Ensino superior transforma comunidades

Concretizada em 2006, a interiorização da educação superior está beneficiando mais de 6 mil estudantes em Alagoas; a Universidade Federal (Ufal) que, até então, estava limitada à Maceió, agora conta com mais 34 cursos distribuídos em seis unidades, de dois novos campi; interiorização permitiu que comunidades carentes tivessem acesso a cursos considerados de elite, como é o caso das engenharias e de medicina; o fato é que a universidade pública passou a atender a um segmento desprivilegiado socialmente

Concretizada em 2006, a interiorização da educação superior está beneficiando mais de 6 mil estudantes em Alagoas; a Universidade Federal (Ufal) que, até então, estava limitada à Maceió, agora conta com mais 34 cursos distribuídos em seis unidades, de dois novos campi; interiorização permitiu que comunidades carentes tivessem acesso a cursos considerados de elite, como é o caso das engenharias e de medicina; o fato é que a universidade pública passou a atender a um segmento desprivilegiado socialmente
Concretizada em 2006, a interiorização da educação superior está beneficiando mais de 6 mil estudantes em Alagoas; a Universidade Federal (Ufal) que, até então, estava limitada à Maceió, agora conta com mais 34 cursos distribuídos em seis unidades, de dois novos campi; interiorização permitiu que comunidades carentes tivessem acesso a cursos considerados de elite, como é o caso das engenharias e de medicina; o fato é que a universidade pública passou a atender a um segmento desprivilegiado socialmente (Foto: Voney Malta)

Eduardo Almeida e Severino Carvalho/gazetaweb.com - O Sertão virou mar. Mar de conhecimento. Mar de esperança. Mar de transformação social. E a responsável pela mudança não foi a água tão desejada pelo povo sofrido da região, mas as salas de aula da universidade, que chegaram até comunidades habituadas a fazer escola no roçado e que não conseguiam escrever a própria história.

Concretizada em 2006, a interiorização da educação superior beneficia atualmente mais de 6 mil estudantes no estado. A Universidade Federal de Alagoas (Ufal), que, até então, estava limitada à Maceió, agora conta com mais 34 cursos, distribuídos em seis unidades, de dois novos campi. Não só o Sertão é beneficiado, mas também o Agreste e a Zona da Mata.

A ideia de levar o ensino a regiões distantes de grandes centros teve início em 2003, com um programa chamado Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). De lá pra cá, muita coisa mudou, mas problemas estruturais e até mesmo curriculares ainda afastam alunos das salas de aula. O balanço feito pela gestão, no entanto, é positivo.

"O Estado brasileiro está resgatando uma dívida histórica com estas populações, tardiamente, mas está resgatando. Gostaríamos que estivesse com um ritmo e com uma qualidade melhor. Mas está resgatando como é possível. O ponto principal é a democratização do ensino superior. O Estado está enfrentando os desafios", diz o vice-reitor da Ufal, José Vieira.

Os cursos oferecidos no interior tentam atender, basicamente, às demandas locais, como a formação de professores e de engenheiros. Mas também são ofertadas vagas nas áreas de Ciências da Saúde e de Exatas. A "menina dos olhos" da expansão é Medicina, primeiro e único curso de graduação na área implantado no interior, com sede em Arapiraca.

"A interiorização permitiu que comunidades carentes tivessem acesso a cursos considerados de elite, como é o caso das engenharias e de medicina. A universidade pública passou a atender a um segmento desprivilegiado socialmente e isso tem um impacto grande para as regiões que são beneficiadas. É inegável que o processo, apesar dos desafios que nos impõe, representa um avanço enorme", explica Sandra Regina Paz, pró-reitora de Graduação da Ufal.

Do roçado na zona rural de Água Branca ao curso de Engenharia Civil

O sorriso no rosto da universitária Maria Rosineide Gonçalves, de 25 anos, deixa claro que a vida dura no campo ficou para trás e que a enxada deu lugar aos livros. Filha de um pedreiro e de uma dona de casa, a estudante cursa Engenharia Civil no Campus Sertão e diz que sonha em ter um trabalho que dê a ela e à família uma vida digna.

"Não penso em ser rica, como muitos. Quero apenas ter a oportunidade de conquistar um trabalho que me permita um futuro diferente, com dignidade, e que eu possa cuidar dos meus pais. Se eu conseguir isso, não estou realizando só o meu sonho, mas o sonho do meu pai, que é ver todos os filhos alfabetizados e empregados", ressalta a estudante.

