Yeda parte para o ataque contra Tarso Genro

Ex-governadora afirmou que o atual governo precisa assumir os seus atos sem "transferir responsabilidades"

Yeda parte para o ataque contra Tarso Genro
Yeda parte para o ataque contra Tarso Genro (Foto: Jefferson Bernardes)
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Carlos Rollsing

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Culpada pelo governador Tarso Genro, juntamente com Antônio Britto, pela atual crise financeira do Estado, Yeda Crusius rebateu as críticas e afirmou que "mais conquistas" não foram possíveis na sua gestão porque o PT e o governo federal teriam sabotado programas como o Duplica RS, a construção da ERS-010 e a adoção um novo modelo prisional em Canoas, sempre por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs).

A ex-governadora tucana defendeu o déficit zero, revelou que está terminando um livro para contar detalhes dos bastidores do Piratini durante a crise deflagrada por denúncias de corrupção do então vice-governador Paulo Feijó e, com ironia, afirmou que o atual governo precisa assumir os seus atos sem "transferir responsabilidades", em referência ao saque de R$ 4,2 bilhões feito por Tarso da conta dos depósitos judiciais para custear a máquina estatal.

Também citado por Tarso, Antônio Britto disse a ZH, por e-mail, que não irá se manifestar sobre "debates que são próprios de período eleitoral". O ex-governador alegou ter abandonado a vida partidária há 12 anos.

Confira a entrevista de Yeda:

ZH — Como a senhora avalia o saque de R$ 4,2 bilhões feito pelo governo Tarso da conta dos depósitos judiciais do Estado?

Yeda Crusius — Isso é uma decisão do governo, de política global. Só posso dizer que ela é desnecessária. No nosso governo, provamos que dava para ter equilíbrio nas finanças públicas e pagar as contas. Não é preciso gastar mais do que se arrecada. O chamado déficit zero, que aos poucos as pessoas vão entendendo, é um caminho para investir, para fazer políticas sociais, políticas econômicas. Não é preciso estourar de novo as finanças públicas. Conquistamos o déficit zero no segundo ano de governo, em dezembro de 2008, e depois disso o Rio Grande do Sul cresceu muito. Pegamos um Estado que não conseguia pagar a sua folha. Do momento em que assumimos até o momento em que saímos, com R$ 9 bilhões nos cofres, seja dinheiro do caixa único ou dos depósitos judiciais, provamos que era possível investir em todas as áreas. Nunca havia se gastado tanto quanto gastamos, mas gastávamos de acordo com o que arrecadávamos. Essa é a primeira regra. Logo que assumimos, fizemos um ajuste nas despesas de custeio, que é o que suga os cofres públicos. O investimento era quase zero, e estamos voltando a isso. Fizemos ajuste ao cortar 30% dos cargos de confiança, e eles não fizeram falta. E cortamos 30% do custeio. Nunca qualquer outro Estado do Brasil havia feito um ajuste desse porte. Nós fizemos isso como primeiro ato, dizendo que gastaríamos nas atividades fim do governo estadual. E não nas atividades meio. Fizemos a reestruturação da dívida, se paga hoje muito menos do que se pagou no passado. Não me venham falar de dívida. Isso é lero-lero. Isso é enrolation. Houve uma reestruturação de dívida que permite ao Estado pagar menos. Fizemos isso com a dívida global, o Banco Mundial nos permitiu uma reestruturação inovadora e única. Trocamos dívida de sete anos por dívida de 30 anos, com taxa de juros infinitamente menor. O problema é que estão fazendo dívida outra vez. Toda vez que se tem déficit anual, alguém cobre, e se gera dívida. Esses R$ 4,2 bilhões são dívidas. Alguém vai ter de pagar um dia. Isso é um problema estrutural que mudamos. Com boa gestão financeira, o Estado passou a ser realmente o Rio Grande do Sul para o Brasil e para o mundo.

ZH — A senhora acredita que as políticas financeiras do seu governo foram engolidas pelas circunstâncias atuais?

Yeda — Mas esse era o propósito. O propósito era tentar apagar as estatísticas de boa gestão. Em quatro anos, não acreditaram que era possível fazer. Mostramos que era possível. O futuro haverá de dizer. A nossa opção foi por custeio. A avaliação vem pelos indicadores de violência, criminalidade, educação, saúde. E, infelizmente, esses indicadores estão piorando. O PIB decresceu.

ZH — Devido aos reajustes salariais ao funcionalismo, a folha crescerá 15% em 2013 e a inflação será de 5,5%. Os baixos salários de determinadas categorias justificam o risco dessa disparidade?

Yeda — Não é um dado que vai responder pelo modelo aplicado. Esse modelo atual é de gastos acima das receitas. O dado claro é a proposta que este governo tem de gastar a mais do que arrecada. Só de depósitos judiciais, serão R$ 4,2 bilhões. E não será para gastar em investimento. Eles já afirmaram que o orçamento do Estado não é para investir. É só para pagar pessoal.

ZH — O PT diz que o déficit zero se concretizou pela falta de investimento. Como a senhora responde?

Yeda — Eu não preciso analisar isso. A história já registrou. Nós gastamos mais do que qualquer outro governo. Isso é manobra diversionista. Afirmam coisas para alguém responder.

ZH — Ontem o governador Tarso Genro culpou o seu governo e o de Antônio Britto pela atual crise.

Yeda — Mas eu senti falta de uma coisa: faltou o dom Pedro I na crítica dele. Faltou na provocação dele o dom Pedro I.

ZH — O atual governo deveria promover reformas estruturais para diminuir a dívida?

