Caso Itaipu: investigações no Paraguai reforçam suspeitas de negociata com o clã Bolsonaro

“Tudo nos leva a acreditar que existiu a tentativa de fazer um negócio paralelo, e isso não seria possível sem o conhecimento e autorização dos presidentes dos dois países”, disse o senador Eusebio Ramón Ayala, presidente da CPI que foi aberta no Paraguai

247 - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que foi aberta pelo parlamento do Paraguai para apurar os termos de um acordo sobre a venda de energia da usina de Itaipu, revelou o documento conhecido como “ata entreguista”, que quase levou à abertura de um processo de impeachment contra o presidente Mario Abdo Benítez, seu vice, Hugo Velázquez, e seu ministro da Fazenda, Benigno López.

Abdo escapou do impeachment, que foi arquivado pelo parlamento. Mas os efeitos das investigações continuam a desgastar o governo. Revelações trazidas pela CPI e as investigações reforçam as suspeitas de negociações paralelas com um grupo brasileiro que opera no setor energético, o Léros, que é ligado ao clã de Jair Bolsonaro.

Na ata, à qual Época teve acesso, é definido um cronograma de compra de energia por parte do Paraguai que eleva os níveis da última década. "Para 2019, o governo de Abdo Benítez se comprometia a adquirir 1.460 megawatts-hora. Em 2022, a potência subiria para 2.220 megawatts-hora. No ano passado, de acordo com informação enviada pelo governo paraguaio ao Congresso, o país comprou um total de 15.044 megawatts-hora, tendo meses de apenas 1.036 megawatts-hora de consumo", destaca a reportagem.

A operação traria grandes benefícios ao país e compensaria o aumento das despesas pela compra de energia — em quantidade e preços mais elevados — da Itaipu, o que necessitaria de de autorizações especiais dentro do Brasil para fechar um acordo deste tipo. 

O representante da Léros que foi ouvido nesta terça-feira 20 pelos promotores paraguaios confirmou encontros com Velázquez, o que reforça os indícios de que havia uma negociação paralela para fechar um acordo entre a Léros e a Ande.

Parlamentares paraguaios apontam que documentos e conversas vazadas revelaram que tais negociações teriam o eventual o aval dos presidentes Jair Bolsonaro e Abdo Benítez. “Tudo nos leva a acreditar que existiu a tentativa de fazer um negócio paralelo, e isso não seria possível sem o conhecimento e autorização dos presidentes dos dois países”, disse o senador Eusebio Ramón Ayala, presidente da CPI paraguaia.

O personagem suspeito de ligação entre o clã Bolsonaro e as autoridades paraguaias nesse acordo é Alexandre Luiz Giordano, suplente do senador Major Olmpio (PSL-SP). Apesar de não ter porte nem histórico no mercado de compra de energia, em maio deste ano, Giodarno viajou para o Paraguai para participar de uma reunião na Ande, a Eletrobras paraguaia, e tratar da compra de energia excedente de Itaipu, no mesmo período em que era finalizado o novo acordo entre Brasil e Paraguai sobre a usina. 

Segundo o advogado José “Joselo” Rodríguez, que se apresentava como assessor jurídico do vice-presidente do Paraguai, Hugo Velázquez, disse em entrevista que Giordano se apresentou como “senador”. 

"Giordano viajou para o Paraguai a convite de Adriano Tadeu Deguirmendjian Rosa, um dos donos da Léros, uma empresa comercializadora de energia instalada no bairro de Vila Olímpia, em São Paulo. Um mês antes, os dois já haviam viajado juntos para Assunção", destaca a reportagem da Época. 

Em mensagens trocadas com o então presidente da Ande, Pedro Ferreira, e divulgadas pela imprensa paraguaia, José Rodríguez afirma que a Léros representava a “família presidencial” e o “governo brasileiro”. Giordano seria, nas palavras do advogado que se apresentava como assessor do vice-presidente paraguaio, um “representante da família do alto governo do Brasil”.

Segundo parlamentares, o acordo causaria um “prejuízo econômico gigantesco” para o pais e no futuro, levaria à necessidade de implementar um tarifaço. “Do total da energia comprada da Itaipu no ano passado, a Ande (Eletrobras paraguaia) gastou US$ 349 milhões pela garantida (que foi 53% do total ) e US$ 43 milhões pela excedente”, disse Ayala.

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