Amazônia é um bem comum universal, diz Le Monde

Em editorial, o jornal francês Le Monde critica a devastação da Amazônia, patrocinada por Jair Bolsonaro. "A assustadora multiplicação de incêndios na floresta amazônica não diz respeito apenas ao Brasil, que abriga 60% da mesma, mas a todo o planeta, porque ela faz parte integrante do desregulamento global do sistema climático"

247 - Em editorial publcado nesse sábado, 24, o jornal francês Le Monde faz duras críticas à devastação da floresta Amazôniza, incentivada por Jair Bolsonaro. 

"A quem pertence a Amazônia? Aos nove países da América Latina sobre os territórios dos quais se estende essa imensa floresta virgem? Ao Brasil que abriga 60% dela? Ou ao planeta, cujo horizonte ambiental depende de sua saúde?", questiona o Le Monde. 

Leia, abaixo o texto na íntegra, traduzido para o 247 por Sylvie Giraud:

Amazônia, bem comum universal

Editorial. A assustadora multiplicação de incêndios na floresta amazônica não diz respeito apenas ao Brasil, que abriga 60% da mesma, mas a todo o planeta, porque ela faz parte integrante do desregulamento global do sistema climático.

Publicado em 24.08.19 às 10h08

A quem pertence a Amazônia? Aos nove países da América Latina sobre os territórios dos quais se estende essa imensa floresta virgem? Ao Brasil que abriga 60% dela? Ou ao planeta, cujo horizonte ambiental depende de sua saúde?

Nas últimas semanas, a assustadora multiplicação de incêndios na floresta amazônica conferiu nova relevância a essa questão. Se os incêndios são um fenômeno natural no final da estação das chuvas, este ano chegaram a um ponto tal que, em 19 de agosto, as nuvens de partículas devidas à combustão da floresta obscureceram o céu de São Paulo. Observações de vários satélites confirmaram a extensão do desastre. Em julho, o número de novos incêndios foi 84% maior do que em 2018. Para os cientistas, não há dúvida de que a maioria deles é voluntária, incentivada pelo ceticismo climático do presidente Jair Bolsonaro.  

A crise tomou um rumo diplomático. Na véspera da abertura da cúpula do G7 em Biarritz, no sábado (24 de agosto), para a qual o presidente brasileiro não foi convidado, Emmanuel Macron tomou para si o caso. "Nossa casa arde em chamas. Literalmente. A Amazônia, pulmão do planeta que produz 20% de nosso oxigênio, está em chamas.” twittou.  Chamando os incêndios de "crise internacional", o presidente francês disse que pretendia introduzir "essa emergência" no cardápio do G7. Bolsonaro, por sua vez, replicando por um Tweet, mostrou-se indignado pela postura "colonialista" de tratar os assuntos de outros países fora de sua presença. Alemanha e Canadá, membros do G7, e Antonio Guterres, secretário-geral da ONU, presente na reunião, apoiaram a iniciativa da França. Macron foi além ao anunciar, após o primeiro-ministro irlandês, que seu país não ratificaria o tratado comercial UE-Mercosul concluído em junho após anos de negociações: o presidente brasileiro, acusou, “mentiu” para ele sobre seu compromisso com o meio ambiente.

Responsabilidade internacional

O caso levanta duas questões. A Amazônia seria um bem comum universal, como afirma a França - que também conta com o status de país amazônico graças ao departamento da Guiana, na fronteira com o Brasil? Ou ela é "nossa, do Brasil", como afirma o presidente Bolsonaro? As conseqüências da progressiva destruição da floresta amazônica para o resto dos habitantes do mundo dão claramente razão aos países europeus: a Amazônia é uma importante fonte de oxigênio, de água e de biodiversidade da qual depende todo o planeta. Mesmo sem mencionar seu impacto nas populações indígenas, o desmatamento em massa pela queimada faz parte do desregulamento global do sistema climático. Causa um aumento nas emissões de gases de efeito estufa; destruídas, as árvores não podem mais captar a água do solo para produzir chuva. Bolsonaro deve, portanto, aceitar essa responsabilidade internacional.

A outra pergunta diz respeito ao acordo UE-Mercosul: seu abandono, por mais que encontre grande adesão junto da opinião pública francesa, seria a resposta certa para fazer recuar o presidente brasileiro? Talvez essa ameaça tenha contribuído para sua decisão na noite de sexta-feira de enviar o exército combater os incêndios. Mas esse tratado também constitui um meio de pressão para impor normas sanitárias e ambientais europeias aos países produtores da América Latina. Seria um erro privar-se completamente dele.

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