Juliana Brizola defende saída do governo Sartori

Nesta segunda-feira (10), o PDT decide se continua ou deixa a base aliada do governador Sartori; a decisão é importante porque o apoio do partido, com sete deputados estaduais, é essencial para que o governo consiga aprovar PECs como a retirada de obrigatoriedade de plebiscito para privatizações/ a mais favorável ao desembarque é Juliana Brizola, neta de Leonel Brizola; "Espero que o PDT, a partir de então, comece a refletir sobre o que quer, o que acredita para o Estado, para construir a candidatura para 2018"

Nesta segunda-feira (10), o PDT decide se continua ou deixa a base aliada do governador Sartori; a decisão é importante porque o apoio do partido, com sete deputados estaduais, é essencial para que o governo consiga aprovar PECs como a retirada de obrigatoriedade de plebiscito para privatizações/ a mais favorável ao desembarque é Juliana Brizola, neta de Leonel Brizola; "Espero que o PDT, a partir de então, comece a refletir sobre o que quer, o que acredita para o Estado, para construir a candidatura para 2018"
Nesta segunda-feira (10), o PDT decide se continua ou deixa a base aliada do governador Sartori; a decisão é importante porque o apoio do partido, com sete deputados estaduais, é essencial para que o governo consiga aprovar PECs como a retirada de obrigatoriedade de plebiscito para privatizações/ a mais favorável ao desembarque é Juliana Brizola, neta de Leonel Brizola; "Espero que o PDT, a partir de então, comece a refletir sobre o que quer, o que acredita para o Estado, para construir a candidatura para 2018" (Foto: Leonardo Lucena)

Luís Eduardo Gomes, Sul 21 - Nesta segunda-feira (10), o PDT decide se continua ou deixa a base aliada do governador Sartori. A decisão é importante porque o apoio do partido, com sete deputados estaduais, é essencial para que o governo consiga aprovar Propostas de Emenda Constitucional (PECs), que precisam de 33 votos para passar na Assembleia Legislativa, como a retirada de obrigatoriedade de plebiscito para privatizações. Composto por políticos mais alinhados ao governo, como o deputado Gerson Burmann, que até poucas semanas era secretário de Obras, e outros que defendiam a saída há mais tempo, o PDT gaúcho é até certo ponto uma incógnita. Sua bancada na AL é multifacetada e com personalidades distintas. Dentre elas, a mais favorável ao desembarque é Juliana Brizola. Na última-quinta-feira (7), ela recebeu a reportagem do Sul21 para uma entrevista sobre várias questões, começando pela permanência ou não no governo, mas também sobre a candidatura de Ciro Gomes à presidência da República, educação e escolas de tempo integral – uma de suas bandeiras, bem como de seu avô.

A neta do criador do partido, Leonel Brizola, defende que o PDT  já deveria ter se afastado da base aliada no ano passado, uma vez que as políticas adotadas pelo governador Sartori há muito vão de encontro ao significado do trabalhismo. Para Juliana, que votou junto com o governo em questões como o aumento do ICMS, Sartori já não merece mais votos de confiança quando diz que o pacote é necessário para que o Estado possa investir em saúde, segurança e educação.

“Desde o início do governo Sartori, nós somos chamados e nos dizem: ‘Aumentem o ICMS que nós vamos pagar o funcionalismo, vamos ter verba para investir na educação’. Eu me lembro que, inclusive o secretário Vieira da Cunha, quando teve o aumento do ICMS, veio na bancada do PDT. ‘Olha, isso é importante para nós que estamos na pasta da educação. O governador me garantiu que se aprovar o ICMS nós vamos ter dinheiro para a educação e para fazer as escolas de tempo integral’. Pô, como é que vou ficar? Só que eu não acredito mais nesse governo. Esse discurso de que vamos fazer o ajuste fiscal e tal, para botar na pasta, acho muito engraçado que se dê na véspera do ano eleitoral”, diz.

Nos últimos meses, a deputada tem se tornando, inclusive, uma das principais vozes contrárias ao governo na Assembleia. Leva, por exemplo, adesivos contra as privatizações na porta de seu gabinete. Sobre a atuação de seu partido, diz que muita gente, dentre eles alguns de seus colegas de Assembleia, já não carregam mais a verve do trabalhismo e do brizolismo, pontuando que seriam apenas pessoas que “estão no PDT” e  criticando o fato de que parecem não saber o que querem e em qual campo o partido deve estar. Para ela, a resposta certa é ao lado das forças progressistas, contra as reformas do governo Temer e a retirada de direitos trabalhistas. Por outro lado, diz crer que a candidatura de Ciro Gomes, que vem sendo defendida pelo presidente nacional da legenda, Carlos Lupi, tem a capacidade de unir o partido em torno de um objetivo só.

Confira a seguir a íntegra da entrevista.

Sul21 – Deputada, o PDT deve decidir nesta segunda-feira se permanece ou deixa a base aliada do governo Sartori. O que deve acontecer?

