O Bin Laden da direita

Ele nunca atirou uma bomba, nem organizou ataques terroristas, mas a candidatura do republicano Paul Ryan a vice nos EUA é um atentado contra o estado do bem estar social

Ele nunca atirou uma bomba, nem organizou ataques terroristas, mas a candidatura do republicano Paul Ryan a vice é um atentado contra o estado do bem estar social.

Só o orçamento federal pelo qual foi o principal responsável já diz isso: reduz em 62% as verbas dos programas sociais americanos destinados a atender pobres, velhos, crianças, incapacitados e estudantes.

Segundo análise histórico-estatística, realizada pelo escritor e estatístico Nate Silver, ele é o mais conservador dos congressistas republicanos candidatos a vice-presidente desde 1900.

Mais direitista também.

Ryan é louvado pela maior parte da grande mídia americana como um liberal, com ideias sólidas e renovadoras, especialmente devido a seu plano para redução do tenebroso déficit federal.

Paul Krugman, professor de Economia e Assuntos Internacionais na Universidade de Princeton e colunista do New York Times, não tem uma avaliação muito positiva nem de Ryan, nem de seu plano.

Para ele: "trata-se de uma troca da redução de ajuda aos pobres por redução das taxas dos ricos, com o efeito em cadeia de propostas específicas que irão aumentar, não reduzir o déficit."

Krugman explica mais: "Ryan propõe basicamente 3 grandes coisas: golpear o Medicaid (programa de saúde para os pobres), cortar taxas das corporações e pessoas de alta renda e substituir o Medicare (programa de remédios caros de graça pra velhos) por um sistema de vouchers, com recursos drasticamente menores. Estas propostas concretas, executadas ao mesmo tempo, na verdade aumentariam o déficit na próxima década e além dela."

O que seria um desastre.

Essa liquidação na prática do Medicare e do Medicaid significaria o fim da Reforma de Saúde do governo Obama e do acesso dos mais pobres à assistência médica e hospitalar.

Como presidente da Comissão de Finanças da Câmara dos Representantes, Ryan foi peça decisiva na aprovação da proposta orçamentária, que reduzia profundamente os recursos para os programas sociais.

O Center on Budget and Policy Priorities criticou o orçamento de Ryan por aumentar os lucros dos mais ricos enquanto diminuía a pobreza e as desigualdades.

Pelos mesmos motivos, a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA também proferiu essa condenação.

Felizmente, o orçamento de Ryan está bloqueado no Senado dominado pelos democratas.

Coerente com as ideias do setor mais à direita do Partido Republicano, Ryan apresenta um mau escore na área dos direitos humanos.

Votou a favor da Lei Patriota, do governo Bush, uma coleção de violações da liberdade, inclusive a permissão do governo espionar o cidadão sem ordem judicial; votou pela não responsabilização do governo Bush por uma série de violações constitucionais caracterizadas; pela prisão indefinida, sem julgamento ou acusação formal, de meros suspeitos de terrorismo.

As guerras de Bush encontraram nele um firme defensor. Votou a favor das invasões do Iraque e do Afeganistão e de todos os pedidos de aumentos de verbas para armamentos e novas tropas. Quando a Câmara discutiu a retirada do Iraque, Ryan votou contra.

Completando seu currículo na área militar, Ryan tem preservado as despesas com armamentos da tesoura do seu projeto de cortes radicais no orçamento. Pelo contrário: como Romney ele é favorável a sua ampliação.

Coerente com a dureza com que trata os pobres em geral, Ryan tem se oposto a medidas de interesse dos imigrantes em particular.

Ele votou e trabalhou contra a aprovação do Dream Act, que garante residência permanente aos imigrantes ilegais que chegaram aos EUA com menos de 16 anos, desde que estudem ou sirvam nas forças armadas e tenham reputação sem manchas.

Outra minoria na mira de Ryan é a comunidade gay.

Ele quer emendar a Constituição para proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nada de  gays no exército é mais uma de suas bandeiras.

Por falar em minorias prejudicadas, o candidato republicano não esqueceu as mulheres.

Ele lhes nega direitos reprodutivos de forma total. Abortos devem ser proibidos sem exceções; nem em casos de estupro, incesto ou perigo de vida para a gestante.

Ele não só votou contra recursos federais para abortos de mães pobres (nos casos acima, previstos em lei), como também para o treinamento de agentes de saúde no atendimento dessas situações.

Além disso, co-patrocinou o "Ato de Proteção à Vida" que impede mulheres de usarem seu próprio dinheiro para comprar um plano de saúde que assegure proteção que cubra abortos.

Os programas de "Maternidade Planejada" e "Título X-planejamento familiar", que providenciam garantias preventivas de assistência de saúde aos pobres e famílias sem convênios, encontraram em Ryan firme defensor de cortes nos seus recursos. Ele passou por cima do fato de que suas posturas significavam o desamparo de milhões de mulheres.

Ele também ignorou os milhões de pessoas que esperam cura para doenças hoje incuráveis através das pesquisas de embriões ao co-patrocinar o "Ato de Santidade da vida" que determinava que os óvulos fertilizados "terão todos os atributos constitucionais e privilégios das pessoas" e dava aos executivos e legislativos dos governos dos EUA e de seus estados "a autoridade para proteger as vidas de todos os seres humanos (inclusive os óvulos) residentes em suas jurisdições."

Isso poderia levar a uma lei que "criminalizaria qualquer aborto, bem como fertilização in vitro e até algumas formas de controle de natalidade."

Com uma folha corrida tão rica e expressiva de suas posições, Paul Ryan tem recebido da organização da Campanha de Direitos Humanos nota 0, por sua atuação parlamentar.

Essa má avaliação é compensada por uma nota "A" da National Rifle Association, que reúne todos os defensores do porte e do livre comércio das armas de fogo. Paul Ryan é um deles.

Com a escolha de Ryan para seu vice, Romney mostrou que preza mais a opinião do pessoal do Tea Partido e dos bilionários do seu partido.

De fato, Ryan tem sido sistematicamente convidado pelos irmãos Koch (as maiores fortunas individuais dos EUA) e do magnata do jogo, Adelson, para falar em reuniões com empresários adeptos de suas idéias de fazer caixa cortando programas  sociais, sem deixar de manter os subsídios de Bush aos ricos.

É mesmo o darling desses homens que tem dado muito mais dinheiro à campanha de Romney-Bush do que Obama-Biden tem recebido. O que faz a gente concluir que o Partido Republicano não andou mal ao privilegiar o pensamento dos seus bilionários e dos caipiras fascistas do Tea Party na escolha do seu candidato a vice-presidente.

Ou o dólar não pesa?

Krugman é muito enfático na sua posição anti-Ryan: "De fato, ele é uma grande fraude, que não se preocupa em absoluto com responsabilidade fiscal e cujas propostas políticas são tão desleixadas quanto desonestas. É claro que isso significa que ele combina perfeitamente com a campanha de Romney."

Tenho de concordar.

Explodir as finanças do país e de sua população mais carente não é pouco.

Se ele conseguir, vai deixar Bin Laden humilhado.

Luiz Eça é colunista de Política Internacional do CORREIO DA CIDADANIA e publicitário. Seu site de textos é www.olharomundo.com.br

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