A caminhada para chegar à universidade foi longa. E não só porque ela precisou percorrer diariamente cerca de quatro quilômetros a pé para chegar à escola onde concluiu o ensino médio ou porque viaja cerca de 40 quilômetros por dia, entre ida e volta, para chegar até o campus universitário em Delmiro Gouveia. 

"Sou de uma família de 14 irmãos e só ingressei na universidade no ano de 2010, porque não tinha condições para estudar em outro local. Terminei o ensino médio em 2007 e tive que aguardar todo esse tempo para poder fazer um curso superior", conta.

Rosineide destaca que, além dela, mais quatro irmãs são estudantes da Universidade Federal. "A chegada da universidade no interior vai garantir um futuro diferente para minha família, porque nos permitirá ter profissões de formação. Nós vamos provar que filho de pobre não nasce apenas para trabalhar com enxada, apesar de ter orgulho dos calos que carrego nas mãos, pois foi através deles que tive força para estudar e mudar o meu futuro".

A universitária lembra que poderia ter um futuro semelhante ao de boa parte dos amigos e vizinhos, na zona rural de Água Branca, caso não tivesse tido a oportunidade. "Nenhum [amigo] cursa nível superior. A maioria não terminou nem o ensino médio. As meninas são donas de casa ou trabalham na agricultura. Já os meninos tentam a vida fora ou trabalham na roça. A única pessoa que conseguiu algo faz um curso de auxiliar de enfermagem".

Alunos são aprovados em seleções de mestrado e doutorado pelo País

Quando Fillipe Manoel dos Santos, de 26 anos, ingressou na universidade, em 2007, ele não sabia que seria conquistado pelo mundo acadêmico. Grauado em Enfermagem pelo Campus Arapiraca, decidiu buscar compreender o processo educacional na área de formação e foi selecionado em um programa de pós-graduação stricto sensu da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

"Primeiro, é importante ressaltar que ter a universidade na cidade em que moro foi fundamental, ou melhor, foi o que possibilitou que eu concluísse a minha graduação. Não teria condições, nem logísticas, nem financeiras, de fazer o curso em outro local. Depois, foi devido às dificuldades e aos avanços que encontrei que eu decidi seguir a carreira acadêmica e analisar a formação de enfermeiros no Brasil", explica.

Apesar de reconhecer a importância da graduação, Fillipe lembra que foram muitos os problemas enfrentados durante a formação. "À época, a assistência estudantil era deficiente. Enfrentamos dificuldades com a falta de laboratórios, de um restaurante universitário e com poucas bolsas de assistência. Mas reconheço que foi o curso de graduação que me deu as 'luvas' para lutar por mais qualificação".

Ele ingressou no mestrado em 2014 e concluiu o programa em 2015. Atualmente ele é professor universitário e foi aprovado em duas etapas da seleção de doutorado.

Mestre em educação fala sobre importância e dificuldades da interiorização:

Aluna da primeira turma de Engenharia Civil do Campus Sertão, a universitária Stephane Andrade, de 23 anos, integra atualmente o programa de mestrado em Recursos Hídridos e Saneamento, que a própria Ufal oferece em Maceió. "Tive que antecipar a minha colação de grau para poder ingressar no mestrado. Esta é uma área na qual eu sempre tive interesse e que, graças às oportunidades criadas pela interiorização, estou conseguindo cursar".

Segundo ela, se não houvesse universidade na região em que mora, ela teria que ter se deslocado para a cidade de Paulo Afonso, na Bahia. "Provavelmente, eu teria feito alguma faculdade lá. Mas não na área que eu gostaria, porque não há instituições que ofereçam esse curso".

Stephane Andrade vive atualmente em Maceió e se mantém com uma bolsa de estudos que recebe do programa de mestrado.

Expansão leva debate acadêmico e supre carências de regiões periféricas

Com a expansão da educação superior, regiões consideradas periféricas de Alagoas foram incluídas no debate acadêmico. Além de eventos como seminários, simpósios e congressos, projetos de pesquisa e extensão passaram a observar a cultura local e estudar as demandas particulares de cada região beneficiada pela interiorização.

"Nós colocamos o Agreste e o Sertão no mapa da discussão acadêmica, levando pesquisadores, resgatando comunidades quilombolas e indígenas. Pesquisas que não eram possíveis nesta região, por conta da distância, hoje são viabilizadas, porque há professores com mestrado, doutorado e pós-doutorado trabalhando nas cidades", ressalta o vice-reitor José Vieira.

