Fernando Morais presta homenagem ao sempre solidário Domingo Alzugaray

"Lá se foi o Domingo. Corajoso com os amigos na hora dos apertos, generoso nas vacas magras", diz o escritor Fernando Morais; "Quando as vacas emagreciam, era na porta dele que eu batia em busca de freelances jornalísticos. Mais do que me dar trabalho, Domingo Alzugaray passou a oferecer-me uma generosa gentileza adicional: a cada livro que eu lançava, a principal revista da Editora Três – a semanal ISTOÉ – publicava um anúncio de página inteira. Sem que nunca eu tivesse que pagar por isso. E sem que ele jamais me pedisse nada em troca"

"Lá se foi o Domingo. Corajoso com os amigos na hora dos apertos, generoso nas vacas magras", diz o escritor Fernando Morais; "Quando as vacas emagreciam, era na porta dele que eu batia em busca de freelances jornalísticos. Mais do que me dar trabalho, Domingo Alzugaray passou a oferecer-me uma generosa gentileza adicional: a cada livro que eu lançava, a principal revista da Editora Três – a semanal ISTOÉ – publicava um anúncio de página inteira. Sem que nunca eu tivesse que pagar por isso. E sem que ele jamais me pedisse nada em troca"
"Lá se foi o Domingo. Corajoso com os amigos na hora dos apertos, generoso nas vacas magras", diz o escritor Fernando Morais; "Quando as vacas emagreciam, era na porta dele que eu batia em busca de freelances jornalísticos. Mais do que me dar trabalho, Domingo Alzugaray passou a oferecer-me uma generosa gentileza adicional: a cada livro que eu lançava, a principal revista da Editora Três – a semanal ISTOÉ – publicava um anúncio de página inteira. Sem que nunca eu tivesse que pagar por isso. E sem que ele jamais me pedisse nada em troca" (Foto: Leonardo Attuch)

Por Fernando Morais, no Nocaute

Em meados de 1975 Samuel Wainer, o mitológico criador da “Última Hora”, decidiu se instalar em São Paulo para lançar na pauliceia um novo jornal diário. Batizado de “Aqui São Paulo” o tabloide circularia de segunda a sábado apenas na capital paulista. O projeto de Wainer tinha uma característica singular: a cada dia o veículo trataria de apenas um assunto. Na segunda-feira era só futebol; na terça, só política; na quarta, apenas economia e negócios e assim por diante. A semana seria encerrada no sábado com uma edição dedicada a cultura e variedades, acompanhada de um guia de dicas de programas de teatro, cinema, lançamentos de livros, concertos e espetáculos musicais.

A originalidade da ideia seduziu dois dos mais calejados e festejados publishers brasileiros, Domingo Alzugaray e Luís Carta (irmão caçula do também jornalista Mino Carta). Depois de alcançar o topo da hierarquia da editora Abril, Domingo e Luís se juntaram para montar o próprio negócio, parceria que rendeu revistas de grande sucesso como Status, Planeta e, depois, o semanário ISTOÉ. Os dois se juntaram a Samuel para tocar o novo projeto, associação que rendeu uma empresa cujo nome – SWDALC, acróstico decorrente das iniciais dos sócios – lembrava mais o de um circo russo do que uma editora de jornais.

Recém demitido da revista Visão, fui chamado pelo trio para dirigir a implantação do novo projeto, cuja supervisão ficaria a cargo de Samuel, o pai da ideia. Para cuidar da concepção gráfica convidamos um dos mais talentosos artistas da praça, o catalão Francesc Petit, o P da DPZ Propaganda. A empresa era pequena e o dinheiro curto, mas Petit apaixonou-se pelo desafio e topou trabalhar com a condição de que só seria remunerado quando o negócio começasse a dar lucro.

Estávamos envolvidos na criação de zeros, leiautes e bonecos do “Aqui São Paulo” quando chegou o Outubro Negro. Em poucas semanas o DOI-CODI prendeu – e passou a torturar com selvageria – onze jornalistas, acusados de algum grau de envolvimento com o PCB, o Partido Comunista Brasileiro.

No final da tarde de sexta-feira, dia 24 de outubro, eu examinava capas experimentais do jornal, criadas por Petit e espalhadas sobre minha mesa, quando Luís Carta entrou na sala. Lívido, aproximou-se de mim e falou baixinho, quase sussurrando:

– Um major e um capitão do DOI-CODI estão aí para te prender. O Samuel e o Domingo estão conversando com os dois na sala de reuniões para dar tempo de você fugir. Caia fora imediatamente e saia pela escada de serviço, para evitar cruzar com eles no elevador.

Na verdade eu nunca tinha sido filiado ao PCB, mas aquela não era a hora mais apropriada para dar explicações. Desci aos saltos os quinze andares do prédio em que ficava a SWDALC, na avenida Paulista, retirei do estacionamento na rua Augusta meu surrado Chevette amarelo, toquei para a Cidade Universitária da USP e peguei Rúbia, com quem eu era casado. Ela acabara de receber um telefonema da nossa empregada doméstica, dona Tere, informando que dois homens do Exército tinham estado em casa à minha procura. Rúbia e eu tratamos de desaparecer.

Na manhã seguinte o jornalista Vladimir Herzog foi preso pelo DOI-CODI e assassinado durante uma sessão de tortura no quartel da rua Tutóia.

Samuel Wainer morreu alguns anos depois, Luís Carta acabou mudando-se para a Espanha (onde morreria em 1994, aos 57 anos), mas minha relação com Domingo permaneceu por muito tempo. Quando as vacas emagreciam, era na porta dele que eu batia em busca de freelances jornalísticos. Mais do que me dar trabalho, Domingo Alzugaray passou a oferecer-me uma generosa gentileza adicional: a cada livro que eu lançava, a principal revista da Editora Três – a semanal ISTOÉ – publicava um anúncio de página inteira. Sem que nunca eu tivesse que pagar por isso. E sem que ele jamais me pedisse nada em troca.

Toda vez que o encontrava eu repetia para os circunstantes:

– Este senhor salvou a minha vida.

Modesto, Domingo reagia com uma gargalhada:

– Quem salvou sua vida foi o destino. O Samuel, o Luigi e eu fomos apenas agentes do destino.

Corajoso e generoso, Domingo Alzugaray morreu ontem, aos 84 anos, em São Paulo. Muita tristeza.

 

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