Valadares teme qualidade da água para consumo

Em Valadares, município com cerca de 280 mil habitantes, o rompimento provocou o desabastecimento de água e a prefeitura chegou a decretar estado de calamidade pública no último dia 10; Em diversos pontos da cidade, há doações de galões de água mineral; Os moradores – até mesmo idosos e crianças - formam filas para retirar os galões; A retirada é acompanhada por policiais militares e Exército

Moradores de Governador Valadares
Moradores de Governador Valadares (Foto: Luis Mauro Queiroz)

Agência Minas - O abastecimento de água no município de Governador Valadares (Vale do Rio Doce) está sendo normalizado, entretanto, seu consumo ainda gera dúvidas na população. Esse impasse marcou a audiência pública da Comissão Extraordinária das Barragens da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), realizada na cidade nesta segunda-feira (23/11/15).

Participantes da reunião manifestaram preocupação com a qualidade da água fornecida pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) da cidade e relataram odor forte e cor amarelada. A prefeitura, por outro lado, garantiu que a água já está própria para consumo. 

A reunião, solicitada pelo deputado Bonifácio Mourão (PSDB) e pela deputada Celise Laviola (PMDB), teve como objetivo conhecer os reflexos no município do rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (Região Central do Estado), da empresa Samarco, no último dia 5. O desastre ambiental, que pode ser o maior da história brasileira, provocou uma avalanche de lama que soterrou Bento Rodrigues, distrito na zona rural de Mariana, seguindo pelo rio em direção ao Leste do Estado e ao Espírito Santo, até atingir o Oceano Atlântico.

Em Valadares, município com cerca de 280 mil habitantes, o rompimento provocou o desabastecimento de água e a prefeitura chegou a decretar estado de calamidade pública no último dia 10. Em diversos pontos da cidade, há doações de galões de água mineral. Os moradores – até mesmo idosos e crianças - formam filas para retirar os galões. A retirada é acompanhada por policiais militares e Exército. A população retorna para suas casas seja de moto, carro, bicicleta ou a pé, carregando o peso dos litros.

O coordenador acadêmico da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) - campus de Governador Valadares, Angelo Marcio Leite Denadai, destacou, na audiência, que laudos emitidos pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e pela Fundação Ezequiel Dias (Funed), feitos sobre a água de Governador Valadares e que atestam que a mesma está própria para consumo, referem-se a estações de tratamento específicas.

Para o professor, é preciso ter no município um laboratório regional para controle da qualidade de água. “Não temos infraestrutura necessária para análise de metais pesados. A constatação da contaminação por meio deles não ocorre da noite para o dia, os reflexos virão no futuro”, completou. Segundo ele, a composição química do rio mudou depois do desastre. “Será que as estações de tratamento da cidade são capazes de fazer a análise neste momento?”, questionou.

O vereador de Governador Valadares, Paulinho Costa, demandou um projeto imediato para recuperação do Rio Doce e uma iniciativa para captação alternativa de água. “Até quando ficaremos nessa insegurança: se a água tratada pelo Saae é boa ou não, se trará problemas para a saúde?”, questionou. E acrescentou: “O Rio Doce já estava em situação complicada, 100% do esgoto da cidade é despejado no rio, já havia dificuldade de captação de água. Agora, foi dado o golpe final”, completou. Paulinho Costa lamentou a ausência na audiência de um representante da empresa Samarco.

Já o presidente da Câmara de Governador Valadares, Adauto Pereira da Silva, contou que foi protocolado no Saae pedido para que fossem enviados ao Legislativo municipal os laudos com relação à água da cidade. “Essa tragédia nunca será esquecida. O rio não voltará a ser o mesmo. Os rejeitos ficarão assentados e acumulados no fundo. Vai comprometer a pesca, a flora e a fauna. O mar levará também para todos os lados esses rejeitos. Ainda não dá para calcular os danos. Mas os responsáveis pela empresa já deveriam estar presos”, argumentou.

Esperança - De acordo com o representante da Associação dos Pescadores e Amigos do Rio Doce, José Francisco Abreu, apesar da complexidade do desastre e da situação do Rio Doce, é preciso ter esperança. “A natureza é pródiga e, se fizermos nossa parte, ela vai responder a isso”, contou. Ele ressaltou que, neste momento, é relevante que seja proibida a pesca no Rio Doce. “A vida subaquática não é só os peixes. Dependemos dela para que a água tenha qualidade. Se houver cuidado, a vida retornará ao Rio Doce por meio de seus afluentes”, acrescentou.

Prefeita garante que água é própria para consumo

A prefeita de Governador Valadares, Elisa Costa, destacou que uma das ações emergenciais implantadas é a garantia do abastecimento de água na cidade. Outra medida citada por ela é o monitoramento do rio. Ela explicou que os melhores técnicos vieram para o município para estudar uma nova forma de tratar a água que passou a ter outra composição depois do desastre.

“Foi encontrada uma fórmula, através de uma planta orgânica, para tratar a água. Outras cidades já utilizam isso. O resultado é água potável. Amostras foram feitas por diversos órgãos”, salientou. Ela enfatizou que, se a turbidez se elevar a ponto de não se conseguir mais tratar a água, o abastecimento será suspenso de novo, garantindo que a população deve ficar tranquila nesse momento com relação à qualidade da água.

