Jairo Jorge diz que apesar de deixar o PT permanece na esquerda

Prefeito de Canoas, Jairo Jorge, encaminhou nesta quarta-feira (16), à Justiça Eleitoral, seu pedido de desfiliação do PT e comunicou sua decisão ao presidente estadual do PT, Ary Vanazzi, a quem entregou uma carta endereçada à Executiva Estadual e à Executiva Municipal do PT em Canoasa: "Decidi sair do PT, primeiro, porque considero que minha capacidade de interferência no âmbito partidário está esgotada; segundo, por entender que os encaminhamentos que estão sendo dados não levarão a uma efetiva renovação do partido", justificou; apesar disso, ele destaca que "é necessário que a esquerda se fortaleça. Não vou trocar de lado. Vou continuar na esquerda", assegurou 

O vice-presidente da Frente Nacional dos Prefeitos, Jairo Jorge (prefeito de Canoas/RS), participa de audi�ncia p�blica na Comiss�o Especial do Pacto Federativo (Wilson Dias/Ag�ncia Brasil)
O vice-presidente da Frente Nacional dos Prefeitos, Jairo Jorge (prefeito de Canoas/RS), participa de audi�ncia p�blica na Comiss�o Especial do Pacto Federativo (Wilson Dias/Ag�ncia Brasil) (Foto: Paulo Emílio)

Marco Weissheimer, do Sul21 - O prefeito de Canoas, Jairo Jorge, encaminhou nesta quarta-feira (16), à Justiça Eleitoral, seu pedido de desfiliação do Partido dos Trabalhadores (PT). Além de oficializar a decisão junto à Justiça Eleitoral, Jairo Jorge comunicou sua decisão ao presidente estadual do PT, Ary Vanazzi, a quem entregou uma carta endereçada à Executiva Estadual e à Executiva Municipal do PT em Canoas. Nesta carta, faz uma retrospectiva de sua vida partidária, uma reflexão sobre o momento político do país e aponta os dois motivos centrais de sua saída: "Decidi sair do PT, primeiro, porque considero que minha capacidade de interferência no âmbito partidário está esgotada; segundo, por entender que os encaminhamentos que estão sendo dados não levarão a uma efetiva renovação do partido."

Jairo Jorge disse ao Sul21 que tomou a decisão na última semana, após uma rodada de conversas com algumas lideranças políticas. "Conversei, por exemplo, com o governador Tarso Genro, com quem comecei minha vida política, e também com um conjunto de parlamentares". Além das razões elencadas na carta endereçada ao partido, o prefeito de Canoas admitiu que o resultado da eleição municipal também acabou influenciando sua decisão. "Não foi fundamental, mas teve um efeito secundário. Se o resultado da eleição aqui em Canoas e em Santa Maria tivesse sido outro, teríamos a possibilidade de abrir outros caminhos para o partido. Além disso, a decisão mais heterodoxa que tomei para definir uma política de alianças mais ampla sempre teve um considerável nível de tensionamento interno. O resultado da eleição em Canoas aumentou ainda mais esse questionamento", relatou.

A decisão de sair do PT, assinalou ainda o prefeito de Canoas, se confirmou na última quarta-feira, quando o ex-presidente Lula anunciou um acordo para a realização do congresso do partido em 2017. "Foi um acordo híbrido e uma resposta insuficiente para dar conta dos problemas vividos hoje que exigem, na minha opinião, uma radicalização da democracia. Reconheço os esforços do PT do Rio Grande do Sul para mudar o partido, mas, infelizmente, em nível nacional, é uma minoria que quer essas mudanças".

Apesar de estar saindo da legenda, Jairo Jorge disse que, para a esquerda brasileira, é importante que o PT se recupere. "O PT representou a maior inovação na política brasileira das últimas décadas e conduziu uma revolução democrática e social no país. Hoje, nós estamos vivendo um quadro de ascensão da direita e de valores que estavam adormecidos. Neste cenário, é necessário que a esquerda se fortaleça. Não vou trocar de lado. Vou continuar na esquerda", assegurou o prefeito que não confirmou a sua filiação ao PDT nos próximos dias, como chegou a ser noticiado na tarde desta quarta-feira. "Recebi um convite do presidente Carlos Lupi, mas disse a ele que não trataria desse assunto enquanto estivesse filiado ao PT. Agora vou avaliar o futuro. Posso tomar essa decisão até o final deste ano ou deixar para 2018".

Jairo Jorge anunciou ainda que, após sair da Prefeitura da Canoas, pretende voltar a trabalhar como jornalista. "Minha ideia é voltar ao jornalismo. Afinal, política não é profissão, mas sim uma função pública. Acho necessário, após oito anos de trabalho como prefeito, voltar a respirar um pouco a sociedade, ouvindo as pessoas a partir de uma posição diferente. Isso é importante até para voltar a formular politicamente. Creio que será uma mudança muito saudável".

A carta de despedida

Segue a íntegra da carta onde Jairo Jorge anuncia sua decisão:

"Há 40 anos quando comecei a fazer política, o Brasil vivia uma ditadura, hoje temos uma democracia plena e madura. Nos seus 36 anos de história o PT teve uma contribuição decisiva na revolução democrática e social que ocorreu no Brasil. Um partido que nasceu de baixo para cima, colocando os trabalhadores como protagonistas da política.

