'O povo tem que ver Renan, Sarney e Maluf na oposição'

Presidenciável pelo PSOL, o senador Randolfe Rodrigues (AP), afirmou, em Porto Alegre, que, se vencer as eleições, não fará aliança com políticos como José Sarney (PMDB), Renan Calheiros (PMDB) e Paulo Maluf (PP); "Luciana e eu queremos oferecer a chance ao povo brasileiro de ver, pela primeira vez desde a redemocratização, o PMDB e figuras como Sarney, Renan, Cabral e Maluf na oposição", disse; o parlamentar defendeu, ainda, uma reforma política que elimine o financiamento privado das campanhas eleitorais

Senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) discursa em sessão especial para lembrar os 50 anos do golpe militar de 1964
Senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) discursa em sessão especial para lembrar os 50 anos do golpe militar de 1964 (Foto: Leonardo Lucena)

Samir Oliveira, Sul 21Natural de Garanhuns, no Pernambuco, Randolfe Rodrigues é senador pelo PSOL do Amapá e pré-candidato do partido à presidência da República. Eleito em 2010, o parlamentar é formado em História e em Direito, com Mestrado em Política Pública pela Universidade Estadual do Ceará.

Aos 41 anos, Randolfe iniciou sua vida política em movimentos estudantis e, aos 15 anos, se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT), em 1988. Desde então, atuou como assessor de Juventude do ex-governador do Amapá João Capiberibe e foi deputado estadual por dois mandatos – além de ter sido vice-presidente do PT no estado. Migrou para o PSOL em 2005, tendo concorrido depois a vice-prefeito de Macapá.

O senador esteve em Porto Alegre na última sexta-feira (11) para participar de um seminário programático do PSOL e recebeu a reportagem do Sul21 para falar de sua pré-candidatura à presidência, que terá como vice a ex-deputada federal gaúcha Luciana Genro. Nesta entrevista, Randolfe Rodrigues assegura que, se vencer as eleições, não fará aliança com políticos como José Sarney (PMDB), Renan Calheiros (PMDB) e Paulo Maluf (PP).

Para o parlamentar, o país precisa adotar uma política de redução da taxa de juros, implementar efetivamente a reforma agrária, reformar as instituições policiais e congelar a construção de hidrelétricas. Ele defende, ainda, a necessidade em uma reforma política que elimine o financiamento privado das campanhas eleitorais.

“Queremos abrir um debate sobre o que milhões de brasileiros reclamaram em junho último”

Sul21 – Quais são os principais pontos que o senhor pretende defender na sua pré-candidatura à presidência da República?
Randolfe Rodrigues – Pretendemos trazer um debate que acreditamos que não será apresentado pelas candidaturas que estão postas. As candidaturas postas, ou não querem ouvir o que o povo brasileiro reclamou em junho último, ou querem criminalizar o que povo brasileiro reclamou em junho último, estigmatizando como se fosse “vandalismo”. Queremos abrir um debate sobre o que milhões de brasileiros reclamaram em junho último. Estou em Porto Alegre no quarto seminário de construção do nosso programa de governo. Já vim de Brasília, de São Luís e de Recife. Depois ainda iremos para o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Salvador, Natal, Belém, Macapá e Curitiba, para completar os 12 seminários programáticos que estamos fazendo. Queremos construir um programa de governo que tenha audiência com a sociedade e tenha ressonância com o que temos sentido do pulso da sociedade brasileira concreta e viva.

Sul21 – O que é esse sentimento, na sua interpretação?
Ranfolfe – O que sentimos pulsar em junho último foi uma sociedade que não está conformada com essa reles ascensão social que mantém ainda uma estrutura social de desigualdade no Brasil. Os últimos 25 anos de redemocratização não representaram crescimento econômico com igualdade social. A ditadura e a redemocratização não produziram crescimento econômico com igualdade. O último período da história que teve crescimento econômico com um quê de igualdade foi o período do desenvolvimentismo, anterior ao Golpe de 1964. Os reclames nas ruas do último junho são a expressão social disso, do impacto da ausência de mobilidade urbana no país; da ausência de universalização da Educação Básica, do Ensino Médio e de política para a Educação Superior de qualidade; da ausência de política de saúde pública de qualidade para todos. É uma crise do ponto de vista político, porque existe um descrédito na classe política e nesta governabilidade que foi construída da redemocratização até hoje. Essa governabilidade precisa ser substituída. Queremos dar respostas a essas crises. Luciana e eu queremos oferecer a chance ao povo brasileiro de ver, pela primeira vez desde a redemocratização, o PMDB e figuras como Sarney, Renan, Cabral e Maluf na oposição. Asseguro a você que, das candidaturas colocadas, somente Luciana e eu poderemos oferecer ao país essa chance. Queremos essas figuras na oposição, caso o povo brasileiro nos ofereça a chance de governar o país a partir de janeiro do ano que vem.