Juliana Brizola: Eu acredito que vamos ter uma reunião aonde alguns talvez defendam ainda a permanência no governo, sobretudo em relação ao prazo. Os que defendem a permanência nunca defendem o governo, eles defendem que estão no governo até aqui e que os frutos virão daqui a pouco, e que daí eles ficaram no momento mais difícil. Não vejo ninguém defendendo a privatização da CEEE, da Sulgás, da CRM. Não vejo ninguém defendendo a retirada do plebiscito da Constituição Estadual. Por outro lado, vejo outros, como eu, na defesa da saída imediata. Particularmente, acho que é tarde, a saída, que nós já deveríamos ter saído quando saiu o deputado Vieira da Cunha da Secretaria de Educação [em junho de 2016]. Acho que ali foi o momento que descaracterizou tudo em relação à participação no governo. Logo depois foi enviado esse pacote para cá, aí nos afastou completamente deste governo.

E ainda a possibilidade de ter uma candidatura própria, já que estamos no ano anterior ao da eleição. Como assim vamos ter candidato próprio e vamos ficar no governo até os 45 do segundo tempo e aí vamos sair e dizer que não concordamos com tudo que foi feito e por isso estamos lançando outro candidato? Me parece nada coerente. Estou muito esperançosa que a gente defina pela saída imediata. Até acho que a vinda do deputado Gerson Burmann para a Assembleia mostrou que mais ou menos será esse o caminho, e espero que o PDT, a partir de então, comece a refletir sobre o que quer, o que acredita para o Estado, para construir a candidatura para 2018.

Sul21 – A saída do governo inclui o secretário de Educação, Luis Antônio Alcoba de Freitas, ou hoje ele já é mais um quadro do governo do que ligado ao partido?

Juliana: Ele não é filiado ao partido. Nunca foi e nem pode, porque tem uma função pública.

Sul21 – Ele era ligado ao Vieira, não?

Juliana: Sim. Eu, particularmente, nunca nem tinha visto na minha vida. Quando o Vieira entrou, levou ele como adjunto, o que é natural, pessoa de confiança dele. Porém, hoje, eu não considero que a pasta da Educação seja do PDT, não só pelas pessoas, como pela política que está sendo implementada lá. O enturmamento, fechamento de escolas, parcelamento de salários dos professores, tudo isso não pode estar nunca dentro de uma política que o PDT participe.

Sul21 – Recentemente, o governador lançou uma verdadeira ofensiva pela aprovação do ajuste fiscal. Anunciou que vai chamar um concurso para policiais, desde que o pacote seja aprovado na Assembleia. Como isso foi recebido dentro da Casa e do partido?

Juliana: Eu conversei com alguns deputados no dia daquela declaração. Muitos estão indignados, principalmente os de oposição, por certo. Conversei com o deputado Enio Bacci, do PDT. Chamou de chantagem e tudo mais. Eu considero um desespero do governador. Porque ele quer colocar, em primeiro lugar, para a população que, se por acaso o pacote que ele entende ser bom para o Estado não vir a passar, isso vai significar que não teremos policiais nas ruas. Ou seja, a culpa da violência estar batendo na minha casa, na tua casa, na de todo mundo, vai ser dos deputados que não querem contratar, sendo que isso é uma obrigação dele. Isso é competência do Executivo, não do Legislativo. Então, é muito fácil falar isso. Eu encaro como um despreparo do governador. Uma falta, inclusive, de assessoria de comunicação, porque ele poderia ter usado outras palavras, dito outras coisas, mas isso não. Cada hora ele diz uma coisa, na verdade.

No fundo, nós que integrantes da base aliada do governo Sartori fomos chamados no início do governo para que eles nos explicassem, ali no Palácio Piratini, porque queriam aumentar o ICMS. Para nós foi dito: ‘Vamos aumentar o ICMS porque não tem jeito, senão não vai ter condições de pagar os servidores’. Eu, particularmente, prefiro pagar servidor. Então, vamos aumentar o ICMS. Eu sei que é duro, é mais tributo. Não é nada bom para um parlamentar aumentar tributo. Mas, pô, como é que nós vamos deixar os nossos servidores com salários parcelados? Bom, votamos e nada. Logo depois vieram as extinções das fundações. Fundações de pesquisa, conhecimento. ‘Ah, fundações, têm um monte de CCs’. Não tem nada disso, tem um monte de concursados. Também, se extingui-se as fundações, estaria resolvido o salários dos servidores. Congelamento de tudo. Aí vai pagar, não pagou. Agora ele vem com esse pacote, que é a continuação das extinções, retirada do plebiscito, retirada de direitos dos trabalhadores, perseguindo sindicatos, dizendo justamente isso: Nós precisamos pagar’. Hoje eu fui num debate [Na Rádio Guaíba, na última quinta-feira, 6] e era isso: ‘É que precisamos pagar, você não quer pagar o salários dos professores, do brigadiano?’ Agora, a última declaração foi: ‘Não vai ajudar a vender a CEEE, não vai ajudar a privatizar? Olha, ela vai falir, ano que vem está falindo’. Eu acho até meio estranho esse governo. Eles querem vender as empresas, mas antes jogam lá no buraco, dizendo que vão falir. Quem é que vai comprar? Eu tenho um carro, quero vender, e te digo: ‘Tenho um carro, só tem um problema, ano que vem o motor já foi’. Me parece meio incoerente, meio esquizofrênico isso.