Filiado desde 1984, disputei sete eleições pelo PT, sendo a primeira em 15 de novembro de 1985, como prefeito de Canoas, há exatos 31 anos quando fui o candidato mais jovem de todo o Brasil. Também concorri a deputado estadual em 1986. Em 1988, elegi-me vereador em Canoas com 3.147 votos, sendo o mais votado da cidade e de todo o interior do Estado pelo partido. Em 1990 e 2006, novamente concorri a deputado estadual.

De 2003 a 2006, tive a oportunidade de ser Secretário Executivo da Secretaria Especial do Conselhão na Presidência da República e de ocupar funções importantes no Ministério da Educação como Chefe de Gabinete, Secretário Executivo Adjunto e Secretário Executivo, onde pude contribuir na construção e execução de projetos estratégicos como Prouni, Prova Brasil, Escola de Fábrica, Projeto Presença e Fundeb.

Em 2008 fui eleito prefeito de Canoas e reeleito em 2012 com a sexta maior votação entre as maiores cidades brasileiras. Tornamos nossa gestão referência em democracia participativa no Rio Grande, no Brasil e no mundo. Uma administração que inovou na saúde, educação, cultura, segurança e nas políticas de inclusão, diversidade e direitos humanos. Uma gestão empreendedora que gerou oportunidades, renda, emprego e fortaleceu a economia solidária. Tenho certeza de que nestes oito anos de administração honrei a história do partido, não estando em nenhum momento na contramão do projeto partidário de desenvolvimento.

Os governos dos Presidentes Lula e Dilma colocaram em prática projetos, programas e iniciativas que transformaram a nação. O Prouni, Fundeb, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos e Bolsa Família, entre tantos outros, ajudaram a reduzir as desigualdades e construir um Brasil mais plural, democrático, heterogêneo e inclusivo. Tive a honra de participar do primeiro governo do Presidente Lula e testemunhar a liderança, coragem e determinação deste grande brasileiro.

Deveríamos receber com humildade o recado das urnas. A população nos reprovou, com derrotas em cidades onde sempre tivemos excelentes resultados. Vivemos tempos de radicalização na cena política, mas o caminho da superação não passa pela simples volta ao passado. Só uma ressignificação da imagem e do ideário da esquerda, somente o reencantamento do povo, com uma política de novo tipo poderá recompor a nossa base social e possibilitar novamente um diálogo com os setores médios da sociedade.

Os erros dos dirigentes do PT deveriam ter sido alvo de uma profunda autocrítica do partido, fato que não ocorreu, por exemplo, no 5º Congresso realizado em Salvador em junho de 2015. Ao invés de fazer o novo de novo, de construir novos métodos de escolha de seus dirigentes, de elaborar de forma colaborativa um novo programa e de uma nova agenda para a nação, a maioria optou por manter tudo como estava e controlar a máquina partidária, prenúncio da derrota eleitoral e política de 2016.

O partido deveria abrir-se para colher a opinião dos milhões de brasileiros que ainda o projetam como uma alternativa de esquerda. Não é suficiente manter a estrutura partidária restrita apenas às tendências, é preciso criar estruturas horizontais de interação, plataformas de participação para milhões e não para centenas. O PT nasceu para ser um partido de massas e não somente de quadros.

Reconheço os esforços da Direção Estadual para mudar o partido diante da convocação do 6º Congresso. O PT do Rio Grande do Sul tem em Tarso Genro, Olívio Dutra e Raul Pont um patrimônio moral e ético. No entanto, sabemos que as forças que desejam a mudança do partido são hoje minoritárias na direção nacional.

Quero comunicar a direção partidária que estou encaminhando meu pedido de desfiliação à Justiça Eleitoral. Decidi sair do PT por dois motivos: primeiro, porque considero que minha capacidade de interferência no âmbito partidário está esgotada; segundo, por entender que os encaminhamentos que estão sendo dados não levarão a uma efetiva renovação do partido.

Saio agora, depois de concluso o processo eleitoral e no momento que estou findando meu mandato como prefeito reeleito pelo PT. Sair antes poderia trazer prejuízos ainda maiores ao partido nas eleições de 2016 e à luta pela manutenção do mandato da Presidente Dilma Rousseff, eleita democraticamente pela vontade popular de 54 milhões de brasileiros.

Neste momento não estou ingressando em nenhum partido. Mantenho minhas convicções como um militante de esquerda que acredita na justiça social, na democracia, na liberdade e na igualdade de oportunidades.

Tenho certeza que os ideais de democracia e justiça retomarão seu lugar na vontade popular e que as forças, setores, organizações e personalidades que representam esta visão de mundo estarão unidos na mesma trincheira, como já estiveram na luta contra a ditadura, pela anistia, pelas diretas já, pela constituinte e, mais recentemente, contra o golpe na Presidenta Dilma.

Esse é um ato individual e o faço respeitosamente, pois sempre guardarei admiração e gratidão ao partido e a militância petista, generosa e lutadora, que dentre tantas alegrias me elegeu prefeito de Canoas.

Desejo que o PT recupere a capacidade de luta que lhe deu origem e agradeço o apoio e a confiança de todos com quem tive a honra de militar nos últimos 32 anos. Para mim encerra-se um ciclo de participação partidária, mas estaremos do mesmo lado na luta democrática e pela reconstrução da esquerda no Rio Grande e no Brasil".

Jairo Jorge, 16 de novembro de 2016

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