Sul21 – Como seria a política econômica de um governo do PSOL na presidência?
Randolfe – Não podemos ter uma política econômica que continua a praticar a maior taxa de juros do planeta. Em 2008 tivemos a última grande crise econômica do capitalismo. Tivemos um fenômeno mundial: de um grupo de 100 economias do planeta, somente oito – dentre elas a do Brasil, Zâmbia, Gana, Zimbábue e Tunísia – aumentaram a sua taxa básica de juros da economia. Outros 60 países, como Estados Unidos e Inglaterra, não tiveram aumento da taxa de juros. E os demais reduziram os juros. O Braisl está na contramão da lógica da economia mundial, é por isso que praticamos a maior taxa de juros do planeta. O que ocorre hoje é que a taxa de juros da economia brasileira é definida somente por um fator: a taxa de inflação. Se for para definir a taxa de juros somente por um fator da economia, não precisamos de um presidente do Banco Central ou de um Conselho de Política Monetária (Copom). Basta colocar um robôzinho lá.

Sul21 – Qual a sua proposta para definição dos juros?
Randolfe - Quero uma autoridade monetária que defina a taxa básica de juros baseada em um conjunto de fatores e vetores da economia: taxa de juros, taxa de crescimento, taxa de emprego e desemprego. Isso sem prescindir do combate ao inflação. Não negligencio o combate à inflação. Mas minha lógica é inversa a deles, que querem combater a inflação com a infelicidade. A lógica deles é aumentar a taxa de juros e reduzir o consumo. Nossa lógica de combate à inflação é reduzir a taxa de juros, termos consumo, mas termos concorrência. Se tivermos mais consumo, temos mais concorrência. Com mais concorrência, teremos redução de preços. É a lógica de qualquer economia capitalista estável no planeta. O que queremos é ter uma autoridade monetária definida soberanamente pelo povo brasileiro através do seu Estado nacional. As outras candidaturas vêm com essa história: ou como é hoje, em que quem define a taxa básica de juros é o mercado; ou dizem que tem que ter autonomia para o Banco Central. Queremos o inverso disso. Quem vai definir a autonomia do Banco Central será o povo brasileiro através do seu presidente da República. Eu não abro mão de definir o presidente do Banco Central e quem compõe o COPOM. Porque vou ser escolhido presidente da República para isso. Aqueles que falam em autonomia do Banco Central ou aqueles que entregam o Banco Central aos interesses do mercado estão renunciando à delegação dada pelo povo nas urnas.

Sul21 – E qual sua política em relação ao pagamento da dívida pública do país?
Randolfe – Tem que no mínimo fazer uma auditoria sobre essas contas. Não estou propondo nada de abissal sobre isso. O Brasil mesmo já fez isso, em 1930, com Getúlio Vargas, que resultou em todos os direitos sociais que temos hoje. Quero saber o tem realmente de juros, o que deve ser pago e o que não deve ser pago. Temos que saber também qual é a dívida dos estados brasileiros. Não é possível o Rio Grande pagar uma dívida cujo valor real já foi questionado 19 vezes. Agora foi renegociado o valor da dívida do Rio Grande por um índice, mas o que vai ser aprovado ainda é muito aquém do justo. O ideal seria que o índice de correção não fosse o que foi aprovado, mas fosse o IPCA, que era o mais correto e proposta de uma emenda nossa. Mesmo com o que foi aprovado, os mercados e as agências de risco estão se opondo. A não aprovação disso compromete quase todos os estados e municípios membros da União nacional. Tem que ter uma auditoria para saber o que se deve à União, o que se deve às agências estrangeiras, o que se deve a bancos e a investidores estrangeiros. Como ocorre hoje, sacrifica a União e o pacto federativo brasileiro. O governador Tarso Genro disse recentemente que do jeito que está é impraticável governar o Rio Grande.