Isso bateu aqui dentro de uma forma muito feia. Não é função de um governador. Quando tu te candidata para ser governador, sabe que tem ônus e bônus. Vai ter que assumir. Assume a culpa. Diz: ‘A segurança pública é um problema do governador e eu vou resolver’. ‘Ah, então, Juliana, quer dizer que não é culpa tua…’ Não estou dizendo isso. Todos nós queremos construir algo. Agora, não pode ser em cima de uma chantagem. E quem sempre desvaloriza servidor, eu não vejo como vai valorizar. Não vão chamar os concursados em número suficiente. O que adianta tirar brigadiano do interior e colocar aqui? Aí amanhã, lá, estão sofrendo, faltando. Claro, é uma área muito complexa. Tem gente muito boa nesse Estado estudando sobre isso que eu não compreendo como o poder público não se aproxima da academia em relação a isso. O fenômeno da violência não é de Porto Alegre, é um fenômeno que ataca as grandes cidades, e tem formas, inclusive, que deram certo. E não é o combate. O combate é ultrapassado. Vocês viram lá no Rio de Janeiro. Esse secretário [José Maria Beltrame], que até é gaúcho, foi para lá e trabalhou oito anos com o Cabral. Tem vários aqui que amam, acham o máximo.

Sul21 – Até foi cotado para assumir a secretaria de Segurança antes do Schirmer.

Juliana: O que ele fez, gente? Subiu os morros do Rio de Janeiro, colocou uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), que era um prédio, não entrou com uma política pública na favela, só botando a repressão, morrendo todos os dias um, outro. As pessoas falam na guerra da Síria. O Brasil vive uma guerra civil. Jovens, negros, pobres. A segurança é um problema muito complexo, que é óbvio que a gente vai minorar, e a gente entende o clamor da população, com brigadiano na rua, com polícia inteligente, com tudo isso. Agora, é certo que tem que ter algo além disso, a longo prazo, para que a gente possa oferecer para o jovem uma oportunidade que ele não está tendo. O Estado é faltoso para o pobre mais humildade. Não oferece uma escola digna, um começo de trabalho digno. Competir com a criminalidade, com a violência, com o tráfico, é muito difícil. Então, eu acho muito fácil, muito cômodo, o governador ficar sentado ali no Piratini e dizer: ‘Olha, pessoal, se a Assembleia aprovar esses projetos, nós vamos nomear’. Eu acho isso o cúmulo, inclusive deletei isso, porque pra mim não tem o menor valor.

Sul21 – Então, ele já não merece um voto de confiança depois de tantos votos que o próprio PDT deu para ele e, depois de aprovar vários projetos, continuar com a mesma política em relação aos servidores?

Juliana: Nenhum crédito. Eu tenho certeza absoluta que, se ele tivesse dito tudo isso na campanha eleitoral, não tinha sido eleito. Infelizmente, a campanha eleitoral não tratou disso. Tratou dele abraçar o Rio Grande, dele cantar musiquinha. Infelizmente, a gente precisa ainda de mais conhecimento para a nossa população, para que escolha melhor os nossos representantes.

Sul21 – Por que demorou tanto então para o PDT fechar uma certa unidade em relação à saída governo?

Juliana: É, o PDT já não é mais o PDT do Brizola. Faz tempo. Eu acho inclusive que, agora, com essa saída, o PDT vai ter que refletir em qual campo quer atuar. Porque, desde que o Brizola faleceu, nós participamos de todos os governos. Esquerda, centro, direita. Nunca conseguimos, por exemplo, dizer: ‘Mas é que o PDT participa de todos, mas deixou essa marca. Se o PDT entrou no governo, é sinal de que vai ter educação de tempo integral’. Para mim, já valeria, porque o que vale mais é a causa, não o partido. Mas a demora é porque se vem fazendo uma política, que eu acho que começou mais forte com o governo Lula, em relação da tal da governabilidade. ‘Ah, eu sou articulado, então eu me relaciono com todo mundo. Sento com o PP, com o PSDB, com PMDB, PCdoB, PV, PSOL. Vamos trazer todo mundo, fazer um grande governo’. Isso não existe, porque tem concepções de Estado diferentes. Não pode. Uma hora ia dar nisso que deu. E, hoje, o que a gente vive, na minha opinião, é um momento de posição. E o PDT, a não ser que rasgue tudo que escreveu, a posição dele não pode ser de acordo com esse governo aqui do Estado e com esse governo federal que está aí. O campo popular sempre foi o campo do PDT. Todos esses direitos que estão sendo violados sempre foram conquistas tidas como muito caras para o PDT. Por que o PDT demorou? É uma pergunta que eu mesmo faço, venho batendo dentro do partido direto. Meus companheiros viram a cara para mim, inclusive. A gente sabe como é a política. Participação em um governo resume-se a cargos. Não só com o PDT. Falo com o PDT porque é o meu partido, não vou falar dos outros, mas todos são assim. Ocupam espaços, para terem cargos, para fazerem políticas eleitorais.

Sul21 – Tem algo que una todos os deputados estaduais do PDT?

