Investir na crise venezuelana é um desastre para o Brasil, diz sociólogo

Para o sociólogo Marcelo Zero, a pressa do Brasil em se juntar aos países que condenaram a reeleição do presidente venezuelano NIcolás Maduro poderá custar caro ao país; "Com o agravamento do boicote econômico, a tendência é que o número de refugiados aumente e um dos países que vai arcar com as consequências disso é o Brasil", afirma Zero; segundo ele, "apostar no estrangulamento econômico da Venezuela é uma irresponsabilidade que pode levar o país a um tipo de guerra civil"

Presidente da Venezuela, Nicolas Maduro REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
Presidente da Venezuela, Nicolas Maduro REUTERS/Carlos Garcia Rawlins (Foto: Paulo Emílio)

Por Cyntia Campos, PT no Senado - No último final de semana, o presidente do país vizinho conquistou mais um mandato em um pleito que, embora fortemente boicotado pela oposição, levou às urnas 46% dos eleitores, um percentual superior ao registrado na eleição de Emmanuel Macron, na França e similar ao das últimas eleições para presidente do Chile—apenas para citar dois governos que contesta a "legitimidade" da reeleição de Maduro.

O sociólogo Marcelo Zero, assessor da Bancada do PT para questões internacionais, avalia as tensões políticas na Venezuela, a promessa de recrudescimento das pressões externas contra o governo chavista e faz um alerta sobre as consequências desse fomento à instabilidade: "Com o agravamento do boicote econômico, a tendência é que o número de refugiados aumente e um dos países que vai arcar com as consequências disso é o Brasil".

PT no Senado – O resultado da eleição na Venezuela não chega a surpreender. Era esperada a vitória de Nicolás Maduro e também o esperneio dos oposicionistas, dos EUA e de seus satélites. Esses adversários se aferram à suposta "falta de legitimidade" do pleito, dado o índice de abstenção. Há alguma razão nessas alegações?

Marcelo Zero – Não. A eleição venezuelana foi boicotada pela maior parte da oposição ao governo Maduro e participaram dela 46% dos eleitores registrados. Não é um percentual muito distante do que se tem visto no resto do mundo, em países que adotam o voto facultativo. A baixa participação nos processos eleitorais é um fenômeno que está se generalizando no mundo.

O instituto sueco IDEA [sigla em inglês para Instituto Internacional para a Democracia e Acompanhamento Eleitoral] aponta que a participação do eleitorado vem caindo em quase todos os países, desde a década de 90. A atual composição do Parlamento Europeu foi eleita em um pleito com 42% de participação.

Outro exemplo vem dos Estados Unidos — que lidera os questionamentos à eleição de Maduro. Na eleição do republicano George W. Bush, em 2000, o índice de participação foi de 51% do eleitorado e ele teve apenas os votos 24% dos eleitores registrados e 47,8% dos votos válidos.

Emmanuel Macron, o queridinho da nova direita e que também questiona os resultados eleitorais da Venezuela, foi eleito presidente da França, em 2017, em um pleito do qual participaram apenas 42% dos eleitores.

Maduro, nesta última eleição venezuelana, teve o voto de 28% das pessoas habilitadas para votar e 67% dos votos válidos. Participaram 46% dos eleitores. É rigorosamente o mesmo percentual do eleitorado que foi às urnas em março deste ano, no pleito que elegeu Sebastián Piñera presidente do Chile — outro que está questionando a legitimidade da eleição de Maduro.

Apontar "baixa participação" não é um argumento sério para questionar a eleição venezuelana.

PT no Senado – Qual a explicação da direita venezuelana para pregar a abstenção no pleito deste final de semana?

Marcelo Zero – O objetivo de Maduro, com essa eleição, era tentar construir uma base minimamente confortável para chamar a oposição para a negociação de uma saída para a crise do país. Ele ganhou uma eleição com razoável participação e chamou a uma grande negociação nacional. Mas a oposição, regida pelos Estados Unidos e seus satélites, não vai querer investir em negociação. Quer investir em mais conflito. No limite, numa intervenção externa.

PT no Senado – Qual é a dimensão da crise econômica na Venezuela, argumento que tem servido a quem quer minar a autodeterminação do país?

Marcelo Zero – A Venezuela já teria tudo para iniciar sua recuperação. O barril do petróleo já está sendo vendido a US$ 80 e a economia do país depende muito do preço do petróleo. Quando o barril estava contado a US$ 25, a situação era crítica. Aliás, a subida para US$ 80 é arte de Donald Trump, que rompeu unilateralmente o acordo nuclear com o Irã, provocando toda essa instabilidade nos mercados.