Sul21 – Ao longo dos anos, o Congresso Nacional já se debruçou sobre várias propostas de reforma política, mas nunca foi aprovado nada de impacto neste tema.
Randolfe - Como vai sair uma reforma política, se nenhum dos meus colegas é interessado? A mais importante reforma quem está fazendo agora é o Supremo Tribunal Federal, com a ação da OAB que acaba com o financiamento privado de campanha. Oxalá, espero essa proposta da OAB assim como o vigia espera a aurora. Vamos tentar fazer isso já na nossa campanha. Definimos que financiamento de latifúndio, de mercado financeiro, de bancos e grandes empreiteiras não vamos receber. Outros tipos de financiamentos, de empresas médias e pequenas, vamos receber. E priorizaremos financiamento de pessoas físicas. Torcemos e sonharemos para que a ADPF da OAB funcione já para essa campanha, para melhorar minimamente o sistema político brasileiro. Não tem ilusão: se o povo não melhorar a qualidade do Congresso, o Congresso continuará viciado e não fará reforma política, porque as regras beneficiam a maioria dos colegas que lá estão.

Sul21 – Mas para o povo ter condições de melhorar a qualidade do Congresso não seria preciso um novo sistema político e eleitoral que viabilizasse isso?
Randolfe - Você está me falando do jogo viciado na forma como ele é. O que eu defendo, primeiro, é acabar com o financiamento de campanhas na forma como está hoje. Essa é a mãe de todas as reformas.

Sul21 – O senhor defende financiamento público de campanha?
Randolfe – Pelo menos esse modelo de acabar com o financiamento privado já é um avanço republicano. O que diz o parágrafo único do artigo 1º da Constituição? Diz que todo poder emana do povo e que em seu nome será exercido. “Povo” se refere a cidadão e cidadão, que eu saiba, tem CPF. Cidadão não tem CNPJ. Cidadão se chama Randolfe Rodrigues ou Samir Oliveira, nunca ouvi falar em um cidadão chamado OAS.

Sul21 – E quanto ao sistema de votação?
Randolfe - Acho muito injusto o povo do Rio Grande depositar mais de 100 mil votos em Luciana e ela não ser eleita deputada federal. Esse sistema do cociente eleitoral é muito inadequado. Também não concordo muito com o voto distrital. Não concordo com modelos importados. Temos que fazer uma variação de sistema de voto, com um sistema misto, mas que, na eleição proporcional, minimizasse o poder do cociente eleitoral.

Sul21 – A Constituinte exclusiva é uma saída para que a reforma política saia do papel?
Randolfe – Já tivemos uma Constituinte em 1988. Tenho um pouco de ressalva a uma nova Constituinte. Se o Congresso quiser, faz as mudanças e reformas agora, sem malabarismos. Constituinte exclusiva parece um pouco de pirotecnia. Tem que ter vontade política. Se o governo quisesse, teria maioria para dizer: “vamos fazer agora”. Mas o próprio governo não quer. O governo pegou a tal da governabilidade e botou ela na frente. Não são os partidos que garantem a governabilidade que são donos do governo. É o povo que elegeu o governo que é dono da governabilidade. Ocorre que, em nome da governabilidade, os governos se vendem, fazem mensalões, entregam a Petrobrás e criam ministérios. Aí quando vê estão com 39 ministérios e não podem criar mais, porque 40 ministérios já é uma piada pronta. O que tem que ser feito concretamente é mudar esse modelo de relação com a governabilidade. Temos que substituir essa governabilidade e dizer que não pode ter esse tipo de pacto. O governo tem que dialogar com os agentes partidários, não se sujeitar nem se submeter a eles. Por isso digo que só a nossa candidatura pode oferecer ao país a chance de pela primeira vez ter Sarney, Maluf, Cabral e tantas outras figuras na oposição.



Sul21 – Como o senhor avalia a forma como está sendo realizada a Copa do Mundo Fifa no país e o bordão “Não Vai Ter Copa”, que surgiu das manifestações nas ruas?
Randolfe – Vai ter Copa e eu espero que tenha manifestações junto com ela. Na Copa do Mundo, eu vou torcer pela seleção, não com a camisa dessa entidade corrupta (CBF) dirigida por esse fiapo da ditadura (José Marin), que foi correspondente dos piores momentos do regime autoritário. Vou usar a camisa da CBD (Confederação Brasileira dos Desportos, extinta em 1979), dos melhores tempos da nossa seleção. Vou torcer de casa, não frequentarei os estádios. E espero que tenha manifestação. Para o bem do Brasil, tem que ter manifestação. O povo tem que se manifestar e nosso partido apoiará manifestação porque o signo do PSOL é diretamente proporcional às manifestações. O DNA do nosso partido é ligado a manifestação. O partido que renega seu DNA de manifestações é o outro. Queremos manifestações pacíficas e de contestação ao que está aí. Não é aceitável ter estádios de futebol monumentais para agradar empreiteiras e negócios sem que o povo chegue perto deles.

