'Sonho Americano' se tornou grito de socorro americano, diz Tom Engelhardt

Tom Engelhardt discorre sobre a decadência da sociedade e da política dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que aponta a decadência existente no mundo inteiro

www.brasil247.com - Donald Trump em Mendon 25/6/2022
Donald Trump em Mendon 25/6/2022 (Foto: REUTERS/Kate Munsch)


Artigo de Tom Engelhardt* originalmente publicado no seu website. Traduzido e adaptado por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247

Vivendo num Mundo de Ficção Científica

Como o Sonho Americano se Tornou o Grito Americano

Honestamente, se você tivesse descrito os EUA de hoje para mim há mais de meio século, eu teria rido na sua cara.

Donald Trump se tornar presidente? Você deve estar brincando!

Se quiser ver uma imagem bizarra, só o imagine na companhia de Abraham Lincoln. Quero dizer, realmente, o que aconteceu conosco?

Obviamente, não que nós não tivéssemos tido políticos bizarros em Washington antes. Eu ainda me recordo de assistir o louco, pescador de “vermelhos”, Senador Joseph McCarthy se apresentando na nossa então-nova televisão em preto-e-branco em 1953. Ele era bruto e parecia sê-lo (apesar de que, para a minha mente de nove anos de idade, ele também se parecia com todos os pais beligerantes que eu conhecia). Mesmo assim, seja lá o que ele fosse, ele não era o presidente dos EUA. Naquela época, o presidente era o ex-comandante militar da Segunda Guerra Militar, Dwight D. Eisenhower.

Seja lá o que McCarthy poderia ter sido, ele não era um sinal do declínio dos EUA (ou do planeta). E o Donald? Bem, ele é uma outra coisa. De algumas maneiras, ele poderia ser considerado o mais estranho sinal do declínio na nossa história. Afinal, quando ele entrou no Escritório Oval, ele assumiu um país cujos líderes haviam considerado os EUA como a maior, mais poderosa e mais influente nação de todos os tempos.

Se quiser, pense nele, como o mais estranho vidente de todos os tempos. Para colocá-lo no contexto da ficção científica que eu lia no século passado, ele pode ser considerado como um genuíno Philip K. Dick (cabeça).

Como eu escrevi em abril de 2016, no meio da candidatura inicial de Trump à presidência, ele era excepcional dentre a nossa classe política – e não por qualquer uma das razões óbvias. Não, o que chamou a minha atenção foi o slogan dele – aquele que ele registrou como marca na sequência da derrota de Mitt Romney para Barack Obama em 2012: “Make America Great Again” (MAGA, ou “Faça a América ser Grande de Novo”). Me dei conta, então, que a palavra-chave era aquele “de novo”. Como eu assinalei na época, ele era singular numa eleição presidencial não somente como uma ex-personalidade bizarra da TV, nem mesmo como um falido múltiplo de sucesso, mas como “a primeira pessoa a concorrer abertamente e sem apologias numa plataforma do declínio dos EUA”. Do seu próprio jeito, ele tinha o seu olho – e que olho era! - numa realidade que nenhum outro político em Washington sequer ousava considerar, mesmo quando chegamos a ser “a única superpotência” do planeta Terra. Afinal, ele estava insistindo, então, que este país já não era mais o “grande”.

Trump provou ser um candidato único-do-seu-tipo (não que ele não o teria sido sem o jargão “MAGA”). Como sabemos agora, a mensagem dele – que ressoou tão pouco na classe política em Washington – ressoou forte para muitos no coração (branco) dos estadunidenses. Em outras palavras, Donald Trump se tornou o presidente da universidade do declínio – e que declínio seria! Segundo uma pesquisa recente, metade dos estadunidenses deste nosso país cada vez mais super-armado, vieram a acreditar que uma guerra civil real está por vir em um futuro próximo.

Pense no milagre – se você não se importa que eu use tal palavra neste contexto – da presidência de Donald Trump assim: de alguma maneira, ele conseguiu transformar não só os republicanos, mas todos nós, em seus aprendizes. E, aqueles anos do nosso treinamento de aprendizagem ocorreram não só num país cada vez mais enlouquecido e violento, mas num planeta cada vez mais estranho e mais perturbado. 

Sim, houve uma época em que eu lia novelas de ficção científica de uma maneira que eu não faço mais; e, então, eu sentia que estava vislumbrando futuros possíveis, ainda que estranhos. Creia-me que o que está acontecendo atualmente não teria passado sequer como uma meio-crível ficção no final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970.

Então, permitam-me dizer novamente: honestamente, Donald Trump?