O diretor-geral do Saae de Governador Valadares, Omir Quintino, também destacou que foi confirmada a ausência de metais pesados na água que abastece a cidade. Ele salientou que, embora as estações de Governador Valadares não contem com laboratórios, as amostras são analisadas posteriormente por essas unidades. Quintino destacou ainda que investimentos estão sendo feitos para modernizar as estações de tratamento. “A água que sai do Saae é própria para o consumo. O odor da água, verificado no início, já não ocorre mais”, garantiu.

Já o coordenador regional da Defesa Civil do Estado e comandante do 8º Batalhão, Coronel PM Wesley Barbosa, enfatizou que, até esta sexta (27), será entregue água mineral em 48 postos de distribuição. Ele contou que há pessoas que estão estocando água na cidade, que entram na fila de doação de galões várias vezes. Wesley destacou ainda que o abastecimento de água está sendo normalizado.

Laudos independentes - De acordo com o coordenador regional das Promotorias de Justiça do Meio Ambiente da Bacia do Rio Doce do Ministério Público do Estado, Leonardo Castro Maia, a despeito das análises da água em Valadares feitas pelo Saae e outros órgãos, o Ministério Público também procura fazer análises independentes e paralelas. “A água tem odor diferente, o que tem preocupado a população e, por isso, buscamos outras análises com relação à água para que tenhamos de fato uma tranquilidade em relação ao fornecimento. São os princípios da prevenção e da cautela aos quais o Ministério Público está atento”, destacou.

“Em Valadares, tentamos viabilizar uma alternativa para a demanda de abastecimento. Ajuizamos ação civil pública para assegurar o fornecimento de água na cidade”, contou. Dessa forma, a empresa tem que disponibilizar água mineral. Leonardo Castro ressaltou ainda que os prejuízos pelo rompimento da barragem ainda são incalculáveis. “Firmamos acordo com a empresa para que seja pago R$ 1 bilhão para medidas de mitigação dos danos sócio-ambientais”, salientou.

Deputados manifestam apoio aos moradores

O deputado Bonifácio Mourão lembrou que a comissão é apartidária e defende os interesses da população. “Estamos trabalhando para isso. Usaremos toda a nossa força reivindicatória pelos direitos de todos os atingidos”, afirmou. Para o parlamentar, a indenização integral não deverá ser atingida, mas todos os poderes cumprirão o seu dever na busca do melhor entendimento.

A deputada Celise Laviola enfatizou também preocupação com todos os municípios da região de Governador Valadares. “Vivemos um momento de tristeza profunda. Está acontecendo o que nunca pensamos. Tinha consciência da situação já grave do Rio Doce, mas nunca pensamos em um desastre nessa proporção”, comentou. Ela enfatizou ainda que a empresa Samarco foi convidada a participar da reunião.

Celise comentou que a água está com cheiro de cloro, o que decorre do tratamento que vem sendo feito. “Na minha residência, já está se normalizando. O cheiro é de cloro, mas a água não está mais turva”, ponderou a deputada, que é de Governador Valadares e tem uma casa na Ilha dos Araújos, região banhada pelo rio.

Segundo o deputado Rogério Correia (PT), relator da Comissão Extraordinária das Barragens, a comissão trabalha para apurar as causas e consequências da tragédia. “É preciso socorrer imediatamente a população e, depois, dar respostas efetivas para que haja a punição dos responsáveis e legislação mais rigorosa sobre o assunto”, disse.

O deputado destacou também que não há dúvidas quanto à responsabilidade da Samarco, controlada por uma joint venture de duas gigantes da atividade minerária: a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Biliton.

De acordo com o deputado Celinho do Sinttrocel (PCdoB), essa tragédia poderia ter sido evitada. “Já tivemos em Minas quatro rompimentos de barragens. Precisamos tirar o aprendizado de tudo isso. É preciso ter um Código Minerário. E não pode haver alinhamento político com mineradoras”, salientou. Ele também cobrou a responsabilidade da Samarco e a recuperação do Rio Doce.

Parlamentares visitam dois bairros do município

Os deputados visitaram, depois da reunião na Câmara Municipal, os bairros Ilha dos Araújos e Santa Rita em Governador Valadares, às margens do Rio Doce. Em visita ao primeiro, o vice-presidente da Associação dos Moradores e Amigos da Ilha, Dirley Henriques, enfatizou que a perspectiva de desenvolvimento turístico na região deixou de existir depois do ocorrido.

“A água foi tomada pela lama. À noite, dá um cheiro de zona portuária. Fica horrível para dormir. Além disso, as pessoas que caminhavam no local estão deixando de fazê-lo. Isso também ocorreu com a pesca tanto para lazer quanto para sobrevivência”, comentou.

Nas margens do rio no bairro Santa Rita, que contavam sempre com a presença de pescadores, não havia nenhum deles. A moradora do bairro, Celina Barbosa, contou que o abastecimento de água no bairro tem ocorrido, mas ainda não está normal. “A estação de tratamento abastece uma parte do bairro e depois a outra”, esclareceu.

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