Sul21 – O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) apresentou um projeto para regulamentar a venda e o consumo de maconha no país. O senhor pretende debater este tema na campanha?
Randolfe - A fórmula de combate às drogas no Brasil fracassou. Ainda ontem eu ouvi a opinião de um neurocirurgião da UNB pedindo para que o senador Cristóvão Buarque (PDT-DF) – relator de um projeto de lei que teve apoio popular lá em Brasília – fizesse uma audiência pública para aprovar o uso terapêutico da maconha. A questão é, primeiro, de saúde pública, e, segundo, de segurança pública. Não é aceitável continuar permitindo que os jovens continuem frequentando as bocas de fumo enquanto podemos ter uma alternativa de combate ao tráfico. Podemos nos inspirar em modelos alternativos que têm dado certo no Colorado, na Califórnia e aqui no vizinho Uruguai. Temos dois modelos: os modelo do Uruguai, da Europa e dos Estados Unidos e o modelo do México, que é de combate e transformou aquele país no paraíso do narcotráfico. Ao invés de termos uma polícia que age com inteligência, temos uma polícia que age com a perspectiva enviesada e burra da repressão e que muitas vezes se torna cúmplice dos agentes do tráfico.

Sul21 – Outro tema defendido por Jean e pelo seu partido é o matrimônio igualitário. Este tema estará na campanha presidencial?
Randolfe - Acho muito idiota em pleno século XXI ainda ter alguém que ache que toda forma de amor é impossível. Vou defender de coração aberto na campanha que toda forma de amor vale a pena. É inaceitável ainda ter mentes que proíbam qualquer forma de amor.

Sul21 – E qual sua posição a respeito do debate em torno da legalização do aborto no país?
Randolfe - Tenho uma formação cristã. Como candidato à presidente e como presidente, se eventualmente o povo assim permitir, não vou colocar minha formação católica como dogma à frente da realidade. A realidade é de milhões de mulheres que são vítimas do aborto como um problema gravíssimo de saúde pública. Esse é um debate que tem que ser inevitavelmente tratado com a sociedade.

Sul21 – Desde as manifestações de 2013, a Polícia Militar tem sido cotidianamente questionada no país. Que tipo de mudança nessas estruturas é possível fazer desde a presidência da República?
Randolfe - Faremos todos os esforços para essa Polícia Militar, na forma em que está, ser extinta. A PEC 51, que tramita no Congresso, é o nosso modelo. Essa polícia que está aí foi fecundada no ventre da ditadura, logo após o Ato Instituicional nº 5. Antes, se chamava Força Pública. Essa polícia foi feita para reprimir e matar e vai ser extinta em um eventual governo nosso. Não terá mais uma polícia hierarquizada, feita para entrar em periferia e matar preto e pobre. Vai ser uma polícia cidadã, valorizada, que tenha direito inclusive a reivindicar salários e respeitado o direito sagrado de greve. Esse tipo de polícia que temos hoje é típico de regimes autoritários e não cabe numa democracia.

Sul21 – Como o senhor avalia a política de reforma agrária do governo Dilma Rousseff? Essa área tem sido bastante criticada por movimentos sociais.
Randolfe - Uma tragédia. Nunca a reforma agrária retrocedeu tanto. É lamentável que um governo que se reivindica de esquerda – de um partido que outrora eu fui e que se propunha a fazer reforma agrária – tenha feito menos assentamentos do que o último governo da ditadura. O último grande programa de reforma agrária que se teve no Brasil foi propagado por João Goulart no comício das reformas de base, em 13 de março de 1964. Uma das nossas propostas é reduzir ministérios. Não teremos mais 39 ministérios. É razoável ter pelo menos 15 ministérios. E um ministério vai se chamar Ministério da Reforma Agrária. Essa vai ser a primeira diretriz do nosso programa. É inaceitável um país que retrocedeu nos últimos 50 anos por não ter feito reforma agrária. A ausência da reforma agrária reivindicada e proposta por João Goulart foi a maior causa das famílias terem ido para as grandes cidades. Continuamos a ter apenas 50% das propriedades de terra nas mãos de 1% dos proprietários. A reforma agrária é uma política econômica para o país, porque vai acabar com a especulação sobre o preço dos alimentos. Um dos primeiros decretos de um governo nosso será o decreto da reforma agrária.