Juliana: Eu quero acreditar que a candidatura do Ciro nos una, porque é um cavalo encilhado que está passando para o PDT com esse desgaste todo que o PT está enfrentando. Antes do PT ser forte como já foi e ainda é, mais forte que o PDT, o PDT era muito forte aqui, sobretudo na Região Metropolitana e em Porto Alegre. Tínhamos prefeitos, vereadores. Éramos um partido grande. Aí veio o PT e nos tomou o campo social, por competência do PT e incompetência do PDT. Hoje, esse campo está aberto de novo porque há muitas desilusões com o Partido dos Trabalhadores e enxergo que o PDT poderia ocupar. Mas, para isso, tem que ter uma estratégia, para isso tem que ter uma posição definida, um campo definido. Não pode achar ‘eu defendo o trabalhador, mas vou dar uma força para o Sartori e votar aqui a flexibilização da data do 13º’. As pessoas têm que perceber que as máscaras estão caindo. Não pode ter uma posição no plenário, votar de um jeito, lá fora ter outro discurso e fazer aliança com ciclano e beltrano. Desde que o meu avô morreu, o PDT perdeu o projeto de coletividade. Qual era o projeto coletivo do PDT quando o Brizola era vivo? Fazer o Brizola presidente. Isso unificava todo mundo. A gente podia ter muitas guerras, mas chegava o Brizola e todo mundo queria fazer ele presidente. Isso se foi com a morte dele. Tiveram muitos projetos individuais, não mais coletivos. O Ciro resgata um pouco isso.

Sul21 – Mas por que o Ciro, que já foi de vários partidos, do PSDB, ministro do Lula, e agora reapareceu criticando o governo Temer?

Juliana: Em primeiro lugar, porque foi ele que se apresentou. Ele que procurou o PDT, disse que queria. Ele sempre foi uma pessoa muito próxima do meu avô, que já o apoiou [nas eleições presidenciais de 2002] e, inclusive, sempre quis trazer o Ciro para o PDT. Ele é quem está se dispondo a ser o nosso candidato à presidência da República. Hoje eu não vejo nenhum outro candidato dentro do partido, com todo respeito que tenho a todo mundo. O Ciro é um cidadão do Brasil, reconhecido. Os outros transitam cada um na sua região. Ele transcende, vem do Ceará, passa por São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, então, é um cara do Brasil. Um político que teve diversas experiências, como ministro da Fazenda, prefeito, governador, e tem algo, na minha opinião, que o meu avô tinha também e eu acho muito importante hoje, que é coragem. Coragem para dizer o que tem que ser dito. Às vezes tu pode ser até mal compreendido, mas mesmo assim é importante que tu diga. As pessoas dizem: ‘Ah, mas o Ciro é pavio curto’. Mas olha tudo que está acontecendo nesse país, a gente vai falar calmamente: ‘Ah, estão tirando o direitos dos servidores, ai (suspira) vão privatizar, ai (suspira de novo) o pré-sal não existe mais’? Não, tem que ter uma indignação e tem que ser verdadeira. Eu identifico isso no Ciro, acho que ele reúne hoje as qualidades, não só por conta do PDT, por conta de Brasil mesmo, para ser um ótimo presidente, com coragem, desprendimento, para fazer algumas coisas que eu acho que poderiam ter sido feitas no governo do PT, primeiro no governo Lula e depois no da Dilma, não foram feitas e hoje a gente paga um preço por isso.

Sul21 – O PDT tem algo do brizolismo ainda? Como tu enxerga o trabalhismo atual?

Juliana: O PDT tem as lideranças, os deputados, os prefeitos, os vereadores, mas tem a massa pedetista. O PDT é um dos partidos que mais filiados tem. O que há ainda é um partido que foi forjado de uma forma. Eu sempre comparo com o PT, porque somos do mesmo campo, não tenho como comparar com o PSDB. O PT é um partido de quadros, sempre foi. O PDT nunca foi um partido de quadros, sempre foi um partido de massa. A gente brinca, mas é verdade, que nos comícios do PDT sempre tinha um bêbado. É um partido popular, extremamente popular. Não tem grandes intelectuais no PDT, grandes pensadores, estrategistas. O próprio Brizola não é oriundo disso. O Brizola foi uma criança muito pobre, humilde.

O que tem de brizolista? Acho que tem muita gente brizolista e acho que ainda tem muita liderança que reza a cartilha do Brizola, que se elege querendo fazer a escola de tempo integral, que valoriza o servidor público, que prima pelo pagamento das questões trabalhistas. Tudo isso tem dentro do PDT e os que não têm, esses aos poucos vão se afastando, como já vem acontecendo. A saída do senador Lasier Martins é isso. Não me surpreendeu. Nunca achei que ele tivesse algo em comum com o Partido Democrático Trabalhista.

Sul21 – O que o Leonel Brizola acharia do Lasier Martins no PDT?

Juliana: Eu não tenho a pretensão nunca de dizer o que o meu avô pensaria, porque eu vejo todo mundo querendo dizer isso e não dá, porque o Brizola era um cara surpreendente. Ele sempre diria outras coisas, nunca diria o que a gente esperaria. Porém, acho que ele veria com muita cautela pelo atual momento que a gente vive, porque não é um momento passado, da era Lula, em que estava tudo bem, os direitos estavam garantidos. Não! Hoje tudo que a gente achou que estava conquistado está aí para ser retirado. Então, não tem como ver com bons olhos alguém que vem para o partido e ganha a vaga de senador da República pelo PDT e que acha que sim, que tem que sucatear serviço público, que tem que entregar as coisas para o privado, que só assim vai ter uma boa gestão. O Brizola sempre foi um homem das causas, nunca foi um homem das pessoas. Eu acho que por mais respeito que ele tivesse, e eu sei que ele tinha, pelo comunicador Lasier, meu avô sempre transitou em todos os meios, politicamente falando, era uma hora muito ruim, de muita fragilidade do povo brasileiro, para que a gente tenha nos nossos quadros alguém que não entende o Estado como indutor de políticas públicas para os que mais precisam, defende um Estado menor, ou Estado zero.