Diante disso, a Venezuela já poderia estar crescendo na casa dos 5% ao ano. Isso não ocorre por conta do boicote financeiro e comercial imposto pelos Estados Unidos. A venda de petróleo está muito abaixo do real potencial. Hoje, essas vendas alcançam 1,5 milhão de barris por dia, quando poderiam alcançar no mínimo o dobro disso. O país está vendendo muito menos petróleo do que poderia.

E o boicote liderado pelos americanos deve recrudescer. Trump já fala em impor novas sanções.

PT no Senado – Aparentemente, o forte apoio popular ao chavismo — um apoio mobilizado e organizado — blindaria a Venezuela contra tentativas de golpes brandos, como o que foi dado aqui no Brasil. Essa condição "à prova de golpes" tem seu lado perigoso, também, na medida em que tudo aponta para a construção das condições de uma intervenção estrangeira...

Marcelo Zero – A estratégia dos Estados Unidos e seus satélites aqui na América Latina é continuar asfixiando a Venezuela, comercial e financeiramente, para evitar que a situação do país melhore e favoreça a abertura de canais de negociação entre o governo e setores da oposição, condição necessária à superação da crise.

Os Estados Unidos, o Brasil, o Grupo de Lima [17 países signatários de uma resolução com imposições ao governo venezuelano] e alguns países europeus estão apostando no agravamento da crise econômica e, consequentemente, da instabilidade política. Mas o chavismo ainda tem muito apoio popular na Venezuela. Maduro continua a usar a renda do petróleo para financiar programas sociais, para investir em serviços públicos, favorecendo a população mais pobre.

Apostar no estrangulamento econômico da Venezuela para minar esse apoio popular é uma irresponsabilidade. Pode levar o país a um tipo de guerra civil. Além de provocar a deterioração drástica da qualidade de vida da população, especialmente a parcela mais pobre—que é quem mais sofre com o boicote—essa pressão pode levar a um novo agravamento da violência, sem perspectiva de solução.

PT no Senado – Existe uma perspectiva concreta de intervenção militar norte-americana na Venezuela?

Marcelo Zero – Trump deu aquela declaração desastrada de que não descartaria a intervenção militar. Num caso desses, teríamos, aqui na América Latina, uma situação parecida com o que acontece em países do Oriente Médio. O roteiro é parecido: provoca-se uma crise econômica, faz-se um boicote, cria-se o caos dentro de um país e depois se recorre a uma intervenção "por motivos humanitários". O resultado a gente já conhece.

PT no Senado – Que papel o Brasil pode desempenhar na busca de uma solução para a crise política na Venezuela?

Marcelo Zero – E nosso país, infelizmente, ao tomar partido nessa disputa, se descredenciou para pleitear a condição de moderador que os governos petistas tinham construído. O grupo que tomou o poder no Brasil já estava alinhado com a oposição venezuelana mais radical. Ainda quando estavam fora do governo brasileiro, essas forças já faziam parte de um esforço internacional de desestabilização do chavismo — basta lembrar aquela aventura bizarra do atual chanceler Aloyzio Nunes com um grupo de outros senadores de direita, que foram à Venezuela às custas dos contribuintes brasileiros para "dialogar com a oposição" local, atropelando o governo Maduro.

Quando os golpistas brasileiros chegaram ao poder, a primeira coisa que fizeram, em política internacional, foi suspender a Venezuela do Mercosul, inclusive com a vergonhosa chantagem econômica ao Uruguai—"ou vota ou paramos de comprar carne e calçados"—obrigando esse país à abstenção que garantiu a unanimidade dos votos que é exigida nesses casos.

Tentaram também tirar a Venezuela da Unasul e, diante da resistência da Bolívia e Equador, retiraram o Brasil e outros países desse bloco, decretando praticamente sua extinção.

Durante o governo Dilma, no auge da crise venezuelana, o Brasil teve um papel fundamental na mediação do conflito e contribuiu decisivamente para baixar a tensão. O próprio [oposicionista] Henrique Capriles reconhece que só pode sentar à mesa de negociações por mediação do governo brasileiro. Agora, porém, o jogo é outro

PT no Senado – Considerando o nível de mobilização dos setores populares venezuelanos, poderíamos em falar de um "Vietnã contemporâneo" bem nas nossas fronteiras. Como isso pode se refletir no Brasil?

Marcelo Zero – Para o Brasil, seria um desastre. Mesmo que não haja uma intervenção militar stricto sensu. Com o agravamento do boicote econômico, a tendência é que o número de refugiados aumente e um dos países que vai arcar com as consequências disso é o Brasil.

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