Sul21 – O senhor fala em reduzir ministérios. Não teme que essa proposta seja encarada, por parte da esquerda, como uma medida neoliberal para reduzir a força do Estado?
Randolfe - Nossa proposta não é a mesma do PSDB e das candidaturas neoliberais. O atual governo não aumentou ministérios para aumentar a presença do Estado, mas para agradar fisiologicamente os aliados. Não foi para aumentar e melhorar políticas de governo. Foi para aumentar a base aliada, criar cargo e fazer favor. Isso é uma política patrimonialista, herança colonial portuguesa. Isso tem que acabar, é tão nocivo quanto o neoliberalismo. O patrimonialismo português é irmão gêmeo do neoliberalismo que reduz o Estado, porque se apropria do Estado pela elite, é uma outra forma de privatização do Estado. Quero reduzir ministérios para aumentar o espaço público e aumentar o orçamento para investimentos.

Sul21 – A política energética de um eventual governo seu seguirá dando prioridade à construção de hidrelétricas no país?
Randolfe - Vai ter um congelamento da construção de hidrelétricas, principalmente na minha Amazônia. Nove matrizes eólicas do país estão sem investimentos. Vamos inverter isso: voltar o investimento à matriz eólica e congelar a construção de hidrelétricas. Na Amazônia, essa política só trouxe tristeza, dor e morte às populações tradicionais e para as populações das cidades. Andei em Altamira, no Pará, e sei o que Belo Monte fez e causou. As principais cheias do Rio Madeira, em Rondônia, foram causadas pela construção de hidrelétricas. No meu estado do Amapá, há duas semanas, a construção da hidrelétrica de Santo Antônio resultou na morte de cinco trabalhadores. Tem três hidrelétricas sendo construídas no Amapá. Isso não vai gerar quase nada de energia ao estado e vai exportar energia para os grandes projetos do restante do Brasil. A Amazônia é a maior vítima desses projetos. Temos que ter modelos e matrizes alternativas de geração de energia elétrica.

“O que nós fazemos no Congresso e queremos fazer com nossa candidatura presidencial é reencontrar um PT e uma esquerda que estão perdidos em algum lugar”

Sul21 – O PT costuma dizer que a atuação parlamentar do PSOL no Congresso Nacional acaba redundando em votações contra o governo, junto com PSDB, DEM e PPS. Como o senhor vê essa crítica que diz que o PSOL faz o jogo da direita?
Randolfe – É o grande incômodo do PT pelo fato de terem uma oposição à esquerda. A pergunta que se tem que fazer é: o que estão oferecendo ao país é um governo de esquerda? Governar com o PP de Maluf é ser de esquerda? Então tenho que rever meus conceitos. José Sarney é uma figura de esquerda? Então tenho que rever o que já estudei sobre a ditadura civil militar. As figuras tradicionais dos velhos coronéis do Nordeste, às quais eles se aliam, são de esquerda? Essa política patrimonialista é de esquerda? Esse modelo de desenvolvimentismo para a Amazônia – que em nada perde ao modelo desenvolvimentista contra os índios da época da ditadura – é de esquerda? O que eles dizem que seria uma postura de aliança nossa (com a direita) é nossa postura de combate à corrupção. A crítica que eles fazem é que essa é uma política udenista. Velho erro esse cometido por eles, porque eles fazem a velha UDN parecer um padrão de moralidade. A denúncia da corrupção eu aprendi com o velho PT, como um patrimônio daqueles que são de esquerda. O que nós fazemos no Congresso e queremos fazer com nossa candidatura presidencial é reencontrar um PT e uma esquerda que estão perdidos em algum lugar. Uma esquerda que eu aprendi nos anos 1980 a admirar, me identificar e a amar. Um PT que nos anos 1980 combatia a corrupção com veemência, denunciava os grandes projetos na Amazônia, não fazia aliança com José Sarney e com os velhos oligarcas da política. Esse PT ainda existe e está presente no coração de muitos. É com esse PT que quero me reencontrar. Quem acha que o que nós fazemos é aliança com a direita tem medo que nos reencontremos com aqueles que ainda têm esse PT no fundo dos seus corações.

