Transplante de órgãos. O fim da incompatibilidade?

A manipulação do sistema imunológico do receptor para facilitar o enxerto, melhora a sobrevivência em longo prazo

Por Aude Rambaud – Le Figaro 

E se a incompatibilidade entre um doador e um receptor de órgão não fosse mais um problema? Se um paciente que não estivesse conseguindo encontrar o bom rim, o bom pulmão ou o bom coração pudesse recebê-lo de qualquer doador, independentemente de seu sistema imunológico e sem risco de rejeição?

A ideia não é nova e a técnica de dessensibilização do receptor já é praticada nos Estados Unidos e na Europa, inclusive na França, mas de modo bastante reservado. Agora, pela primeira vez, um estudo publicado no New England Journal of Medicine mostra que essa estratégia acaba tendo seu preço em larga escala, em pacientes dificilmente transplantáveis: oito anos após um transplante de rim, 76,5 % das pessoas que se beneficiaram com esta dessensibilização ainda estão vivas, contra 63 % daquelas que puderam se beneficiar de um transplante compatível e 44 % daquelas que ainda estão à espera do bom enxerto.

A noção de compatibilidade

Para compreender os desafios, vamos voltar sobre esta noção de compatibilidade. Cada indivíduo carrega uma assinatura molecular em todas as células de seu organismo, como se ela representasse um pouco suas impressões digitais. Essa assinatura, que é chamada de sistema HLA, é o que permite que o nosso sistema imunológico reconheça nossas próprias células em relação às células estranhas a serem eliminadas. Para que um enxerto funcione, o sistema HLA deve ser o mais próximo possível entre um doador e um receptor. De fato, cada pessoa possui anticorpos contra códigos HLA que não são seus e que atacam as células estranhas. Mas, cerca de 15 a 20 % dos pacientes possuem tantos, que eles rejeitam automaticamente todos os enxertos, nas horas ou nos dias após o transplante.

Um protocolo de dessensibilização

Para estes pacientes em específico, os médicos começaram a desenvolver há cerca de vinte anos, um protocolo de dessensibilização, permitindo-lhes aceitar qualquer enxerto. Trata-se de eliminar todos os anticorpos de seu organismo antes do transplante, incluindo os anti-HLA, por filtração do plasma, e em seguida, pela administração de um tratamento para evitar sua recorrência. O paciente também é privado de grande parte de sua própria imunidade, e em troca, ele recebe «bons» anticorpos para protegê-lo das infecções. Uma vez o novo órgão transplantado, o paciente segue um tratamento imuno-supressor que impede que o estoque de anticorpos se reconstitua. E caso seja necessário, uma nova filtração do plasma pode ser efetuada posteriormente.

Mas a técnica é longa e exige um preparo de vários dias, de modo que o órgão esteja disponível em tempo hábil. Para o rim, os médicos contam com um doador vivo. Para os outros órgãos (pulmões, coração, fígado), o paciente pode ser colocado no começo de uma lista de espera para recuperar um enxerto em primeiro lugar.

Um custo pesado para ser suportado pelos hospitais

Na França, a técnica é praticada em nove centros de transplante (Grenoble, Toulouse, Saint-Étienne, Bordeaux, Strasbourg, Paris Necker, Paris Tenon, Paris Saint-Louis et Rouen) mas de forma muito limitada, pois o custo é alto para ser suportado pelos hospitais: cerca de 30 mil euros a mais para o enxerto. Em cinco anos, cerca de sessenta pacientes puderam se beneficiar com o transplante na França.

Na teoria, eles poderiam ser mais numerosos: em mais de 15 mil pacientes na espera de um transplante de rim em 2015, cerca de 2 mil foram dificilmente transplantáveis por causa da abundância destes famosos anticorpos anti-HLA. «Esta técnica proporciona bons resultados, mas há uma forma de autocensura por causa do custo. Não podemos oferecê-lo a todos», lamenta Lionel Rostaing, médico em transplante renal no Hospital Universitário de Grenoble. Além disso, certos médicos ainda estão relutantes por causa de incertezas sobre a vida renal destes enxertos, aparentemente incompatíveis, ou ainda sobre o risco de desenvolver um câncer devido à imunossupressão, lembra o especialista. Mas o estudo do New England Journal of Medicine mostra que essa estratégia é eficaz em médio prazo em pacientes cuja expectativa de vida é bastante limitada na ausência de transplante. Espero, portanto que isso vai convencer os responsáveis pelas decisões de desenvolver essa oferta, mesmo que isso signifique usar um método de filtragem mais antigo e mais barato, para que mais pacientes sejam beneficiados»

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