247 – O Move Brasil levou taxistas e motoristas de aplicativo às concessionárias em busca de carro zero com juros reduzidos, mas a aprovação de crédito ainda limita o avanço das vendas e frustra parte dos interessados nas primeiras semanas do programa, lançado em 19 de junho, relata a Folha de São Paulo.
Segundo concessionárias, o aumento da procura não se converteu, na mesma velocidade, em contratos fechados. O principal entrave está na diferença entre a expectativa dos consumidores e as regras efetivas do financiamento: muitos chegam às lojas acreditando que o pré-cadastro no portal do governo equivale à liberação automática do crédito, enquanto os bancos continuam fazendo análise de risco antes de aprovar cada proposta.
Em uma rede de oito concessionárias Nissan na Grande São Paulo, foram registradas 91 propostas de financiamento em apenas um dia. Até o momento do levantamento, só seis tinham sido aprovadas. Em dias normais, a mesma rede costuma receber cerca de 20 pedidos de análise de crédito, com aprovação próxima de 50%.
Diretor das oito unidades Nissan, Leandro Schuber afirmou que a demanda cresceu rapidamente, mas veio acompanhada de desinformação sobre as condições do programa. “O Move Brasil teve uma alta demanda, mas de muita gente desinformada”, disse.
Segundo Schuber, parte dos consumidores acreditava que todos teriam direito automaticamente à entrada zero e ao parcelamento em até 72 meses. Outros imaginavam que poderiam obter financiamento mesmo com restrições no nome ou sem se enquadrar no público-alvo definido pelo governo. “Tive situação de cliente que me ligou e falou: ‘Vou comprar pelo Move Brasil’. Perguntei: ‘Mas você é Uber?’ ‘Não, não sou Uber’”, relatou o executivo.
O diretor também afirmou que alguns interessados procuraram a concessionária apenas para testar se conseguiriam aprovação bancária, sem demonstrar interesse imediato em um modelo específico. Depois de aprovados, parte dos clientes passou a comparar preços entre marcas.
A concentração dos vendedores nas dúvidas sobre o Move Brasil também afetou outras frentes de venda, segundo Schuber. Ele disse que o atendimento a clientes do mercado convencional, de veículos para pessoas com deficiência e de seminovos acabou perdendo espaço na rotina das lojas. “Acho que o sentimento hoje é de frustração. No primeiro momento, falando de Move Brasil”, afirmou.
Em outras redes, a avaliação é mais positiva. Na Honda Flora Motors, o diretor Sergio Roveri disse que o fluxo de interessados aumentou desde o lançamento do programa, embora boa parte dos atendimentos ainda esteja concentrada em esclarecimentos sobre regras, modelos elegíveis e etapas do financiamento. “Está sendo bom, a gente teve um aumento exponencial da busca por isso”, disse Roveri.
Segundo ele, o atendimento tem funcionado de forma mais consultiva. Primeiro, o cliente entende quais veículos entram no programa; em seguida, escolhe o modelo; só depois começa a fase de análise de crédito com o banco. Para Roveri, ainda é cedo para medir a taxa de aprovação, já que as respostas das instituições financeiras começaram a chegar apenas após o início efetivo da operação.
A vendedora Cláudia Leite, da Honda, afirmou que recebeu clientes em diferentes situações: alguns ainda regularizam pendências financeiras, outros aguardam isenções fiscais, e há também consumidores já prontos para fechar a compra. “Vieram diversos perfis de clientes”, afirmou.
A Honda informou, por meio de sua assessoria, que não divulga números específicos do Move Brasil, mas disse que a receptividade ao programa tem sido positiva. A montadora também destacou que a aprovação do financiamento depende exclusivamente da análise feita pelas instituições financeiras.
Entre as montadoras, a BYD afirmou ter atendido mais de 14,5 mil taxistas e motoristas de aplicativo em mais de 210 concessionárias já no primeiro dia do Move Brasil. Segundo a empresa, houve filas em várias unidades do país.
A Toyota disse ter registrado volume de solicitações cerca de três vezes maior do que antes da adesão ao programa e afirmou que as aprovações de crédito seguem “dentro da normalidade”. A Renault informou que houve forte procura no fim de semana, mas que ainda aguardava retorno dos bancos sobre as propostas.
A adesão das instituições financeiras, porém, ocorre em ritmos diferentes. O Itaú informou que decidiu não participar da linha por questões operacionais e porque o limite de garantias disponível no Fundo Garantidor para Investimentos já está comprometido com outras modalidades de crédito.