Sul21 – Como estão as negociações de alianças para a sua candidatura? Com que partidos o senhor está dialogando?
Randolfe – Eu gostaria que tivesse muitos partidos que se identificassem conosco, mas não resta muita coisa. Temos priorizado a conversa com PCB e PSTU. Não tem ninguém que queira essa aliança mais do que eu. Vamos insistir até o último minuto para que essa aliança se concretize.

Sul21 – O senhor foi bastante criticado por correntes do seu partido e pelo PSTU durante as eleições municipais de 2012, quando defendeu as alianças firmadas em Macapá e em Belém. O candidato do PSOL em Macapá (Clécio Luís) concorreu em coligação com PPS, PMN, PV e PTC e, em Belém, numa aliança entre PSOL, PSTU e PCdoB, o candidato do seu partido recebeu o apoio do ex-presidente Lula, com uma mensagem veiculada na televisão.
Randolfe - PV, PPS e PTC são partidos que não têm identidade nacional de direita. São alianças que se justificaram em Macapá, o governo que estamos fazendo lá está melhorando a vida das pessoas. Até o final do ano vamos declarar Macapá como uma das primeiras cidades a ser território livre do analfabetismo. Macapá é a única capital do Brasil que reduziu a tarifa do transporte coletivo no último período. Essas alianças estão dentro do nosso rol programático, não teve nenhuma concessão programática e não tem aliança com partidos velhos, tradicionais e coronelescos da elite de lá. A mesma coisa aconteceu no segundo turno em Belém. O segundo turno é demarcador. Era nós contra a direita. Recebemos o apoio do Lula e do PT. Os setores de esquerda e centro-esquerda se uniram em torno da candidatura do companheiro Edimilson.

Sul21 – Em 2012, o PSOL conquistou suas primeiras prefeituras no país: Macapá (Amapá) e Itaocara (Rio de Janeiro). Como o senhor avalia essas duas experiências de governo do partido? O PSOL agora está, também, na vitrine, exposto a erros e ataques da oposição?
Randolfe - Nós queremos ser vitrine. Aquele partido que não se dispõe a conquistar o poder para melhorar a vida do povo tem que desistir da política. Estamos diante de duas experiências. O Gelsimar (Gonzaga, prefeito de Itaocara) tem tido enormes dificuldades em Itaocara, porque tem uma oposição coronelesca e uma Câmara de Vereadores muito mal acostumada com a corrupção. Gelsimar tem tido uma postura ereta, correta, proba e pública de enfrentamento com isso. E o Clécio já é uma realização por si só: é o primeiro prefeito de Macapá no século XXI que não foi e nem será preso. As realizações seguintes estão ocorrendo concretamente sem apoio do governo federal e recebendo 50% a menos de transferência do governo estadual do que o prefeito anterior. Ele segurou a tarifa do transporte coletivo, não teve reajuste, e está construindo escolas, o que há quatro anos não acontecia. Em Macapá, o PSOL colocou nas escolas mais de 30 mil crianças que estavam fora da sala de aula, condenadas a serem analfabetas. Estamos reativando unidades básicas de saúde que estavam fechadas. Tem enormes dificuldades, mas tem avanços substanciais.

Sul21 – Qual a sua posição no debate em torno da democratização da comunicação no país?
Randolfe - Vamos bancar esse debate e fazer isso sem chantagem. O governo faz isso hoje como instrumento de chantagem. Eles vão e negociam com os grandes meios de comunicação. Quando os meios de comunicação se voltam contra eles, eles colocam na pauta a democratização da mídia e se aliam com os meios alternativos. Só utilizam essa pauta como chantagem. Quando os meios de comunicação pressionam, eles recuam e colocam um ministro de Comunicações identificado com os grandes meios de comunicação. Nós vamos construir o Conselho Nacional de Democratização da Comunicação. Isso é prioridade inegociável do nosso governo.

Sul21 – O seu partido defende o socialismo. É possível implementar esse sistema durante um mandato de quatro anos na presidência da República?
Randolfe - Impossível, nem no Brasil e em nenhum canto do mundo. Mas também estou convencido de que só é possível socialismo com liberdade. Não é possível socialismo com partido único, somente com pluralismo político, pluralismo partidário e respeito às liberdades civis e individuais. Sem isso, não é socialismo.

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