Sul21 – A senhora falou de PDT e PT em um mesmo campo ou próximo. Já se fala na possibilidade de uma chapa Ciro-Haddad, especialmente na impossibilidade do ex-presidente Lula concorrer. Como a senhora avalia uma composição com o PT e com o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad?

Juliana: Inclusive faço parte de um grupo no Whatsapp dessa chapa. Eu vejo com muito bons olhos. Não me considero uma grande analista da política nacional, mas vejo com bons olhos. O PDT, o trabalhismo, sempre teve muitas dificuldades de entrar em São Paulo, coisa que o PT não teve por causa do Lula. A gente não pode negar o poder de São Paulo, em todos os sentidos, eleitoral também. Então, acho que seria um estratégia interessante. Agora, eu defendo que a gente consiga demonstrar que é importante São Paulo – acho que o Haddad foi um baita prefeito, com uma visão progressista e moderna -, mas que, talvez, a gente também pensasse numa mulher. Vivemos aí uma era que precisamos definir qual o papel da mulher. Discurso tem um monte, mas na prática… Não sei nem quem, mas sempre pensei isso. Até aqui para o governo do Estado. Gosto muito do Jairo [Jorge], acho um baita quadro, mas quem sabe uma mulher para vice? Nem acho que tem que ser do PDT, porque a gente tem que fazer uma coligação. Mas, vejo com super bons olhos o Haddad e o Ciro, acho que os dois se complementam.

Sul21 – Falando do ex-prefeito de Canoas. Existe uma unidade dentro do PDT em torno do nome do Jairo Jorge?

Juliana: Ainda não. Ele veio há pouco tempo, mas está tentando criar essa unidade, está trabalhando bastante para isso. A gente está fazendo reuniões pelo Estado inteiro e ele tem ido em todas. Tem se colocado super humilde, como alguém que quer entrar na fila. Agora, a gente sabe que ele vem de uma prefeitura super importante, onde ele fez um bom governo. Mesmo não tendo feito sua sucessora, foi por pouco, ele se reelegeu na sua época. Ele transformou Canoas bastante, sobretudo na questão educacional. Vejo que ele é um bom nome para o PDT, mas isso não quer dizer que ele seja o candidato. Por certo que tem outros nomes dentro do PDT. O próprio Fortunati, o próprio Vieira, apesar de ter voltado para o Ministério Público, é um quadro importante. Isso é tudo algo que vai se definindo aos poucos. O Jairo tem vontade e vejo que ele é um obstinado. Isso conta muito, porque tu tem que querer muito para conseguir ser. Essa unidade, vejo que ele tem competência para fazer.

Sul21 – A senhora vem adotando posições mais firmes nos últimos meses. Assumiu a linha de frente contra a extinção das fundações, na defesa das empresas estatais. O que te motivou a assumir essa linha mais à esquerda e fazer esse enfrentamento público?

Juliana: Na verdade, foi uma contrarresposta ao que foi apresentado. Por exemplo, eu me elegi a primeira vez deputada no governo Tarso, que teve vários defeitos, mas não foi para esse lado para o qual está indo o Sartori, que é muito caro para o trabalhismo. ‘Ah, mas tem gente no PDT que apoia’. Sim, mas eu não considero trabalhistas. É gente que está no PDT. Quem acha que pode privatizar uma companhia como a CEEE não é trabalhista. O que me levou foi justamente os projetos que foram apresentados. Quando o PDT entrou no governo Sartori, e não entrou com meu voto, eu inclusive fiquei meio preocupada porque já sabia qual era o modo de governar do PMDB. Logo quando o Sartori convida para a pasta de Educação, tomei mais um susto ainda. Falei: ‘Bah, e agora, como nós vamos fazer, essa é a nossa bandeira, como o PDT vai assumir essa pasta’. Aí convidaram o Vieira, que é alguém extremamente orgânico dentro do PDT. Ele sempre foi do PDT e já foi de tudo dentro do PDT. Eu pensei: ‘Ele não vai aceitar isso sem ter uma garantia do governador de que uma política de qualidade vai ter que ser feita nesse Estado’. ‘Como é que o PDT vai estar ali, justamente com ele, um cara tão ligado ao Brizola, tão ligado ao trabalhismo’. Eu dei um crédito. Vamos ver. Só que não foi o que aconteceu. Dali tudo começou a girar, começou a vir conversas de pacotes. Aí eu tive que me posicionar. Na verdade, foi a necessidade que me fez me posicionar. A necessidade de estar à beira da entrega de todo o nosso patrimônio gaúcho, de todos os direitos conquistados pelo nosso trabalhador durante anos. Conquistas históricas, a entrega de fundações de pesquisa. Tudo isso foi me dando uma indignação, uma indignação. Aliás, eu ando extremamente indignada. Minha tolerância está zero. Eu brinco: ‘Gente, eu estou me tornando uma esquerda radical com o que eles estão fazendo’. Porque não tem como passar por isso sem uma indignação. Hoje, pode parecer: ‘Ai, mas Juliana, o que a CEEE tem a ver com as pessoas?’ As pessoas não entendem.