A “nossa Liz”

Tendo vivido o movimento contra a guerra dos anos de 1960 e 1970 (bastante frequentemente nas ruas) e a loucura da guerra de destruição no Vietname, é estranho passar os meus anos de declínio num país no qual o principal movimento de protesto, o Trumpista, representa um pesadelo de potencial destruição aqui mesmo, na nossa terra. Obviamente, com “aqui mesmo”, eu quero dizer que é incrivelmente errado, para além de qualquer crença. Afinal, isso foi liderado por um super-hiper narcisista que só não seria qualificado como fascista porque ele prefere ter fãs do que seguidores, aprendizes de bandidos de botas altas. No entanto, como os eventos de 6 de janeiro de 2021 demonstraram, ele tampouco os rejeitaria. Na verdade, num primeiro momento ele incitou tais bandidos a “retroceder e ficar de prontidão” [“stand back and stand by”].

Você sabe que está num mundo dos infernos quando a heroína deste momento é a politicamente fiel filha de um ex-vice-presidente, que, juntamente com o presidente George W. Bush, usou os ataques de 11/09/2001 para nos conduzir a guerras de agressão no Afeganistão e no Iraque, bem como à expansiva Guerra Global ao Terror – um presidente que segue não tendo sido indiciado como um criminoso de guerra de primeira classe. Considere também que, antes dela se tornar a “nossa Liz”, ela votou contra o impeachment do presidente Trump em 2019, e votou à favor dos seus programas (se você conseguir sequer chamá-los assim) por meros 93% do tempo.

Lembre-se que tudo isso é só para arranhar a superfície do nosso mundo dos infernos.

Nem sequer nos meus piores pesadelos de meio século atrás este era o mundo “americano” que eu imaginei. Não por um dia, nem por uma hora, nem por um segundo, por exemplo, eu sonhei sobre guardas de escolas armados com rifles de assalto. Quero dizer: o que poderia possivelmente ter ido mal?

Obviamente, eu nasci nos EUA que estavam em ascensão, nos quais ainda se podia imaginar – parece ser ridículo usar esta palavra hoje em dia – progredindo para ser genuinamente um mundo melhor de algum tipo. Evidentemente, aquele mundo é algo que fica nos livros de história.

Pense em Donald Trump como um sinal completamente literal dos tempos, num momento em que cerca de 70% dos republicanos consideram que a última eleição foi roubada e que Joe Biden é um presidente ilegítimo. Talvez 40% deles também acreditem que algumas vezes a violência contra o governo pode ser justificada. Este é um país que há muito tempo se imagina como sendo o melhor de todos os tempos.

E se você realmente quiser um pouco de loucura de ficção científica que, nos anos de 1960, teria me enlouquecido (como dizíamos naquela época), considere as mudanças climáticas. Enquanto nós discutimos como loucos sobre a última eleição, enquanto os Trumpistas buscam conquistar postos de secretários-de-estado locais (sem falar nos governos estaduais) que possam lhes dar o controle sobre a contagem de votos de futuras eleições, enquanto os estadunidenses se armam até os dentes e a democracia parece estar em disputa, não nos esqueçamos sobre o verdadeiro pesadelo deste momento: o desesperado aquecimento deste planeta.

Sim, a “nossa” Terra está literalmente se queimando – e também se inundando com as “super-tempestades” estando no nosso futuro. E não se esqueça que ela também está se derretendo num ritmo muito mais extremo do que qualquer um poderia imaginar em alguma época. Recentes pesquisas no Ártico sugerem que, ao invés de se aquecer, como se acreditava, num ritmo duas ou três vezes mais rápido do que o resto do planeta,  agora o Ártico está se aquecendo quatro vezes mais rápido do que o resto do planeta. Na verdade, em algumas áreas, isto está ocorrendo sete vezes mais rápido! Então, no futuro, digamos adeus a Miami, New York, Cidade de Ho Chi Minh, Shangai e outras metrópoles costeiras, à medida que os níveis do mar se elevam cada vez mais rápido.

Dando um Beijo de Adeus ao Planeta?

Honestamente, você sequer saberia que, em partes deste país e entre republicanos, mesmo que as figuras-chave daquele partido outrora fossem ambientalistas, mas este planeta está literalmente decaindo – ou, talvez, em termos de temperatura, está se elevando – e pegando fogo.

Os gases-estufa continuam a ser despejados na atmosfera e certos chefes de estado, como Donald Trump nos seus dias na Casa Branca, seguem notavelmente dedicados a emitir ainda mais destes gases. O presidente mexicano é um exemplo, e o presidente russo é outro. E você não precisa mais recorrer à ficção científica para imaginar os resultados. Um enervante futuro de ficção científica está se tornando o sinistro presente bem em frente aos nossos olhos. Neste verão, por exemplo, a Europa sofreu um calor sem precedentes e com secas – como o Rio Reno na Alemanha e o Rio Pó na Itália se secando de maneira desastrosa. E só para acrescentar a esta mistura, partes daquele continente também tem tido tempestades de uma magnitude surpreendente e enchentes assombrosas.

