rubens Hannun, presidente da Câmara de Comércio Árabe brasileira, entidade que reúne 22 países, também participou da reunião em Brasília com o presidente Jair Bolsonaro.

Atualmente, informa o empresário, o Brasil tem um saldo positivo de cerca de US$ 4 bilhões com os países árabes, um mercado que hoje gira US$ 16 bilhões e deve ultrapassar os US$ 20 bilhões nos próximos 3 anos. Além da proteína halal, o Brasil também comercializa açúcar, milho, soja e minério com os países árabes, conta Hannun.
O empresário acredita que a reunião entre o presidente e embaixadores e empresários árabes foi um passo importante para abrir um diálogo que permanecia fechado.

"Conversas foram realizadas e agora o que a gente precisa é continuar com isso [...] e com rapidez aproveitar essas portas abertas e estabelecer uma relação mais ativa", aponta o empresário, que se diz otimista quanto ao futuro das relações brasileiras com o mundo árabe.

Rubens Hannun não identifica nenhuma ação concreta de retaliação dos países árabes com o governo brasileiro diante da atitude do país com Israel. Ele também acredita que a abertura de um escritório comercial no país judeu não trará efeitos negativos para a relação com os árabes.

"Houve um ruído, mas não é uma coisa que abale, acho que tudo isso agora começa a ser resolvido e conversado", disse Hannun, que conclui dizendo que, apesar de não se recordar de menções durante a reunião com Bolsonaro de detalhes sobre visitas a países árabes, concorda que a ida a mercados de relevância como o Egito e os Emirados Árabes pode influenciar as relações externas de forma positiva.

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