Sul21 – Qual o caminho que o Estado deverá percorrer agora?

Juliana: Eu compreendo a problemática financeira, a gente sabe que isso é real, tá acontecendo, a gente lastima muito que tenha chegado neste ponto. Mas vejo que a conversa tinha que ser mais séria. A gente tem que colocar na mesa coisas como as isenções fiscais. Quem recebe? Quais são as isenções? Quais as contrapartidas das isenções? Por que essa empresa tem e essa não? A gente precisa ter essa informação. A Sefaz é um governo paralelo. Não temos acesso. E ainda tem os sonegadores, que não são cobrados, sonegam. Isso tinha que vir para mesa para a gente saber. Inclusive, a discussão da Lei Kandir. Eu não vejo que a primeira medida, que já foi adotada, seja a de parcelar salário. Acho que essa tinha que ser a última medida, ou nunca acontecer. Qualquer empresa que vá a falência, a gente sabe que os trabalhadores são os primeiros a receber. É questão de lei. O governo se vale do poder que tem, de Executivo, para parcelar salários. Eu não acho que esse seja o caminho ideal. Eu acho que assim: ‘Vamos falar sério das finanças públicas?’ Vamos então falar sobre as isenções, os motivos das isenções, altos salários que existem não só no judiciário, no Ministério Público, que eles enchem a boca pra falar, mas também na Secretaria da Fazenda. Isso ninguém fala. A questão das isenções fiscais, nenhum Estado sobrevive sem as isenções fiscais, ok… A gente quer trazer as empresas pra cá, para dar emprego e tudo mais, mas isenção fiscal, muitas vezes é dada através da energia. Baixa a taxa de energia, tu não paga a luz, é um tipo de isenção. Se eu não tenho mais isso para dar, eu vou ter que pagar pra empresa vir. É o mesmo pensamento em relação às fundações. Se a FEE não vai fazer mais a pesquisa, quem vai fazer? O governo vai ter que pagar pra fazer. Aí é que está: pro governo não interessa aquilo que é público, mas pra iniciativa privada interessa. Por que será? ‘Ah, porque o privado é mais competente, sabe gestionar …’ Essa é a velha conversa de qual Estado queremos.

Sul21 – Não foi uma certa incoerência a senhora ter se candidatado, em 2016, na chapa de Sebastião Melo, que é do PMDB?

Juliana: É, as pessoas me falam isso. Eu não vejo muito assim. Em primeiro lugar, porque existem vários PMDB’s. Por exemplo, eu considero que o Melo foi traído pelo PMDB aqui do Estado na campanha. Acho que o governo Sartori é mais parecido com o Marchezan do que com a candidatura do Melo. Lá atrás, eu fiz parte da costura dessa aliança da prefeitura quando foi com o Fogaça. O presidente do PDT naquela época era o doutor Matheus Schmidt, e eu inclusive virei secretária da Juventude do governo Fogaça. Ali, a gente alinhavou uma aliança que era PDT, PMDB e PTB, uma aliança trabalhista e se construiu esse caminho até aqui. Eu sempre defendi a candidatura própria, tanto é que quando o Vieira saiu da secretaria, eu chamei ele no meu gabinete e falei: ‘Vamos arrumar uma aliança, o PDT precisa de um candidato próprio nessa eleição’. Eu já estava enxergando o que eu vejo agora cada vez mais claro. Chegou a hora de cada partido mostrar a que veio, de onde veio, para onde vai, o que quer. Só que o PDT definiu, por meio do diretório municipal, que não ia ter candidatura própria. O Vieira não conseguiu as alianças e decidiu, então, que ia indicar a candidatura para vice do Melo e eu nem fui a primeira indicada, foi outro companheiro do PDT, que tinha problemas judiciais. Aí eu, na minha, deputada e tal… o presidente nacional do partido me liga e diz que ele não vai poder se candidatar ‘então queremos que tu vá’. Eu disse: ‘Se for um pedido do PDT, eu vou com certeza’. Eu acho que foi muito bom a gente ter ido e delimitado justamente o nosso território, como nós íamos dar continuidade a um governo, uma aliança, que por certo teve muitos equívocos e vários deles inclusive eu queria tentar corrigir, dar uma cara mais pedetista, mais brizolista…

Agora, é verdade, a partir de agora, eu vejo que isso não tem mais como. A gente viaja pro interior e ouve ‘ah tu viu que o PT tá aliado com o PP?’, ‘ah tu viu que o PDT tá aliado com o PSDB?’. Isso eu acho que tende a acabar. Essa gelatina aí não tem mais como. Eu, pra continuar fazendo política, preciso saber, porque eu não vou fazer política de direita, conservadora, reacionária. Eu também não quero mais ficar dando explicação pelo meu partido. Então, assim, chegou a hora, e não é só pro PDT, acho que muitas alianças que o PT fez, eles devem estar arrependidos, porque não foram salutares. Aparece uma crise, que é mundial, e eles [a direita] vêm com a mesma fórmula. É sempre a mesma fórmula e nós não podemos compactuar. Custou tanto ao campo do PT e do PDT chegar no poder e foi acreditando numa situação. Acho que temos que resgatar isso dentro da política, até pra mostrar que a politica não é tudo isso aí que as pessoas falam, como sendo ‘o câncer’. ‘Acaba com os políticos que vai resolver’. Não é por aí. Acho que precisa mais transparências nas relações políticas, nesses acordos de aliança. Então, assim, eu fui candidata a vice em uma candidatura do PMDB, mas, por incrível que pareça, naquele momento, em Porto Alegre, foi uma candidatura que transitava em um campo mais à esquerda do que quem ganhou, por exemplo.

