O jogo de Vladimir Putin

Rssia usarJogos Olmpicos de inverno de 2014 para promoo de seu governo, mesmo que precise desembolsar 25 bilhes de euros

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Roberta Namour, de Moscou – Quem passa pela praça central, em frente a estação marítima da cidade balneária de Sochi, se depara com um imenso cronômetro de 3,5 toneladas, 4,15 metros de altura e 4,4 metros de largura. No visor, a contagem regressiva para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, de longe o mais importante evento internacional organizado pela Rússia depois da queda da União Soviética, em 1991. Segundo o relógio da empresa suíça Omega, cronometrista oficial da competição desde 1932, faltam pouco menos de 1 mil dias para o país provar ao mundo do que é capaz. Para isso, precisou desembolsar 25 bilhões de euros – em 2010, Vancouver gastou 1,5 bilhão de euros e em 2006, Turim investiu 3,5 bilhões de euros. “A Rússia está de volta!” - clamou Vladimir Putin em sua reeleição em 2004, e seu entusiasmo tem dado cada vez mais provas aos observadores ocidentais do retorno do País no âmbito internacional.

Tudo indica, no entanto, que o caminho até sua superação não será fácil. As autoridades russas têm sido alvo de duras críticas internacionais sobre sua capacidade de terminar a tempo essa construção capital para a imagem do País. “Nos resta muito trabalho pela frente, mas nós temos uma equipe muito sólida e eu tenho certeza que iremos conseguir juntos', assegurou o presidente do comitê de organização do Sochi-2014, Dmitri Tchernichenko. Todos os holofotes estarão voltados para a competição, já que o desempenho da Rússia será usado de parâmetro para a Copa do Mundo de 2018, também no País.

Os problemas de probreza, de abuso de poder em cima dos direitos humanos e da liberdade da imprensa continuam e tendem a aumentar. Mas a prosperidade finaceira de uma parte da população e a potência da economia russa, impulsionada pelo preço do petróleo, mascaram certas falhas internas e dão à Rússia novamente um lugar de destaque no cenário internacional. A escolha da cidade de Sochi como organizadora dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 é uma parte dessa conquista. Após a derrota de gigantes como Moscou e São Petersburgo, foi a pequena maravilha do Cáucaso que levou a melhor (mesmo se para muitos a vitória se deve a um grupo de lobistas britânicos interessados em parcerias do petróleo).

Além do caráter excepcional que oferece a cidade e a região (mar, montanha e floresta), sua situação geográfica e mesmo geopolítica tiveram um grande peso na escolha de sua candidatura. Sochi se situa ao noroeste do Cáucaso, a poucas dezenas de quilômetros da fronteira com a Geórgia e a 480 quilômetros da capital da Tchetchênia, Grozny. Em um cenário em que o Cáucaso continua sendo a região mais conturbada no mapa da Federação Rússa e em que as relações com a vizinha Geórgia não parecem melhorar, a questão estratégica da eleição de Sochi parece evidente. Do ponto de vista econômico e do desenvolvimento do território, essa estação balneária apresenta certas vantagens. Mesmo sendo pequena, a insfraestrutura herdada da época soviética não deixa a desejar. A cidade possui diversos hotéis, uma extensa rede de transporte, estações de trem e de esqui.

Mas para as ambições de Vladimir Putin, isso é muito pouco. O primeiro-ministro prometeu a implantação de um projeto astronômico, que prevê a construção e reconstrução de diversas centrais térmicas, a criação de uma nova linha de trens rápidos, um metrô e de uma nova rede hoteleira. No total, 242 instalações serão erguidas para os Jogos Olímpicos. E mais. Logo após a competição, uma pista de corrida de Fórmula 1 será instalada na região.

Tudo isso tem um custo. Putin vê Sochi-2014 grande, tão grande que será a edição mais cara da história dos Jogos Olímpicos. O orçamento previsto para 8 bilhões de euros já ultrapassou os 25 bilhões de euros, segundo o vice-ministro russo do desenvolvimento regional, Iouri Reilian. Um recorde absoluto. Basta saber se as obras vão terminar a tempo. As principais instalações esportivas, como o ginásio de patinação no gelo, a Vila Olímpica e o estádio principal não existiam antes da obtenção da Olimpíada e não devem ser concluídos antes de 2013. Outra questão que pode atrapalhar os planos do primeiro-ministro é a segurança. Em fevereiro deste ano, três russos foram mortos em uma estação de esqui recém inaugurada na proximidade de Sochi. No dia seguinte do crime, no entanto, o presidente russo Dmitri Medvedev ordenou aos serviços secretos de segurança redobrar as atenções na região. A Rússia promete investir 1,4 bilhão de euros para garantir a segurança durante a competição.

Ninguém duvida que o País fará o impossível para resolver todos esses problemas a tempo. Os resultados de tanto empenho já começam a aparecer. O número de turistas aumentou, assim como a criação de empregos. Uma situação ideal para Vladimir Putin reconquistar a população local diante de uma possível candidatura à presidência em 2012. E internacionalmente, o primeiro-ministro quer provar que a Rússia deixou de ser uma promessa BRIC para se tornar uma realidade.

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