Enquanto isso, a China tem sofrido por mais de dois meses com um conjunto de ondas de calor, com temperaturas recordes e uma seca significativa que se provou ser desastrosa para as suas colheitas, a sua economia e o seu povo. Ah, sim, assim como os rios Reno e Po, o rio Yangtze – o terceiro maior rio do mundo – está se secando rapidamente, enquanto a onda de calor de lá ainda não dá sinais de terminar antes de meados de setembro. Neste ínterim, o sudoeste e o oeste dos EUA continuam a vivenciar uma super-seca sem precedentes, pelo menos neste continente, nos últimos 1.200 anos. Assim como os rios Reno, Pó e Yangtzé, o rio Colorado está perdendo água de uma maneira potencialmente desastrosa, enquanto a temporada de ondas de calor nos EUA agora já está durando 45 dias a mais do que nos anos de 1960. E isto é para começar a registrar as catástrofes climáticas do planeta. Afinal, eu sequer mencionei os mega-incêndios cada vez mais ferozes no Alaska, no Novo México, na França e em outros lugares; tampouco focalizei os furacões e tufões cada vez mais poderosos que se tornaram partes da vida (e da destruição e da morte) cotidiana.

Então, esta não é uma forma estranha de ficção científica, em resposta a um mundo destes, uma crise destas que poderia sinalizar o fim da civilização, e o foco neste país esteja em Donald Trump e companhia? Você não considera estranho que os dois maiores emissores de gás-estufa do planeta, os EUA e a China, tenham respondido de maneiras que deveriam horrorizar a todos nós?

Joe Biden e os seus altos funcionários de segurança nacional têm jogado continuamente sobre os perigos da ascensão da China, têm colocado uma energia significativa em desenvolver alianças militares contra aquele país na região do Indo-Pacífico e lançaram funcionalmente uma nova Guerra Fria mais de 30 anos após a antiga foi à sua sepultura. Além disso, Nanci Pelosi, uma quantidade de outros representantes no Congresso e até nos estados, visitou incisivamente a ilha de Taiwan, enfurecendo de propósito a liderança chinesa. Neste meio tempo, a Marinha dos EUA tem enviado mais regularmente os seus navios passarem através do Estreito de Taiwan e as forças-tarefa dos seus porta-aviões para o Mar do Sul da China.

Da sua parte, as autoridades oficiais da China, enquanto seguem avançando na construção de usinas de energia movidas à carvão, lançaram recentemente demonstrações militares de um tipo escalador contra Taiwan, enquanto se preparam para juntarem-se à Rússia de Putin pelo segundo ano seguido numa série de “exercícios militares” - mesmo quando a guerra na Ucrânia, que é um desastre de carbono segue sem parar. Ao mesmo tempo, furiosos sobre estas visitas de Washington à Taiwan, os líderes da China cortaram, essencialmente, todas as relações com os EUA – incluindo quaisquer discussões adicionais sobre como cooperar para lidar com as mudanças climáticas.

Então, será esta uma Segunda Guerra Fria no meio de um crescente desastre climático? Se você tivesse incluído isto na sua novela de ficção científica em 1969, sem dúvida pareceria absurdo demais como futuro para ser publicado. As pessoas ririam de você ao lhe mandar para fora da sala.

Admitamos que a história da humanidade, na sua maior parte, tenha sido um conto do triunfo da irracionalidade. Mesmo assim, você poderia pensar que, enquanto uma espécie, como um mínimo, não teríamos optado pela destruição do próprio planeta no qual nós vivemos. E, mesmo assim, pense de novo.

Pelo menos, o governo Biden recentemente conseguiu fazer aprovar no Congresso (apesar da oposição de todos os Trumpublicanos) de um projeto de lei que trata do aquecimento global de uma maneira significativamente razoável, e o presidente ainda poderá invocar os seus poderes executivos para fazer mais do que isso. Também é verdade que os chineses têm trabalhado arduamente para criar fontes de energias alternativas cada vez menos caras. Mesmo assim, nada disso nos leva longe o suficiente. Não neste planeta. Não agora.E tenha em mente que, se for o caso dos EUA, desesperados e desiguais elegessem Donald Trump novamente em 2024 (seja como for), o país que, historicamente colocou mais gases-estufa na atmosfera do que qualquer outro, poderá estar dando um beijo de adeus ao planeta que conhecemos.

Creiam-me, é estranho eu me recordar de um mundo há muito passado, no qual a maior destruição estava acontecendo a milhares de quilômetros – no Vietname, no Laos e no Camboja. Quero dizer que era ruim o suficiente, então, para me fazer sair à rua. No entanto, agora a destruição, pela qual nós somos significativamente responsáveis, está acontecendo aqui mesmo, aqui onde você e eu vivemos, não importando onde isso possa ser.

O que nós estamos assistindo é uma tragédia inédita sendo preparada para os nossos filhos e netos – o que me deixa triste, além das palavras. No que me concerne, esta é uma novela de ficção científica que eu preferiria não ler e uma vida de ficção científica que eu preferiria não estar vivendo.

*Tom Engelhardt criou e opera o website www.tomdispatch.com. Ele também é o fundador do American Empire Project e autor de uma altamente elogiada história do triunfalismo estadunidense na Guerra Fria, 'The End of Victory Culture'. Ele é membro do Type Media Center e seu sexto e mais recente livro é 'A Nation Unmade by War'.

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