Sul21 – Como a senhora tem avaliada a gestão do prefeito Nelson Marchezan Jr. (PSDB) até agora?

Juliana: Até avalio superficialmente porque não venho me debruçando muito sobre o que está acontecendo, mais o que leio no jornal. Tenho me debruçado sobretudo na questão desse pacote do Sartori. Mas me chegam muitas questões, o modo dele de governar. Com todo respeito, ele é legitimamente eleito pela população de Porto Alegre, sou uma pessoa que respeita muito voto, agora ouço algumas declarações dele que me preocupam, sobretudo na questão educacional. Militando na educação, aprendi que nada dá certo se tu não constrói com a comunidade escolar. Por exemplo, tempo integral nas escolas. Por mim, todas as escolas eram de tempo integral, mas eu cheguei em várias escolas que não queriam, professores não queriam, pais não queriam, os filhos já faziam outras coisas. Ali não vai dar certo. Em contrapartida, há lugares que todo mundo quer. Ali vai dar, porque tem que ter força de vontade na educação. Nada acontece de imediato, demora, às vezes leva uma geração. Eu acho que ele tem tomado medidas que não são construídas com a comunidade escolar, que não são debatidas. Isso é um prejuízo. A educação, na minha opinião, não pode ser tratada como uma questão de governo. Eu entro, acredito no tempo integral, implemento. Entra um sucessor, não acredita, tira. Aí entra outro, bota, outro tira. A comunidade escolar fica à mercê de bandeiras ideológicas. A educação tinha que ser uma questão de Estado. Inclusive acho complicado quando vejo parlamentar querendo legislar para a educação, porque isso é uma questão que teria que ser debatida mais com os educadores, com gente preparada e que vive a sala de aula diariamente. Por exemplo, eu vi ele declarando que as creches comunitárias deveriam aumentar porque gastam muito menos que as creches 100% públicas. Eu, por exemplo, já pensava o oposto quando era candidata. Minha meta não era acabar com os conveniados, não quero sacanear ninguém, mas acho que o município tem que ofertar creche 100% pública para as crianças. Está na constituição. Já não concordo com isso.

Sul21 – Vivemos um momento de ajuste fiscal de cima para baixo, nos governos federal, estadual e municipal, sempre com o mesmo discurso de que é necessário para se poder investir em saúde, segurança e educação. Como a gente vê a educação ser sempre uma justificativa, mas, ao mesmo tempo, o governo Sartori não ter apresentado nenhum programa, nenhuma política?

Juliana: Eu acho uma balela, se quiser saber. Acho que é um discurso fácil. Se tu ouve de primeira, logo cai. ‘Por que o Estado quer abraçar tudo’. Só que, como eu te disse, desde o início do governo Sartori, nós somos chamados e nos dizem: ‘Aumentem o ICMS que nós vamos pagar o funcionalismo, vamos ter verba para investir na educação’. Eu me lembro que, inclusive o secretário Vieira da Cunha, quando teve o aumento do ICMS, ele veio na bancada do PDT. ‘Olha, isso é importante para nós que estamos na pasta da educação. O governador me garantiu que, se aprovar o ICMS, nós vamos ter dinheiro para a educação e para fazer as escolas de tempo integral’. Pô, como é que vou ficar? Só que eu não acredito mais nesse governo. Esse discurso de que vamos fazer o ajuste fiscal e tal, para botar na pasta, acho muito engraçado que se dê na véspera do ano eleitoral. Por que não apresentou tudo no primeiro dia de governo para já ter dinheiro agora, para pagar professor, para colocar nas escolas que estão sucateadas – não estou nem entrando na questão da saúde e segurança. O que me parece mais óbvio, até não quero acreditar, é que isso tudo não passa de uma fórmula de se fazer caixa para 2018. Se tu pensar, de onde vai vir o dinheiro para fazer campanha milionária em 2018? De onde vai vir o dinheiro? Estado falido, os empresário não vão mais dar dinheiro para políticos, nem os políticos vão querer dinheiro dos empresários. Tá complicada essa relação (risos). Não pode mais fazer doação também. Quem vai fazer doação física para político? De algum lugar tem que vir o dinheiro. Eu acho que eles estão tentando fazer caixa justamente para fazer alguma coisa no último ano, dar uma pincelada, uma maquiada. Agora, educação não é assim que se revolve, eu um ano. Nem em quatro, nem em oito. Esse discurso, para mim, não serve. A mim, não me convence mais.

Sul21 – Além desse discurso, temos também um momento de enfrentamento com os professores. Tem escola sem partido, cerceamento de direito de greve, políticas que não são discutidas de nenhuma forma com a comunidade escolar. Como a senhora enxerga essa questão?

