Ato: Políticos se unem contra mineração no Rio Camaquã

Um ato em defesa do Rio Camaquã reuniu cerca deputados, prefeitos, vereadores e cerca de 500 pessoas no Corredor da Lixiguana, próximo a Bagé, contra a instalação de uma mineradora às margens do rio; empresa pretende explorar chumbo, cobre e zinco; temor é que essa atividade econômica cause danos ambientais graves, com repercussões à saúde humana e à atividade econômica tradicional da região, a pecuária

Foto: Caco Argemi/Presidência ALRS
Foto: Caco Argemi/Presidência ALRS (Foto: Voney Malta)

Por Sul 21 - Um ato em defesa do Rio Camaquã reuniu cerca de 500 pessoas neste sábado (08), no local conhecido como Corredor da Lixiguana, próximo a Bagé. Gestores municipais da região Centro-sul do estado, moradores, ativistas ambientais, representantes de sindicatos rurais, além de técnicos e servidores das Universidade de Santa Maria (UFSM) e Universidade Federal do Rio Grande (FURG) participaram da atividade em protesto contra a instalação de uma mineradora às margens do rio. Se concretizado o projeto de exploração de chumbo, cobre e zinco poderá causar danos ambientais graves, com repercussões à saúde humana e à atividade econômica tradicional da região, a pecuária.

 “O que verificamos foi que o nosso Camaquã, diferentemente de muitos outros rios do nosso estado, está preservado. E não podemos permitir que uma atividade comercial de grande porte, totalmente estranha ao perfil econômico local, como estão propondo, venha explorar e alterar esta realidade, ameaçando o meio ambiente e prejudicando todo um segmento econômico e a população local. É uma relação que não pode dar certo, pois somente um lado ganha”, declarou o presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Edegar Pretto (PT).

Além dele, outros três deputados participaram do ato – Luís Augusto Lara (PTB), Regina Becker (Rede) e Luís Fernando Mainardi (PT). Especialistas contrários à instalação da mineração no local, apontam entre as consequências que poderiam ser geradas por ele danos à saúde humana e animal, que estariam em contato direto com a água e ar poluídos, além da ingestão de alimentos contaminados, poluição atmosférica e sonora em virtude das explosões e retirada de cerca de 150 m³ por hora de água do rio para lavagem/separação do minério. Eles apontaram também impacto com na bacia fluvial da região com o assoreamento do rio e a consequente diminuição da sua profundidade, a poluição de águas superficiais (rios e riachos) e subterrâneas (lençol freático) com metais pesados tóxicos.

Em uma representação contra o empreendimento, apresentada no ano passado, foi apontado que a área abrangida por ele está situada na cabeceira do rio, um ponto critico no caso de um acidente com eventual contaminação. O documento lembra o acidente ocorrido em 1981, na mesma região, nas instalações da antiga Companhia Riograndense do Cobre, que deixou vestígios até a cidade de Cristal.

A representação destaca ainda que a área onde a Votorantim pretende instalar uma mineradora possui dois sítios considerados de alta relevância em termos de patrimônio geológico, que figuram na lista “Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil” e fazem parte do patrimônio Geológico Brasileiro.

O deputado Luís Fernando Mainardi a proposta da mineração – que seria realizada por uma companhia canadense em parceria com a brasileira Votorantin – levaria o estado de volta “à época do Brasil Colônia, quando retiravam as nossas riquezas”. “Essa mesma empresa se instalou 30 anos atrás no Peru prometendo que não haveria danos ao ecossistema local. Em 2012, o rio próximo à exploração foi considerado contaminado”, lembrou ele.

A afirmação de Mainardi e a preocupação levantada com a questão dos impactos que metais pesados teriam para a população local não são exagero. A prefeita do município de Cristal, Fábia Richter (PSB), falou como enfermeira. “Antes de ser prefeita sou enfermeira. E sei dos efeitos que o chumbo causa na saúde das pessoas. Ele acumula no tecido nervoso prejudicando e comprometendo as funções cognitivas dos seres humanos”, afirmou.

Com uma campanha que trata da defesa dos biomas brasileiros,  em 2017, a Conferência de Bispos do Brasil (CNBB) também esteve presente no ato e reforçou posição contrária ao empreendimento. Em novembro, diversas entidades já haviam se manifestado sobre os riscos que a mineração proposta para o local apresenta para uma das poucas áreas ainda preservadas do bioma Pampa.

Qual modelo de desenvolvimento?

A polêmica envolvendo o projeto de mineração está ligada também ao debate sobre qual a melhor opção para o desenvolvimento da região. As formações rochosas e a prevalência do chamado “campo sujo”, onde campo e pedras se misturam, fizeram dela a área mais preservada do Bioma Pampa no Rio Grande do Sul. Hoje, no Estado, apenas 3% do Bioma Pampa está em unidades de conservação. As condições do relevo e do solo acabaram impedindo o avanço da agricultura sobre a região, ao contrário do que ocorre em outras regiões do Pampa, que vem sofrendo o avanço de lavouras de soja principalmente. Ao invés dessas lavouras tradicionais, prevaleceu na região uma estratégia de desenvolvimento da pecuária familiar.

A Associação para o Desenvolvimento Sustentável do Alto Camaquã (ADAC), que abrange oito municípios da parte superior da bacia do Rio Camaquã (Lavras do Sul, Encruzilhada do Sul, Canguçu, Bagé, Caçapava do Sul, Pinheiro Machado, Piratini e Santana da Boa Vista), tem promovido a organização social dos pecuaristas familiares da região em torno da Rede Alto Camaquã Essa rede é formada por 24 associações e opera em defesa de uma estratégia de desenvolvimento que tem na valorização dos recursos locais (naturais e culturais) e na promoção de produtos com as marcas da sustentabilidade e da exclusividade a sua principal estratégia.

 

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