O que esperar da presidência de Pedro Castillo no Peru

Professor da educação básica foi eleito com 44 mil votos de vantagem e assumirá cargo no dia 28 de julho

Pedro Castillo
Pedro Castillo (Foto: SEBASTIAN CASTANEDA/REUTERS)
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Michele de Mello, Brasil de Fato - No Peru, Pedro Castillo foi proclamado presidente para o período 2021-2026. Depois de avaliar mais de 200 pedidos de anulação do pleito, a justiça eleitoral reconheceu a vitória do candidato de esquerda, que obteve 44.263 votos de vantagem em relação à Keiko Fujimori. A advogada Dina Boluarte, também do partido Peru Livre, será a vice-presidenta.

Depois de um mês e meio de espera pelo resultado oficial, os peruanos ocuparam as ruas de Lima para festejar a proclamação do novo presidente. Fujimori assumiu a derrota, como seu dever constitucional, mas afirmou que  “a verdade ainda virá à tona”.

Seu partido, Força Popular possui a segunda maior bancada do Congresso, com 24 deputados, atrás somente do partido governante Peru Livre, que elegeu 37 parlamentares.

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“Creio que sua estratégia nestas semanas que não se havia confirmado o resultado, foi consolidar-se como uma liderança da direita, capaz de encabeçar a oposição ao professor Castillo”, aponta o sociólogo peruano Alberto Adrianzen.

O resultado mostra um cenário de polarização da sociedade peruana que não se expressava desde a década de 1970. Para o sociólogo peruano, a direita irá unificar-se em torno à bandeira do “anticomunismo”, já que o partido de Castillo se identifica como marxista, leninista e mariateguista.

Posse

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No dia 28 de julho, os novos chefes de Estado serão empossados, o que significa que terão apenas uma semana para realizar a transição com a gestão interina de Francisco Sagasti. Um dos principais desafios será lidar com a atual crise sanitária. O Peru acumula 1,98 milhão de casos e 187 mil falecidos pelo novo coronavírus, possuindo a maior taxa de letalidade do mundo: 5.921 mortos a cada milhão de habitantes.

Até o momento, pouco mais de 4 milhões de cidadãos completaram o ciclo de imunização, Castillo promete vacinar toda a população até o final do ano.

Principais propostas

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O carro-chefe da campanha de Pedro Castillo era a realização de uma reforma constitucional para alterar a atual Carta Magna, promulgada em 1990, durante o regime de Alberto Fujimori, pai de Keiko. Com um parlamento dividido em dez bancadas, a aprovação da proposta será outra tarefa para o líder do partido Peru Livre.

“Há um debate se ela será feita por um referendo, que necessita pelo menos 10% de assinaturas do eleitorado, ou se será através de emenda constitucional. Até agora a única aliança firme que Castillo possui no Congresso é com Juntos pelo Peru, que tem apenas cinco deputados. O resto ele terá que negociar”, indica Adrianzen.

No plano econômico, Castillo recebe um país com 70% da população economicamente ativa empregada no setor informal.

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O partido Peru Livre defende uma agenda que classifica como "economia popular com mercados", no qual pretende estabelecer que essa gire "em torno dos interesses do povo".

“A reativação econômica é um grande assunto. Terá um papel central o investimento público e o investimento privado, mas é um assunto que irá definir a relação do Estado com os empresários. Ele [Castillo] já disse que não haverá estatizações, mas sim nacionalizações, como na Bolívia com os recursos naturais. Também que irá revisar alguns contratos de investimentos”, avalia o sociólogo peruano.

Para Adrianzen, a modernização do campo e a revisão de tratados de livre comércio que afetam a agricultura familiar, serão outras tarefas centrais do próximo governo.

“Castillo, que é professor de zonas rurais, também prometeu aumentar o investimento em educação pública para 10% do PIB e implementar uma campanha de combate ao analfabetismo. O processo constituinte implica no fim de um ciclo histórico e o início de outro. É a possibilidade que se abre para o Peru”, afirma.

O sociólogo ainda compara Castillo com o ex-presidente argentino Néstor Kirchner, que foi eleito com uma pequena vantagem, mas conseguiu reconstruir alianças majoritárias para governar, apoiando-se no peronismo, e logo tornou-se um dos governantes mais populares da história do país.

Nos próximos dias, Castillo deve anunciar sua equipe de governo, o que irá aclarar como serão suas maiores alianças. Até agora, entre os nomes confirmados da sua equip, estão o ex-procurador anticorrupção Avelino Guillén, conhecido por promover um processo contra Alberto Fujimori, o físico nuclear Modesto Montoya e a socióloga Anahí Durand.

Também se espera que a ex-candidata de Juntos pelo Peru, Verónika Mendoza seja nomeada para algum ministério.

Repercussão

Vários líderes políticos e presidentes felicitaram o novo mandatário peruano. O ex-presidente da Bolívia, Evo Morales publicou “é o triunfo da dignidade e a unidade do povo humilde contra o neoliberalismo. Pedro mostrará como governar para o povo mais marginalizado e sacrificado”.

Luis Arce afirmou que tem esperança de que o povo peruano seguirá adiante.  O presidente da Venezuela Nicolás Maduro destacou “se abre um novo ciclo político que desejamos que seja de êxito para esta nação sul-americana. O povo venezuelano abraça os irmãos e irmãs peruanas”.

O chefe de Estado cubano Miguel Díaz Canel também desejou êxitos ao novo mandatário, assim como o recém eleito presidente do Equador, Guillermo Lasso, o uruguaio, Luis Lacalle Pou e o paraguaio Mario Abdo Benitez. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro foi o único da América do Sul a não se pronunciar.

O secretário geral da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba-TCP) disse que o bloco vê com esperança “o triunfo popular que contribuirá para fortalecer os laços indestrutíveis entre os povos da Pátria Grande”.

Já o mandatário argentino, Alberto Fernández reiterou as felicitações afirmando “juntos trabalharemos por uma América Latina unida”.

A expectativa é de que a política exterior do Peru dê um giro de 360 graus, começando com o fim do chamado Grupo de Lima, uma aliança de governos de extrema-direita, criada em 2017, com o objetivo de ser uma base de apoio dos Estados Unidos em ações contra o governo venezuelano na Organização dos Estados Americanos (OEA).

“O que é certo é que o Peru tem a oportunidade de somar-se a um novo ciclo progressista. Se ganha o Lula no Brasil, Petro na Colômbia, a esquerda no Chile, evidentemente o mapa político da América do Sul irá mudar substantivamente”, analisa Alberto Adrianzen.

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