Ricardo Antunes: se não lutarmos, todos nós seremos uberizados

Sociólogo afirma que operariado migrou para o setor de serviços e que trabalhador precarizado precisa reinventar socialismo

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Ricardo Antunes (Foto: Unicamp/Divulgação)


Opera Mundi - O sociólogo e professor Ricardo Antunes localizou a expansão do proletariado atual no setor dos serviços, sobretudo no sul do mundo. A argumentação foi em entrevista ao jornalista Breno Altman, no 20 MINUTOS desta segunda-feira (15/08), 

"Dizer que o proletariado acabou é uma tese eurocêntrica”, afirmou o autor do livro recém-lançado Capitalismo Pandêmico (Editora Boitempo), que define o estágio presente do capitalismo brasileiro em função da pandemia do coronavírus, do “pandemônio" bolsonarista e da pandemia da uberização disseminada na sociedade.

Antunes descreve a transformação maiúscula operada no mundo do trabalho, no qual a precarização afeta todos os segmentos, seja o industrial, o agrícola ou o de serviços: “a grande fábrica, como era a de Charlie Chaplin em Tempos Modernos, acabou. A Ford do Brasil tinha 7 mil operários só em São Bernardo e foi embora do Brasil. O complexo da Volkswagen chegou a ter mais de 40 mil operários e hoje tem muito menos que um terço disso. E produz mais, porque é mais robotizada e automatizada.”

Mesmo assim, na avaliação do professor, o conceito de sociedade pós-industrial é equivocado, já que a evolução tecnológica é acompanhada por novos modos de industrialização. Sob esse pano de fundo, o capitalismo financeiro opera a privatização e a transformação dos serviços: 

O professor cita exemplos: "quando quero comprar qualquer porcaria, entro na Amazon e vem um trabalhador entregar aqui. Quem empacota e entrega o que comprei? Google, Facebook, Airbnb e Rappi geram mais-valia”. Ele adverte que a reinvenção do socialismo deverá acontecer a partir das lutas desse proletariado de serviços, o que mais cresce planetariamente. 

"Se não lutarmos, todos nós seremos uberizados: médicos, médicas, enfermeiros, enfermeiras, professores, professoras, jornalistas, advogados, advogadas, trabalhadores domésticos, trabalhadoras domésticas, eletricistas, todos”, afirma, acrescentando que qualquer tipo de trabalho sem direitos significa uma regressão brutal da humanidade. 

Antunes reconhece o momento histórico particularmente adverso, em termos globais. O estágio atual, segundo ele, é de contrarrevolução preventiva do capitalismo, operada por líderes de feições neofascistas como Donald Trump, Jair Bolsonaro e Viktor Orbán.

Para ele, a pandemia da covid-19 amplificou uma crise que já era sistêmica: “de 1973 para cá, o capitalismo entrou na era da destruição. Ele só pode se reproduzir, valorizar e acumular destruindo. É devastação da natureza, do trabalho e do gênero humano, com racismo, feminicídio, xenofobia. Nada disso foi causado pela pandemia, ela desnudou e exasperou essa tragédia. Além de ser expansionista, incontrolável e destrutivo, o capitalismo atual é belicista." O sociólogo coloca os Estados Unidos na vanguarda do processo.

A era tecnológica se desenvolve à base da chamada uberização, que soma superexploração do trabalho e espoliação capitalista. Antunes comenta o fato de que a revolução tecnológica não significa avanço para a maioria esmagadora dos trabalhadores: "ela é controlada pelas grandes corporações globais para dar mais lucro, é tecnologia para enriquecimento. O mundo está caindo pelas tabelas e delinquentes mundiais como Elon Musk e Jeff Bezos estão programando a especulação, a exploração e a privatização do espaço."

Antunes modifica a formulação “socialismo ou barbárie” de Rosa Luxemburgo para chegar à conclusão de sua argumentação: “na barbárie já estamos, agora só temos uma alternativa. Ou é o socialismo, ou é o fim da humanidade."

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