Yeda — Não é o objetivo deles fazer reformas. E os problemas estruturais estão em todos os Estados, são típicos do Brasil, como a questão da Previdência. A causa do saque não se deve a nenhum problema estrutural. É uma decisão de gastar. É diferente. Em parte, eles receberam os problemas estruturais equacionados. É o caso da dívida global.

ZH — A senhora já decidiu se voltará a concorrer em 2014?

Yeda — Não, ainda não. Primeiro eu preciso acabar de escrever os meus dois livros que estão quase no fim.

ZH — Qual o tema dos livros?

Yeda — O primeiro é mais de caráter pessoal, com uma experiência de vida inteira que permitiu o sucesso do governo. Fomos reconhecidos pelo Rio Grande do Sul, pelo Brasil e pelo mundo. O resto é política. E o outro é um conjunto de inovações que foram feitas no nosso período de governo. Um deles é o déficit zero, que precisa ser melhor esmiuçado. Mas principalmente o Gabinete de Transição que fiz para enfrentar a crise da gravação apresentada (o vice-governador Paulo Feijó gravou o então chefe da Casa Civil, Cezar Busatto, dizendo que Banrisul e Daer financiavam partidos) na CPI. O primeiro livro é com tópicos que explicam que as inovações praticadas em quatro anos respondem pelo sucesso do governo. Entramos com caixa zero e nunca culpamos ninguém. Quando resolvemos nos candidatar, sabíamos o que iríamos encontrar. Não venham agora querer colocar a culpa em alguém. Que respondam pelo que fazem, assim como eu respondi pelo que fiz.

ZH — O que a senhora pretende contar do Gabinete de Transição montado à época da crise da gravação do Feijó?

Yeda — Eu vivi como governadora um período de "news of the world". Colocaram 15 segundos de uma gravação e decapitaram, jogaram na fogueira, paralisaram. Escândalo tem valor. Venderam muitos escândalos. Foram 15 mil horas gravadas e saíram 15 segundos, escolhidos a dedo. Quando foi apresentada parte daquela gravação do Feijó feita com o Busatto, o Estado parou. Foi uma coisa inacreditável. Era preciso tomar uma atitude. Era o vice-governador gravando o chefe da Casa Civil e editando fitas para apresentar na CPI. Eu resolvi, como parlamentarista que sou, fazer um Gabinete de Transição até acabar a CPI para mostrar a população que tinha governo, que os partidos de base estavam apoiando. Eu pedi a cada partido um representante e, de modo aberto, fizemos uma audiência com toda a sociedade, com sindicato de professores, de trabalhadores, nomes como Paulo Brossard, os institutos de pensar dos partidos políticos. Foi um período em que ouvimos a sociedade para nos analisar. Não houve problema de governabilidade. Houve um período muito crítico e triste de vender escândalos, um atrás do outro, sempre a mesma coisa. E, quando acabou a CPI, reabrimos o Piratini. Mas, neste período, o Gabinete de Transição respondia pelas decisões grandes. Na verdade, era um conselho que operava. Ele não era só para constar. Sobre o Gabinete de Transição, falei esses dias com o Fernando Henrique. Ele disse: "Tu tem de publicar isso".

ZH — A senhora mantém a convicção de que conexões de Brasília conspiraram contra o seu governo ou as crises foram motivadas por causas reais?

Yeda — Não, aquilo foi o de menos. Aconteceu que o governo não foi mais de pires na mão para Brasília. Acabou esse período. Fizemos um governo de ajuste de contas e não fomos mais de pires na mão para Brasília, que prometia e não dava, prometia e não cumpria, mas nós cumprimos. Fizemos a ponte do Arruda em dez meses, a ERS-471, pagamos precatórios, fizemos de tudo. Naquele período, Brasília deixou de ter a importância do poder central que impede o Rio Grande de fazer as coisas. Ninguém nos impediu de fazer nada, apesar do jogo político. A gente já poderia ter 360 quilômetros de rodovias duplicadas, com redução de acidentes, com pedágio desde 1º de janeiro de 2009 30% mais barato. Por que ele (Tarso) está pagando esse pedágio? Por que impediram a gente de pagar 30% mais barato com o Duplica RS? Não teria mais dívida com empreiteiros. Eles impediram o Rio Grande do Sul de fazer ainda mais, mas eles não nos impediram de crescer. Eu acho que a gente cresceu 10% em 2009, eu não me lembro, mas era um crescimento chinês. O que nós mostramos é que é importante Brasília cumprir as regras. E, mesmo quando politicamente os líderes estaduais fizeram tentativas de não deixar as coisas acontecerem, nós fomos maioria, fomos um conjunto de partidos que levou adiante o nosso plano de governo. Poderia ter sido ainda melhor, certamente, se não tivessem impedido alguns programas de transformação do custo Rio Grande, como o Duplica RS. Esse é o mais claro. Ou se tivéssemos conseguido mudar o modelo do sistema prisional, com aquela PPP em Canoas que já estaria operando com três mil vagas.

ZH — Quando a senhora diz que impediram as suas políticas, se refere ao PT ou ao governo federal?

Yeda — O governo federal simplesmente atende o interesse dos seus aliados. Eu não nomino o PT. O ministro dos Transportes, que era do PR, nem era do PT, e depois foi defenestrado, ele disse que não ia aceitar o Duplica RS com base em lei na Assembleia. São os aliados que atendem interesses. O Rio Grande se atrasou. Eles impediram um novo sistema prisional e também a ERS-010, coisas de um país desenvolvido.

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