Guerra fratricida põe em risco futuro da Folha, que pode virar bolsonarista

A disputa de poder na Folha de S. Paulo, que fez o empresário Luis Frias demitir sua própria irmã Maria Cristina, nomeando Sérgio D'Ávila para o comando da redação, coloca em risco a sobrevivência do jornal. "Luiz nunca escondeu que não vê futuro para o jornal impresso e tem se recusado a investir na publicação", informa a jornalista Mariana Barbosa, que prevê fortes demissões. A tendência é que Luis, que cuida de negócios financeiros, promova também uma guinada bolsonarista na publicação, que vem perdendo leitores desde que decidiu apoiar o golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff

Guerra fratricida põe em risco futuro da Folha, que pode virar bolsonarista
Guerra fratricida põe em risco futuro da Folha, que pode virar bolsonarista

247 – A disputa de poder na Folha de S. Paulo, que fez o empresário Luis Frias demitir sua própria irmã Maria Cristina, nomeando Sérgio D'Ávila para o comando da redação, coloca em risco a sobrevivência do jornal. "Luiz nunca escondeu que não vê futuro para o jornal impresso e tem se recusado a investir na publicação", informa a jornalista Mariana Barbosa, que prevê fortes demissões. A tendência é que Luis, que cuida de negócios financeiros, promova também uma guinada bolsonarista na publicação, que vem perdendo leitores desde que decidiu apoiar o golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff.

Confira, abaixo, a reportagem de fôlego produzida pelo Brazil Journal:

Família Frias racha, ameaçando o futuro da Folha
Mariana Barbosa

A Folha de S. Paulo trocou hoje seu comando editorial em meio a uma disputa entre os irmãos Frias, aumentando a incerteza sobre o futuro de um dos maiores jornais do País numa época de polarização política inédita.

Maria Cristina Frias – que assumira o cargo de Diretora de Redação há seis meses, depois da morte do irmão Otavio Frias Filho – foi 'destituída' hoje pelo irmão mais novo, Luiz Frias.

O jornalista Sérgio Dávila, que estava há nove anos no cargo de Secretário de Redação e tem 25 de jornal, assumiu o posto.

A disputa, que põe em risco a sobrevivência do jornal e deve chegar à Justiça, envolve uma tentativa de reestruturação societária do Grupo Folha e a distribuição de dividendos dos negócios lucrativos da família.

O Grupo Folha controla o UOL, que por sua vez controla a PagSeguro. Ambos os negócios foram criados por Luiz Frias enquanto Otavio e Maria Cristina se dedicavam ao jornal.

A Folhapar tem 64,4% do UOL, e Luiz Frias tem dois terços da Folhapar. O outro terço pertence à Empresa Folha da Manhã, que edita o jornal.

No ano passado, o UOL levantou cerca de US$ 1,17 bilhão no IPO do PagSeguro. A companhia hoje vale US$ 9,4 bilhões na Bolsa de Nova York.

Luiz nunca escondeu que não vê futuro para o jornal impresso e tem se recusado a investir na publicação. Ele defende que o jornal viva por seus próprios meios.

Mas além de ser um executivo nativo do universo digital, fontes próximas à família dizem que ele também vê na postura editorial do jornal – que enfrenta um embate com o Governo Bolsonaro – um risco às ambições da PagSeguro, que dependem da regulação do Banco Central. No início do ano, Luiz assumiu o controle do Banco BBN.

A disputa para que os negócios rentáveis do grupo ajudem a financiar o jornal não vem de hoje. Quando já estava com a doença avançada, Otávio tentou convencer o irmão a liberar repasses de dividendos para o jornal – sem sucesso. (Luiz sustenta que os dividendos não são devidos. Cristina e Otavio discordavam.)

Com Luiz no comando, o jornal deve reduzir de tamanho. A expectativa na redação é de cortes radicais nos próximos dias.

No comunicado em que anunciou a saída da irmã, Luiz Frias disse que a decisão foi tomada pela maioria dos acionistas. O grupo tem três acionistas com direito a voto: Luiz, Maria Cristina e Fernanda Diamant, viúva de Otavio.

Maria Cristina tomou conhecimento da decisão do irmão ao chegar ao jornal nesta segunda-feira – e, segundo relatos de jornalistas da casa, teve até o acesso ao seu endereço de email bloqueado.

Maria Cristina também foi destituída do cargo de editora da coluna Mercado Aberto, que foi extinta: ela ficou sabendo da notícia pelos colegas, que receberam um comunicado enviado a toda a redação. Quando tentou acessar seu email para ler o comunicado no celular, não conseguiu ter acesso.

No lugar da coluna Mercado Aberto, a Folha voltará a publicar o Painel S/A, uma coluna de notas sobre economia e negócios – agora sob o comando da jornalista Joana Cunha, que foi repórter de Maria Cristina na coluna e correspondente do jornal em Nova York.

Maria Cristina ainda participou de um almoço com editores que já estava na agenda. Foi acompanhada de um advogado e chamou de "covardes" os executivos que tomaram partido do irmão, segundo pessoas que participaram da reunião.

Relatou ter sido "destituída" por Luiz com o apoio da viúva de Otavio, a herdeira de sua participação acionária, e disse que o objetivo de seu irmão era fechar o jornal.

A briga entre os irmãos acontece uma semana depois de Maria Cristina dar uma entrevista à ombudsman da Folha, falando de seus planos para ampliar a presença de mulheres na redação e dos desafios de conciliar a direção do jornal com a coluna Mercado Aberto.

"Gosto muito de fazer a coluna, mas considerei a princípio que as duas tarefas seriam inconciliáveis. Com o tempo, além da reação positiva de colegas e fontes de que seria importante continuar a escrever, eu me senti estimulada a prosseguir", disse na entrevista.

Veja a íntegra da nota de Luiz Frias aos funcionários do grupo:

"Caro profissional,

Acionistas da empresa que edita o jornal Folha de S.Paulo decidiram por maioria nesta segunda-feira, 18 de março, pela nomeação do jornalista Sérgio Dávila para exercer a função de diretor de Redação.

"Há 25 anos no jornal, Dávila ocupava o cargo de editor-executivo havia 9 anos, por escolha de Otavio Frias Filho, com quem conviveu diariamente por 14 anos e de quem recebeu a missão de zelar pelos preceitos do Projeto Folha: prática de jornalismo independente, crítico e apartidário, assegurada por uma empresa com saúde financeira.

Dávila sucede a Maria Cristina Frias, acionista que foi titular durante seis meses.

Luiz Frias, presidente do Grupo Folha / Empresa Folha da Manhã S.A."

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