Livro relata luta e morte de companheira de Zé Dirceu

Obra do jornalista Renato Dias retrata a luta de Maria Augusta, que com uma bomba no colo sequestrou um avião no Aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, desviando-o para Cuba, onde fez treinamento de guerrilha com José Dirceu e Franklin Martins; militante foi morta em Rio Verde (GO) no ano de 1973; o autor do livro é irmão de Marcos Antônio Dias Batista, que desapareceu em 1970, aos 15 anos, a mais jovem vítima da ditadura

Livro relata luta e morte de companheira de Zé Dirceu
Livro relata luta e morte de companheira de Zé Dirceu (Foto: Randes Nunes/Divulgação)
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A Redação_Irmão do desaparecido político mais jovem do Brasil durante o período da ditadura militar, o jornalista Renato Dias lançou na terça-feira (7/8) o livro As Quatro Mortes de Maria Augusta. A obra retrata a luta de uma militante da esquerda durante o período de repressão e que foi morta em Rio Verde ano de 1973. "A história retrata a resistência aos anos de chumbo no Brasil em Goiás", relembra Renato Dias, comentando a história de Maria Augusta, que treinou com José Dirceu em Cuba antes de voltar ao Brasil de maneira clandestina.

Durante o evento, o jornalista comentou a expectativa sobre os resultados da Comissão da Verdade, formada pelo governo federal para elucidar casos de desaparecidos durante a ditadura. "Espero que se recupere o direito à memória e à verdade", ressalta Renato, sobre a morte de seu irmão, Marcos Antônio Dias Batistas, em 1970, com 15 anos.

A história da luta pela elucidação do caso faz parte da família de Renato Dias. A mãe do jornalista, Maria de Campos Baptista, morreu em um acidente de carro em 2006, voltando de audiência com o então ministro da Defesa e vice-presidente José Alencar, em Brasília. "O sonho que minha mãe sempre acalentou foi poder dar um sepultamento cristão ao corpo do meu irmão", admite o jornalista.

Confira entrevista concedida por Renato Dias ao jornal A Redação.

AR - O livro retrata qual história?
Renato Dias - A história de luta armada Movimento de Libertação Popular (Molipo). As Quatro Mortes de Maria Augusta Thomaz retrata os anos de chumbo no Brasil a partir da história de Maria Augusta Thomaz, uma estudante de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Ela trocou de identidade e ingressou na clandestinidade para lutar contra a ditadura civil e militar. Com uma bomba no colo ela sequestrou um avião no Aeroporto de Ezeiza em Buenos Aires, desviando-o para Cuba, onde fez treinamento de guerrilha com José Dirceu e Franklin Martins na ilha dos irmãos Castro.

Depois de um período de militância Maria Augusta abriu dissidência na Ação Libertadora Nacional (ALN), uma organização de esquerda criada por Carlos Marighella, funda o Molipo, volta clandestinamente para o Brasil. Militando chega a ser baleada, se recupera, vem para Goiás para fugir da repressão do eixo Rio-São Paulo e para tentar implementar o projeto original do Molipo, que era uma guerra de guerrilhas a partir da área rural. E Goiás era uma área estratégica. E depois foi assassinada em 17 de maio de 1973, na Fazenda Rio Doce em Rio Verde.

AR - O assassino dela já é conhecido?
Renato Dias - Um dos principais suspeitos de participar a operação que culminou na morte de Maria Augusta e seu companheiro, foi o diretor da Polícia Federal, do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e do Serviço Nacional de Informações em Goiás, Marcos Antônio de Brito Fleury, que morreu em março deste ano. Ele também é suspeito de ter participado da prisão ilegal, tortura, assassinato e desaparecimento do Marcos Antônio Dias Batista, meu irmão assassinado em 1970.

AR - O que te levou a escrever o livro?
Renato Dias - Essa história é espetacular. Um fato interessante. A ossada de Maria Augusta foi encontrada sete anos depois e acabou sendo sequestrada. A história retrata a resistência aos anos de chumbo no Brasil em Goiás. Eu conheci a história da vida dela em 1980. Tinha 12 anos, li nos jornais e acalentei esse sonho. Em 1993 tive acesso a um dossiê reservado dos órgãos de segurança que relatavam a operação. Em 1995 tive acesso a documentos e dez anos depois consegui mais informações e comecei a escrever e a entrevistas dezenas e dezenas de pessoas para reconstruir a história da Maria Augusta. E espero que esse resultado, o livro, possa ressucitar o debate em tempos da Comissão da Verdade.

AR - Sua família está diretamente envolvida com a luta contra a ditadura. Qual é a expectativa sobre a Comissão da Verdade?
Renato Dias - Não espero revanchismo. Espero que se recupere o direito à memória e à verdade. Ou seja, para que a gente possa saber as circustância das prisões, mortes, torturas e desaparecimentos e termine na entrega dos restos mortais dos desaparecidos. E que possam passar a limpo esta história. Só é possível ter perdão se não ocultar a verdade. E a verdade foi ocultada. E acredito que a Comissão da Verdade dará frutos.

AR - Você procurou os integrantes da Comissõa da Verdade para conversar sobre a história do seu irmão?
Renato Dias - Eu falei com o doutor Cláudio Fonteles, um dos integrantes, e o Valter Gonçalves, um dos assessores da Comissão da Verdade. Relatei o caso do meu irmão, o desaparecido político mais jovem do Brasil, e o da Maria Augusta. Mas não quero respostas só sobre os dois. Os 15 casos conhecidos de goianos desaparecidos durante a ditadura precisam ser elucidados.

AR - Como se poderia chegar a essa elucidação?
Renato Dias - Ainda existem documentos que podem elucidar circunstâncias das prisões, torturas, desaparecimentos e onde estariam enterrados os corpos.

AR - Um dos sonhos alimentados por sua mãe, interrompido pelo acidente que tirou a vida dela, era descobrir a verdade sobre o desaparecimento do seu irmão. Qual é o sentimento se tudo for elucidado?
Renato Dias - Acredito que o sonho que minha mãe sempre acalentou foi poder dar um sepultamento cristão ao corpo do meu irmão. A Comissão da Verdade elucidando o crime e apontando o local onde estão os restos mortais, a gente dá prosseguimento à vida e vira uma página nessa história. Toda família de toda sociedade tem direito ao luto. E isto está sendo negado no Brasil pela ditadura militar.
(José Cácio Júnior) 

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