Para ele, não é possível elencar um único benefício alcançado após a chegada da universidade no interior. "Não dá para enumerar uma única ação. São inúmeras pequenas ações, que, somadas, produzem um grande efeito. O cotidiano das cidades muda. A universidade é, em qualquer lugar, um farol que potencializa os horizontes de discussão, de debate, de pensar a realidade. E isso nos deixa muito honrados e nos encoraja a enfrentar os desafios que nos chegam diariamente".

No entanto, segundo Vieira, há uma revolução silenciosa acontecendo no interior de Alagoas. "O fato de a universidade está formando professores em regiões onde não existiam profissionais capacitados é um avanço. Hoje há professores de Letras, História, Pedagogia, Geografia e várias outras disciplinas. Isso é importante para um estado que é campeão em índices de analfabetismo. É um trabalho silencioso de qualificação do processo de alfabetização".

E acrescenta: "No caso das engenharias, nós temos hoje profissionais formados na região. As engenharias desenvolvem projetos de baixo custo, mas de grande impacto social, porque eles desenvolvem ações voltadas para a comunidade local. Eles pensam a ciência a partir de uma realidade que durante muito tempo foi esquecida".

Apesar dos avanços, unidades enfrentam problemas

Mas não são só êxitos que o processo de interiorização da universidade federal acumula em Alagoas. Alunos, professores e a própria administração da Ufal admitem problemas que afastam os universitários das salas de aula. No Campus Sertão, por exemplo, a evasão escolar beirou 40% no último ano, um índice considerado elevado.

"Os estudantes enfrentam principalmente dificuldades financeiras, com locomoção, alimentação e aquisição do material necessário para as aulas. Alguns chegam a gastar por dia até R$ 15 só com o transporte, no caso dos que são de municípios ou estados vizinhos. Se nós contássemos com um restaurante e com uma residência universitária, parte do problema seria amenizado", observa a pró-reitora de Graduação, Sandra Regina Paz

Ela diz que a universidade tenta amenizar o problema com a concessão de bolsas de estudo, mas admite que o número ainda é insuficiente. "A Ufal vem ampliando sistematicamente o número de bolsas que são ofertadas aos alunos, mas nós sabemos que há a necessidade de muitas outras. Além disso, estamos buscando ativar um restaurante universitário que foi construído, mas não foi equipado, nem há previsão de recursos para contratação de pessoal". 

Para o vice-reitor da Ufal, é preciso que as cidades se preparem melhor para receber um campus universitário. "Transporte é um elemento que cria grandes dificuldades, porque o Campus Sertão, por exemplo, foi construído afastado da cidade, e nós não temos transporte regular em Delmiro Gouveia. Nem todas as prefeituras oferecem transporte e nós atendemos no interior a estudantes de quatro estados: Alagoas, Sergipe, Bahia e Pernambuco", diz José Vieira.

E acrescenta: "Vivemos o paradoxo de garantir a expansão e a interiorização para as comunidades que vivem fora da capital. Isso é um avanço. Mas temos que avaliar o custo que isso representa. É um desafio que as universidades enfrentam".

Vieira lembra que, além dos problemas estruturais, há problemas de ordem pedagógica. "Os campi do interior precisam ter mais cursos, para ampliar o portfólio. O aluno quer mais opções de cursos. No Campus Sertão, só temos oito opções, e mesmo assim são segregadas a turnos. Às vezes, o estudante tem vontade, mas trabalha e não tem como fazer no horário em que o curso é oferecido. Quando tem tempo, comumente à noite, não há transporte".

Outro problema apontado por ele é a carência de servidores e professores. "A forma como os cursos foram pactuados foi de uma forma reduzida. Temos uma estrutura enxuta, o que dificulta a contratação de novos servidores e professores. Esta é uma dificuldade que temos enfrentado. Nós temos uma carência muito grande de contratação de professores. A estrutura curricular é diferente da estrutura de Maceió".

O vice-reitor finaliza dizendo que existe um projeto de expansão para o Litoral Norte, mas ressalta que é necessário fazer um planejamento para evitar que os erros se repitam. "Não adianta instalar um campus sem as condições mínimas. É preciso corrigir os erros para poder dar oportunidades a quem espera por elas", conclui.

Com gazetaweb.com

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