Juliana: Primeiro, eu acho essa escola sem partido uma coisa… Queria que me apresentassem esses doutrinados. Até fiquei pensando que, para a nossa luta, eles estão fazendo falta. Eu não conheço eles. Se eles fossem doutrinados, iam querer fazer a revolução. Não é isso que eles dizem? ‘Os doutrinados são comunistas’. Todos que saem do Ensino Médio, que eu vejo, querem um iPhone7 e tal. Ninguém quer fazer revolução. Não tem doutrinado nenhum dentro das escolas. E, muito mais do que isso, a escola é o melhor ambiente para se debater qualquer assunto, político, ambiental, criminal. A escola é onde rola a informação. Que tipo de escola eles querem transformar? Eu estava vendo um vereador de São Paulo que foi nas escolas. Eu fico pensando, como é que pode, em pleno século XXI, um político estar querendo intimidar um professor, que ganha muito pouco, lida com uma realidade de sala de aula muito dura, com crianças que vêm de lugares totalmente diferentes uma das outras, com necessidades diferentes, com falta de amor, com falta de muita coisa. Aí o vereador, ou seja lá quem for, em vez de se preocupar se a merenda está de qualidade, se a sala de aula está limpa. Pô, não tem mais papel higiênico nas escolas estaduais. A realidade é muito dura. Tem gente sendo eletrocutada dentro das escolas. Chove na sala de aula.

Sul21 – Aqui do lado do Palácio, uma escola dava choque [Escola Paula Soares, vizinha do Piratini, até pouco tempo tinha corrimãos que davam choques].

Juliana: Eles estão preocupados com o grande avanço do comunismo no Brasil. Eles que fiquem tranquilos, nem os comunistas daqui são comunistas. Não se preocupem. Talvez até se a gente tivesse um povo mais esclarecido não estivesse nessa situação. Todo mundo reclama da política, mas todo mundo chegou pelo voto direto. É fácil criticar político. Esses caras lá em Brasília. Mas a gente elege. Também temos que participar, dizer: ‘Olha, eu elegi, meu deputado é fulano’. Nosso povo é muito carente, ainda não entendeu o que é voto, ainda troca o voto, acredita num programa bonitinho de televisão, com uma musiquinha legalzinha. ‘Ah, vamos fazer política com amor, em prol do Rio Grande do Sul’. Mas não é, não tem mais como. Tem jovem, negro e de periferia morrendo todo os dias muito mais do que na Síria. Olha o que está acontecendo com os nossos presídios. Isso aí em qualquer país civilizado já tinha tido uma intervenção, porque não é possível. Aquilo ali é uma máquina de fazer gente que não é gente e que nunca mais vai ser depois que entra lá. É o abandono total, porque a nossa política de segurança virou só de combater, de dar tiro, e no meio disso um monte de inocentes morrendo, porque não se tem uma política inteligente. O sistema prisional é falido, não ressocializa mais ninguém, e lá de dentro eles estão comandando tudo aqui fora. A violência aqui fora é reflexo do que acontece lá dentro. Não adianta isolarem achando que nada mais vai acontecer.

Então, assim, a direita nesse país sempre trabalhou para os interesses internacionais. Não podemos subestimá-los. Não é a toa que está acontecendo tudo que está acontecendo na Petrobras. ‘Ah, mas tava um horror, não dava mais’. Concordo, tinha muita coisa que estava errada, mas tem algo por trás da Petrobras que é muito maior do que isso, que é o nosso petróleo. Ninguém mais fala sobre o pré-sal. Acabou. Está sendo vendido aos pedaços. Eu não sei, se o campo mais à esquerda algum dia recuperar o poder no Brasil, o que nós vamos conseguir ressuscitar, trazer de volta, porque isso compromete 50 anos de um país, no mínimo. E tudo aquilo que melhorou, acesso ao consumo, andar de avião, conseguir vaga em instituição particular, acesso mais democrático ao ensino, tudo isso nós vamos perder. Parece que as pessoas acham que é só mais uma coisa, não é algo que precise se indignar e ir para a rua. Eu acho que só teria uma chance se o povo acordasse.

Sul21 – O que precisaria para acordar?

Juliana: Penso nisso todo dia, o que será que podemos dizer para esse povo acordar? Não sei. Talvez quando tudo isso que eles estão planejando acontecer de verdade. Só que talvez seja tarde, bastante tarde. Agora, a questão aqui que eles querem tirar o plebiscito. Por quê? É sinal que eles não têm garantia de que o povo está com eles. Ficam dizendo que está. ‘Com certeza o povo gaúcho vai aprovar porque eles querem dinheiro para segurança’. Mas por que eles não deixam para o povo? Seria muito melhor para eles, inclusive. Talvez aumentasse um pouco a popularidade desse governo, porque esse governo diz que não tem problema ser impopular, que faz o que precisa ser feito. Mas, se o povo está do lado, porque vai tirar um direito da população, em pleno século XXI, de dizer o que ela quer? ‘Ah, mas depois ele vai fazer’, ‘a gente não quer gastar’. Ah, não tem. São caminhos que a gente vai identificando e são os famosos interesses que vêm de fora. Esse país é muito rico, não só em capital humano, em energia solar, em terra, em água, e isso tem um valor que a gente não vê, mas quem está lá fora fica em cima disso. Não é a toa que aqui já aconteceu tudo que aconteceu, 1964 estava tudo pronto para invadir se os militares não dessem o golpe. Tudo vem de novo de outra forma, revestido de mil coisas, mil facetas preparadas, grandes gestores e banqueiros que deram certo.

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