O Santander afirmou que ainda se prepara para operar o programa. “As condições serão apresentadas durante a simulação, e a contratação estará sujeita à elegibilidade do cliente e do veículo, à análise de crédito e à documentação exigida”, informou o banco.
O Bradesco disse que não aderirá ao Move Brasil. Sicredi e Sicoob confirmaram participação, mas afirmaram que ainda não têm dados consolidados sobre a operação. Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Safra, procurados desde a quarta-feira (24), não haviam se manifestado oficialmente até a conclusão do levantamento.
A Febraban, entidade que representa os bancos, declarou apoiar o programa e afirmou que trabalha com o governo para viabilizar sua operação. Segundo a federação, ajustes tecnológicos e operacionais são esperados nos primeiros dias de funcionamento. “A concessão de crédito continua sujeita às análises de risco e às políticas de crédito de cada instituição, em conformidade com a regulamentação vigente”, informou a Febraban.
Para Ricardo Thomaziello, diretor de análise da Serasa Experian, a dificuldade de aprovação tem relação com o perfil de parte dos motoristas, que nem sempre possui vínculos tradicionais de emprego. Isso reduz a quantidade de informações disponíveis para que os bancos avaliem a capacidade de pagamento dos clientes.
Segundo Thomaziello, o Move Brasil pode ajudar a diminuir essa assimetria ao reunir dados adicionais sobre a atuação desses profissionais. Ainda assim, ele afirma que o ambiente econômico, marcado por juros elevados e inadimplência alta, faz as instituições financeiras manterem postura cautelosa. “O momento não é bom. Isso acaba mexendo com a análise de risco”, disse.
O especialista explicou que a Serasa fornece informações como score de crédito e histórico de mercado, mas cada banco combina esses dados com critérios próprios. Por isso, uma mesma pessoa pode ser aprovada em uma instituição e recusada em outra, dependendo do risco que cada banco aceita assumir.
Thomaziello também afirmou que o programa ainda está em fase inicial e deve passar por um período de adaptação. Só depois desse ajuste operacional será possível avaliar com mais clareza o impacto do Move Brasil sobre a concessão de crédito e sobre as vendas de veículos.
Pelas regras do programa, podem ser financiados carros flex, híbridos flex, elétricos e veículos movidos exclusivamente a etanol. Modelos movidos apenas a gasolina ou diesel ficam fora da linha. O valor máximo do automóvel é de R$ 150 mil.
Entre os modelos listados como elegíveis estão BYD Dolphin, BYD Dolphin Mini, Chevrolet Onix, Chevrolet Onix Plus, Chevrolet Tracker, Honda City, Honda HR-V, Hyundai Creta, Hyundai HB20, Nissan Kicks, Nissan Versa, Renault Duster, Renault Kardian, Renault Kwid, Fiat Argo, Fiat Cronos, Fiat Pulse, Jeep Compass, Jeep Renegade, Peugeot 208, Toyota Yaris Cross, Volkswagen Nivus, Volkswagen Polo, Volkswagen T-Cross, Volkswagen Virtus, entre outros.
O programa também prevê juros menores para itens de segurança, como rastreador veicular, botão de pânico, bloqueador, trava de volante, trava de câmbio, dashcam, geofencing, telemetria embarcada, películas de segurança, porcas antifurto e dispositivos de reconhecimento facial ou biometria.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o financiamento de seguro não entra na composição do preço do carro e não conta para o limite de R$ 150 mil. No caso das mulheres, acessórios de segurança também ficam fora desse teto.
Para solicitar o financiamento, o motorista deve acessar a plataforma do Move Brasil no gov.br e autorizar o uso de dados para verificação de elegibilidade. A resposta da análise cadastral é enviada pela caixa postal do portal. Com o cadastro aceito, o profissional pode escolher um veículo enquadrado no programa e procurar uma concessionária. A contratação final depende da análise de crédito feita pelo banco escolhido.
Podem participar taxistas registrados e em atividade, cooperativas de táxi e motoristas de aplicativo com cadastro ativo há pelo menos 12 meses e, no mínimo, cem corridas realizadas nesse período na mesma plataforma. A validação dos motoristas de aplicativo será feita pelas próprias plataformas, enquanto a confirmação dos taxistas ocorrerá por meio da Receita Federal e do gov.br.
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